Esportes

Dirigente aos 24 anos, Luiza Estevão está no comando do futebol do Brasiliense


Ainda quando se imagina quem comanda um clube de futebol, a imagem costuma ser a de um homem com mais de 50 anos e de semblante sério, típico cartola dos tempos passados. No Brasiliense isso não é assim. O time da capital federal ganhou no mês passado a Copa Verde e é presidido por uma jovem de 24 anos que já se vestiu de mascote, pintou o cabelo para celebrar conquistas e é amiga dos jogadores. Luiza Estevão dirige há cinco anos o clube e neste Dia Internacional da Mulher é um exemplo do quanto elas ganham cada vez mais espaço no futebol, num caminho sem volta.

Luiza assumiu em 2016 o time criado em 2000 pelo pai, o ex-senador Luiz Estevão. Apesar de ter cinco irmãos mais velhos, foi ela a escolhida para cuidar do Brasiliense. “Meu pai sempre viu que eu tinha jeito para enxergar o jogo e para entender de gestão. Eu virei diretora do clube aos 19 anos. Antes disso, já pensava em atuar no futebol”, disse ao Estadão.

Atualmente, ela está no cargo de vice-presidente do Brasiliense e cursa o último semestre da faculdade de Psicologia. O pai, Luiz Estevão, está afastado do futebol desde 2016 após condenação por fraude na construção do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, acusado de desviar R$ 169 milhões na execução da obra da sede do tribunal na década de 1990. Atualmente, ele cumpre prisão domiciliar por causa da covid-19. Ainda assim, o vínculo entre o ex-senador e o clube é tão relembrado no futebol que causa situações curiosas.

Anos atrás, um time foi utilizar a estrutura do Brasiliense para treinar. Um dirigente chegou ao local e, ao encontrar Luiza no comando, perguntou pelo pai dela: “Cadê o homem do clube?”. Bem humorada, a dirigente respondeu: “O homem do clube sou eu”. Em fevereiro, a equipe estava em Belém para disputar a final da Copa Verde contra o Remo e quem encontrava a delegação geralmente se confundia. Os cumprimentos de “bom dia, presidente” não eram para Luiza, mas sim para algum homem ao seu lado.

Bem humorada, a cartola do Brasiliense não se sente ofendida por essas situações. “No começo, eu enfrentei mais preconceito. Não tanto por ser mulher, mas por ser jovem. Alguns achavam que eu era uma criança. Não foi fácil. Dentro do clube, sempre tive muito respeito e consegui também mostrar meu trabalho e valor”, afirmou. Desde que assumiu o cargo, a equipe conquistou dois títulos.


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Luiza acompanha todos os treinos do time e viaja sempre com o elenco para os jogos. Após o título da Copa Verde, ela entrou na brincadeira com o elenco. Os atletas jogaram a dirigente para o alto na comemoração de campo e fizeram com que Luiza topasse um desafio. Para comemorar o título, alguns jogadores mudaram a cor do cabelo. A vice-presidente aceitou descolorir também algumas de suas mechas.

“Algumas vezes, tentei ser uma dirigente séria, mas não posso fingir que tenho 50 anos e sou ranzinza. Eu gosto de brincar e isso ajuda a ser mais próxima dos jogadores e a ter resultados. Costumo dizer que eu e o elenco somos crianças que ainda gostam de jogar bola”, comentou a dirigente. Bastante ativa nas redes sociais, ela até já vestiu a roupa de jacaré, a mascote do clube de Brasília.

O trabalho no Brasiliense faz Luiza receber várias mensagens de outras garotas interessadas no futebol. Algumas sonham até mesmo em ser dirigentes. Na opinião dela, o segredo para um clube ter sucesso é pagar os jogadores em dia, ter coesão no trabalho e nas decisões e fazer contratações certeiras. Ela garante que seu pai não apita nada em sua gestão.

Um dos jogadores trazidos recentemente para o Brasiliense é admirador do trabalho da dirigente. O atacante Zé Love foi campeão da Copa Libertadores pelo Santos ao lado de Neymar e defende o time da capital desde 2019. “O futebol não está mais como antigamente, tão machista. Hoje se abriu o leque”, disse o jogador de 33 anos. “A Luiza tem idade próxima à de vários jogadores, então isso facilita a convivência. Ela está sempre muito presente nos treinos, conversa com todos. Por ser jovem, se dá muito bem com os atletas e dá liberdade para todos nós”, explicou Zé Love.

Os atletas recém-chegados demoram a se acostumar com a presença de uma mulher no comando. Mas é assim que é. Alguns até se sentem intimidados em falar palavrões ou fazer brincadeiras na presença da cartola. Porém, logo se soltam e entendem que no entender dela, um ambiente de liberdade é mais positivo para o futebol. Tira a pressão também.

Revelado pelo Fluminense, o volante Radamés está há três anos no Brasiliense e afirma que se um dia quiser trabalhar em outro time, Luiza tem capacidade para fazer uma boa gestão. “Há muito preconceito no futebol. As pessoas até podem duvidar da Luiza, mas quem convive com ela, vê como ela trata as pessoas e é correta. Ela consegue se impor sem ser ‘durona’ e é capaz de gerir de maneira simples um clube que tem 35 jogadores homens. Ela é muito equilibrada e inteligentíssima”, disse. O Brasiliense é sediado em Taguatinga (DF). O time disputa o Campeonato Brasiliense e a Série D do Campeonato Brasileiro.

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