Enquanto parte da indústria audiovisual acelera a adoção de processos automatizados, o diretor Quentin Lewis segue na direção oposta. Em sua nova série, “Caesar – The Ides of March”, ele utiliza a Unreal Engine para construir manualmente cada elemento de uma Roma distópica, mantendo controle total sobre luz, enquadramento e movimento de câmera.
Inspirada em Júlio César, de William Shakespeare, a produção transporta a tragédia política para um cenário de ficção científica. A narrativa aborda temas como traição, ambição e os limites da natureza humana diante de regimes autoritários, em um ambiente marcado por vigilância e controle.
Em um momento em que comandos simples geram imagens complexas por meio de inteligência artificial, Lewis questiona a ausência da marca autoral nesse processo. Para ele, a precisão técnica não substitui a presença do criador. Na série, essa visão se traduz em um método que privilegia o fazer manual, mesmo dentro de um ambiente digital avançado.
Apesar do uso de tecnologia de ponta, o processo é deliberadamente minucioso. Cada cenário, iluminação e composição são construídos com atenção artesanal. “A construção manual, a escolha da luz e o tempo dedicado ao enquadramento fazem parte do prazer de criar. É isso que dá identidade ao projeto”, afirma o diretor. Segundo ele, mesmo quando imperceptível, essa diferença impacta a experiência do público.
A liberdade do ambiente virtual é explorada não para acelerar etapas, mas para aprofundar o detalhismo. Se antes havia limitações físicas de equipamentos, agora o diretor compara seu processo ao de um pintor que pode ajustar cada elemento da cena com precisão absoluta, inclusive a posição do sol.
A estética da imperfeição
Lewis reconhece que a inteligência artificial pode gerar imagens mais polidas em menos tempo, mas defende o valor da imperfeição como linguagem artística. Ele compara essa diferença à de uma fotografia nítida e uma pintura clássica, em que o gesto humano e a interpretação criam camadas adicionais de significado.
O processo de produção, no entanto, exigiu alto nível técnico. Sem recorrer a automatizações, cada captura de movimento e expressão facial passou por ajustes manuais, em um fluxo de tentativa e erro e constante adaptação às ferramentas.
Um manifesto criativo
Mais do que uma escolha técnica, “Caesar – The Ides of March” se posiciona como uma afirmação do papel do artista em um cenário dominado pela automação. Para Lewis, o avanço das ferramentas digitais não deve apenas acelerar a produção, mas ampliar a autonomia criativa.
A série propõe, assim, uma reflexão sobre o futuro da criação audiovisual, ao mesmo tempo em que convida o público a perceber aquilo que não pode ser replicado por algoritmos: a sensibilidade humana presente em cada detalhe da obra.