Internacional

Direita, volver!

Recessão e pandemia levam o peronismo a derrota avassaladora nas primárias legislativas da Argentina, abrindo espaço para a volta da centro-direita. O resultado provoca demissões no governo e pode implicar na política externa

Crédito: MAXIMILIANO LUNA

EM CRISE Alberto e Cristina: derrota dificultará a aliança dentro do peronismo (Crédito: MAXIMILIANO LUNA)

BUFÃO Ultraliberal e populista, Javier Milei quer a extinção do Banco Central da Argentina (Crédito:ALFREDO LUNA)

Cansados com a pandemia e a recessão, os argentinos deram uma surra no peronismo nas eleições primárias de domingo 12, e se preparam para repetir o voto em 14 de novembro. O resultado que saiu das urnas representou uma derrota para o presidente Alberto Fernández e sua mentora, a atual vice-presidente e senadora Cristina Kirchner, abrindo uma crise ministerial. Na quarta-feira 15, cinco ministros pediram demissão. A derrota foi um resultado desastroso. A coligação peronista de centro-esquerda “Frente de Todos” foi derrotada na cidade de Buenos Aires e em 15 províncias. A coligação de centro-direita “Juntos pela Mudança”, que reúne candidatos da União Cívica Radical (UCR), da “Proposta Republicana”, do ex-presidente Maurício Macri, e até dissidentes peronistas, venceu em 15 províncias, além de Buenos Aires neste ano, mais a capital Buenos Aires. A socióloga Maria Cecilia Ipar, da Universidade de Buenos Aires (UBA), observa que a “Proposta Republicana” de Macri se consolida como a principal força da oposição.

ISOLAMENTO Milhares de lojas fecharam na longa quarentena de 18 meses (Crédito:Manuel Cortina )

Os analistas são unânimes em indicar as causas da derrota. Atingida por uma recessão que já dura três anos, e uma inflação que deverá chegar a 50% neste ano, a população rejeitou o peronismo e, especialmente, sua vertente kirchnerista. Além disto, a quarentena argentina durante a Covid-19 foi a mais longa do mundo, durando 18 meses. “A base popular votou contra Cristina e Alberto. Ela perdeu até em Santa Cruz, que é sua província natal. Se o resultado se repetir no dia 14 de novembro, Alberto Fernández terá que negociar com a oposição e mudar o rumo para chegar a 2023”, diz o cientista político Juan Pablo Lohlé. Ele calcula que a economia argentina demorará entre um e dois anos para se recuperar. Além disso, o presidente foi atingido por um escândalo. Em maio de 2020, enquanto o país cumpria um isolamento social rigoroso, Fernández recebeu convidados sem máscara na Quinta de Olivos, residência oficial do mandatário, para comemorar o aniversário da primeira-dama Fabíola Yañez. As fotos da festa vazaram na Internet causando revolta no país, que registrou mais de 100 mil óbitos na pandemia.

Como resultado da indignação popular, os peronistas perderam 4,8 milhões de votos, em comparação com as primárias de 2019. Enquanto a estrela do presidente e da sua mentora perde o brilho, a oposição saiu mais forte, como Horacio Rodríguez Larreta, o atual prefeito de Buenos Aires, que é um aliado de Macri, defensor do liberalismo na economia. Larreta, da “Proposta Republicana”, é visto como um potencial candidato à presidência em 2023. Em novembro, o eleitorado escolherá 127 dos 257 deputados e 24 dos 72 senadores. A situação econômica assustadora da Argentina ajudou a oposição. O PIB caiu 14,4% desde 2018. Em dólares, o tombo foi de 40% — caiu de US$ 643,6 bilhões em 2017, para US$ 383 bilhões em 2020, segundo o Banco Mundial. A renda per capita recuou de US$ 14,6 mil em 2017 para US$ 8,4 mil em 2020. A extrema pobreza avançou de 35% para 42% da população neste ano.

Extrema direita 

O desespero com a falta de soluções levou ao fortalecimento da extrema direita, representada pelo movimento “A Liberdade Avança”, cujo principal candidato a deputado, o economista Javier Milei, obteve 238 mil votos na capital. Por enquanto, o partido nanico de Milei não assusta: na melhor das hipóteses, deve eleger quatro deputados. Milei é um personagem caricato. Professor de Economia ultraliberal, ele defende a extinção do Banco Central, o Estado mínimo e xinga os adversários. Sempre com os cabelos desalinhados, Milei se define como um “anarco-capitalista”. “Sabe o que eu admiro no Bolsonaro? Ele tirou todo o trabalho da esquerda brasileira. Quando você enfrenta a esquerda, tem que bater de frente”, escreveu em uma rede social.

“Ele é louco. Mas o discurso antissistema atraiu os jovens da capital”, diz Lohlé. Milei teve 13% dos votos na capital argentina. Lohlé acredita que o presidente Fernández terá que fazer concessões no Congresso, como abandonar a reforma do judiciário — que beneficiaria Cristina — e mudar a política externa, se afastando de Cuba e da Venezuela e se aproximando do Brasil e dos EUA. Os mercados receberam bem a vitória da coligação de centro-direita, indicando que se afastar do populismo é um primeiro passo para o país retomar o desenvolvimento.