Digno de pena junto ao mundo

Crédito: Ilustração: Lézio Júnior

(Crédito: Ilustração: Lézio Júnior)

Outro dia foi o próprio ministro do Meio Ambiente, o insofismável Ricardo Salles, quem colocou o País em um vídeo na condição de cachorro vira-lata, contemplando como pedinte faminto uma máquina de frango assado, numa malfadada alusão à necessidade brasileira por recursos. Não dá nem para sentir vergonha alheia, dado ao fato de estar ali representado (mesmo sem autorização) cada um de nós, na deliberada metonímia de pobres coitados que o apedeuta antiambientalista acabou por nos impor. Agora — imagine só! — investidores e autoridades internacionais assistindo àquele vídeo, em tom de galhofa, a avaliarem a condição dos relés miseráveis que estariam a viver por essas bandas, em uma Nação condenada por seus senhorios à ignorância, à desigualdade extrema e à falta de condições sanitárias mínimas para combater qualquer praga? É de dar pena mesmo. Detalhe: Eles nem sabem, afinal, o que vem a ser uma máquina de frango assado a girar com espetos contemplativos, porque não possuem nada parecido por lá. A genialidade imbecilizante do ministro teve, ao menos, seu lastro de alcance informativo circunscrito aos nativos. Por essas e por outras, o Brasil alcançou nos últimos anos, não há dúvida, o pináculo da suprema humilhação frente ao mundo. Converteu-se em pária digno de comiseração e caridade. Quando não de deboche e ironia. A Nação, hoje recordista em mortes decorrentes da Covid, que ainda passa receita de drogas ineficazes em um kit de tratamento preventivo sem respaldo médico, que relega o lockdown e prega a aglomeração, palco de mais de uma centena de variantes do vírus, assombra o planeta inteiro. A Pátria das queimadas e desmatamentos, onde invasões de áreas indígenas são permitidas e incentivadas pelo próprio governo, na qual o garimpo ilegal grassa com fervor, madeireiros e grileiros fazem o que bem entendem, compondo parte de um cenário de crime organizado na região, não encontra decerto sintonia com nenhum princípio de civilidade propagado na comunidade internacional. O País que desmantelou a Educação, adotou cartilhas de gênero, desabou dezenas de posições no ranking do Pisa e não oferece qualquer solução alternativa de aprendizado aos seus alunos mais carentes desperta sim um sentimento de surpresa e desprezo global. O Ministério da Educação — que já segue na gestão do quarto titular, em pouco mais de dois anos — encena um show de horrores, em mãos despreparadas e ideológicas. Deixou agora de fora do Fundeb, o fundo de amparo ao ensino, milhares de estudantes. Quase 700 mil matrículas de tempo integral foram ignoradas na divisão do bolo. Nova calamidade. Gerações inteiras perdidas pela inoperância e irresponsabilidade do MEC, sob péssima direção. O Brasil que ceifou os recursos de instituições vitais como o IBGE, o INPE, o Ibama — privado, por falta da verba, de sua condição essencial de investigar atentados ambientais —, e que, pelo segundo ano consecutivo, não irá realizar o Censo, está condenado ao obscurantismo profundo, não há dúvida. O Brasil da louvação a ditadores, que ignora direitos individuais, persegue opositores, incentiva ataques a poderes constituídos, amarrota a Carta Magna e estabelece o fundamento do “menina veste rosa, menino veste azul”, invariavelmente, é digno de lástima. A Organização Mundial da Saúde (OMS) nesse momento roga por ajuda ao Brasil. O papa Francisco também, pedindo orações e salvação frente ao incessante martírio. Há uma impressão generalizada, em todos os cantos, de um País indo à bancarrota. Em áreas as mais distintas. De diversas maneiras. Sem nada que salve. E o que é pior: Implodindo pontes nas relações externas, brigando com asiáticos, europeus, latinos e contrariando até americanos. Diante da prepotência exibida, mesmo à beira do precipício, como conseguir piedade dessa maneira? No máximo desdém, descaso. Até abandono. No concerto das Nações, no ambiente da solidariedade internacional, é preciso a penitência pelos erros e males cometidos. Mas o governo Bolsonaro está longe de tamanho altruísmo. Ao contrário. Insiste na convicção das práticas insanas. Negacionistas, escapistas, terraplanistas, vigaristas estão em alta na terra do Messias. A cientista e intelectual Ruth Rocha, autora de clássicos da literatura brasileira, diz que esse mandato do “mito” deve atrasar o Brasil por “uns 50 anos”. Não está longe da verdade. Tome-se o caso da vacinação. Para um País que, no passado, em três meses imunizava ao ritmo de 80 milhões de pessoas — ou quase três milhões ao dia — contra o vírus do H1N1, hoje mal consegue aplicar uma média diária de 300 mil doses para debelar a Covid-19. Dez vezes menos, implodindo com a reputação do Programa Nacional que era um dos mais eficientes do mundo. E por que? Por falta de doses, não contratadas antecipadamente (embora estivessem lá disponíveis), por ausência de planejamento, de empenho e interesse federais. Afinal, o mandatário sempre perguntava: “Por que a pressa?”. Prometia o mundo correndo atrás do Brasil para oferecer vacinas — “um dos maiores e melhores mercados” — e ainda insinuava, criminosamente, o risco de o imunizante transformar todo mundo em jacaré. O genocida, alvo finalmente de uma CPI, definitivamente converteu o Brasil em pária desprezível entre seus pares. Lá fora, brasileiros começam a ser hostilizados e até marginalizados pelo risco que, supostamente, oferecem de contaminar os demais. Está acontecendo em Portugal, na França, na Alemanha. Cidadãos de quinta categoria por má fama, promovida diretamente via um mandatário. E há poucas chances de mudança no curto prazo. Basta olhar a economia. O Brasil desabou da condição de sétimo maior PIB global para o 13º lugar. No conjunto da OCDE, foi o único a apresentar números negativos de crescimento nos últimos meses. Tem a moeda mais desvalorizada da face da Terra, no intervalo do último ano, frente ao dólar. Patina em resultados. Na praça local, aumenta o desemprego, os juros, a inflação, a carência geral, a fome lancinante. Chegou a 19 milhões a quantidade daqueles que passam algum tipo de carência alimentar extrema por aqui. Quase o dobro do verificado no início de 2019. Para onde se olhe, indicadores nacionais tenebrosos e desanimadores são oferecidos. Um desastre administrativo sem paralelo. Eis a gestão pública para ficar na história como a mais repugnante e desprezível de todos os tempos. Nos editoriais dos principais veículos, mundo afora, a tragédia brasileira vem estampada rotineiramente. No The New York Times, no The Washington Post, na The Economist, nos ícones da informação internacional, as manchetes sobre o Brasil são desoladamente tristes. Colapso nos hospitais, recordes de devastação ambiental, inoperância oficial e nenhum sinal de que o Estado passará a trilhar o rumo certo. Como chegamos tão no fundo do poço? É possível que Jair Messias Bolsonaro se exima da responsabilidade. Faz sempre assim. É capaz de alegar para a claque de veneradores sua completa ausência de culpa pessoal na construção da calamidade. É do feitio. Mas não convencerá. Ao menos não a esmagadora maioria. Tão somente seguidores bovinos encaram a sina de não enxergar os fatos como eles são. Sem dúvida, a autoria da obra em gestação mostra-se evidente. Os atos, declarações e números dão conta do efeito sistêmico do vendaval bolsonarista. Não há como esquecer, nem negar. Dá até pena.


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