Diário do lockdown

Dia 1

Começou o lockdown, a inquestionável e importante medida para mitigar o resultado do vírus aliviando o sistema de saúde e ganhando tempo enquanto a ciência mundial se apressa em desenvolver sua principal prioridade de hoje: uma cirurgia de cérebro para possibilitar que nosso presidente entenda as consequências de seus atos negacionistas.
Estou preparado e motivado. E vou registrar aqui meu cotidiano, como um legado às próximas gerações.

Dia 2

Dizem os especialistas que é importante manter a rotina.

Então acordei às 6 horas, arrumei a cama, tomei banho, escovei os dentes. Preparei o café da manhã e caminhei
em círculos pela sala até às 7 horas.

É importante manter a forma física.

Em seguida, sentei diante do computador para responder Whatsapp e reuniões por zoom. Esse foi meu dia.

Esqueci de almoçar.

Dia 3

Acordei as 9 horas.

Bobagem acordar tão cedo se não vou pegar trânsito para chegar ao escritório. Tomei um banho rápido, café da manhã e sentei no sofá da sala para mandar mensagens.

Notei que estão postando alguns memes no meio das mensagens de trabalho.

Na geladeira só tinha requeijão.

Então, almocei requeijão com torradas, que foi o mesmo que comi no café da manhã.

A tarde mandei mais alguns Whatsapp de trabalho, intercalando com Instagram, porque é importante ter algum tempo para espairecer.

Dia 4

Acordei às 11 horas

Decidi tomar banho apenas à noite e trabalhar de cueca, já que só vejo as pessoas pelo zoom.

O requeijão acabou, então comi queijo ralado com ovomaltine. Hoje no grupo do trabalho tinha só memes.

À tarde deitei no sofá e peguei no sono.

Acordei de madrugada.

Dia 5

Não tomei banho ontem porque acordei de madrugada.

O ovomaltine acabou, então comi só queijo ralado o dia todo.

Fiquei procurando memes para botar no grupo de trabalho.

Dia 6

Hoje não sai da cama.

Ou melhor, sai para dar comida para o cachorro.

Como o queijo ralado acabou, experimentei a comida dele Não é tão ruim. Mas é dura.

Voltei para cama e dormi a tarde inteira.

Dia 7

Como dormi a tarde toda, troquei o dia pela noite.

Agora são 10 horas da noite e estou almoçando.

Descobri que colocando Coca-Cola na comida do cachorro ela fica bem macia. O cachorro adorou.

Dia 8

Reparei que estou há três dias com a mesma roupa.

O cachorro não quer mais ficar comigo no quarto.

Deve ser o cheiro.

Azar dele. Não vai ter o que comer.

Apesar de que a ração está acabando.

E não tem mais Coca-Cola.

Dia 9

Só bebi água da torneira.

Era isso ou detergente.

O cachorro sumiu.

Dia 10

Encontrei o cachorro.

Estava na área de serviço comendo minhas cuecas.

Não sei como ele abriu a máquina de lavar.

O que faz a fome, não é mesmo?

A quantidade de sabão em pó que ele ingeriu junto com a água deve garantir a hidratação e os sais minerais.

Não ligo de não ter mais cuecas, porque ontem decidi que não vou mais me vestir, assim não preciso lavar roupa.

Começo a sentir os efeitos da solidão.

Difícil não ter nenhum contato com outro ser humano.

Hoje de manhã ouvi o barulho de chave na minha vizinha.

Corri para abrir a porta e simular um encontro por coincidência. Dei de cara com ela e a filhinha no carrinho de bebê.

Só então lembrei que estava nu.

A menininha vai demorar alguns anos pra se recuperar.

Fechei a porta.

Também dane-se.

A mulher não sabe que não pode sair de casa?

O importante é que estou bem.


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