Diário da Covid

Pronto. Peguei.

Depois de dois anos trancado em casa, passando álcool gel até na sola das patas do meu schnauzer, fui finalmente agraciado com o vírus maldito.

Sei lá como ele penetrou no meu bunker higienizado, o danado.

Devo ter olhado para o lado e pimba, o bicho pulou da tela do computador para o mouse e de lá para meu sistema circulatório.

Estranho pensar que uma estrutura molecular que existia na corrente sanguínea de um morcego chinês, se reproduziu exponencialmente, mutou, matou milhões e hoje circula belo e formoso pelas minhas veias.

Eu sei. Eu sei. Estou rindo só para aliviar a tensão, já que faço parte de vários grupos de risco: gordos; fumantes; velhos e carecas.

Carecas são uma teoria minha, não comprovada cientificamente.

Mas pense: carecas possuem mais superfície de pele disponível para que os vírus procurem uma porta de entrada, sei lá. Eu acho.

Uma estrutura molecular infame, tomou o mundo de assalto.

Um nada. Uma coisinha invisível a olho nu que conseguiu ser mais eficiente em destruir economias do que o comunismo e o capitalismo combinados. Mais destrutivo do que fomos depois de milhares de anos criando armamentos bélicos. Mais disruptivo socialmente do que o liberalismo ou qualquer outra teoria de esquerda ou direita. Imigrou ilegalmente, rastejando através centenas de fronteiras aéreas, marítimas e terrestres, muito mais do que os NAVY Seals, os espiões soviéticos ou o MI6 inglês. Tomou igrejas, templos, sinagogas e mesquitas.

Como é que eu poderia imaginar que não seria capaz de passar pelo Manuel, o porteiro aqui do prédio?

Divido com vocês um breve diário do que tem sido minha rotina.

Dia 1

Acordei falando chinês.

Achei que poderia ser uma reação dos dois litros de gin que tomei na noite anterior.

Gin, poucos sabem, tem o efeito de álcool gel, mas no interior do organismo.

Não era. Pensando melhor, se fosse, eu teria acordado falando inglês.

Dia 2

Suei frio o dia todo. Cansado. Todo dolorido. O mesmo efeito de correr uma maratona, o que faz a gente pensar que talvez a maratona também seja uma invenção chinesa para destruir o planeta. Resolvi tentar uma outra garrafa de gin.

Dormi o resto do dia.

Dia 3

Decidi fazer um exame.

No hospital, depois de 6 horas esperando, finalmente consegui que cutucassem meu cérebro pelas narinas. Chegamos à Marte e ainda precisam enfiar uma agulha de crochê no seu nariz para saber se você está doente.

Comprei gin na volta.

Dia 4

Saiu o resultado.

Positivo.

Por alguns segundos, fiquei feliz.

Positivo é uma palavra otimista. Aí lembrei que em exames, positivo é ruim.

Acho que essa é uma questão que deveria ser discutida.

É evidente que “Negativo” deveria ser usado quando você está doente.

No terceiro dia suei frio e fiquei cansado. Todo dolorido. O mesmo efeito de correr uma maratona

Dia 5

Liguei para minha médica, a Dra. Lúcia, porque finalmente cedi ao fato de que não vou conseguir matar o vírus à base de gin.

Ela me acalma. Não tem muito o que eu possa fazer.

Beber muita água. Pergunto se pode ser gin.

Ela não responde.

Não tenho nenhum sintoma, além do pânico.

Enquanto você estiver lendo essas linhas, provavelmente já estarei curado. Se for o Ômicron, claro. Se não for, conto com suas energias.Se não tiver coluna na semana que vem, você já sabe. Foi o gin.


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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