Brasil

Diálogos comprometedores

Bolsonaro passou a ser alvo da CPI depois que mensagens no celular do policial Paulo Dominguetti mostraram que o presidente teria recebido representante da empresa Davati que intermediava a compra de vacinas: propina de R$ 2 bilhões

Crédito: Edilson Rodrigues

ACUSAÇÃO Domenguetti abriu o jogo e disse que o governo pediu propina de US$ 1 por dose de vacina (Crédito: Edilson Rodrigues)

Quanto mais a CPI da Covid-19 avança, mais o presidente Bolsonaro se compromete diretamente nas tramóias de compra de vacinas superfaturadas. A quebra do sigilo telefônico do Policial Militar, Luiz Paulo Dominguetti, revelou diálogos que sugerem um esquema de propinas que arrecadaria mais de R$ 2 bilhões. Numa triangulação de contatos, Dominguetti teria intermediado reuniões com o mandatário da República para o revendo Amilton Gomes de Paula e para o representante da empresa americana Davati Medical Supply, Cristiano Alberto Carvalho. A negociação envolveria 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca, comercializadas pela Davati. Bolsonaro teria recebido Amilton no dia 16 de março, conforme mensagem recebida pelo policial. O reverendo disse nas mensagens recuperadas pela CPI que tinha falado “com quem manda”. Tudo leva a crer que ele se refere a Bolsonaro. Os diálogos mostram que o presidente se envolveu nas negociações nebulosas e a CPI espera que ele dê explicações convincentes sobre o recebimento dos intermediários suspeitos.

RELIGIOSO Reverendo Amilton utilizou a proximidade com o presidente para concretizar as negociações (Crédito:Divulgação)

16 de março
(diálogo entre Dominguetti e o reverendo Amilton)

Amilton:
“Ontem falei com quem manda. Tudo certo! Estão fazendo uma corrida compliance da informação da grande quantidade de vacinas”

As mensagens

Em uma das conversas, Dominguetti procura seu chefe, Cristiano Alberto Carvalho, também da Davati, no dia 13 de março. O PM diz: “Estão viabilizando sua agenda com presidente”. A resposta de Cristiano foi enviada por áudio: “Dominguetti, por favor, verifica para mim se o presidente vai atender hoje ou amanhã ou até terça-feira, porque aí eu preciso mudar o voo e preciso reservar o hotel, tá bom? Obrigado”.

Na sequência, Dominguetti afirma que “já estão trabalhando para agendar” e que ele estaria aguardando um retorno do Palácio do Planalto. No mesmo dia, um pouco mais tarde, o policial volta a informar Cristiano: “O que eles me falaram, eu nem sabia que ia ter agenda com o Bolsonaro, você que me falou. O que eles me falaram é assim, que estão atuando fortemente lá, e agora depende é do presidente. O que eles estão tentando correndo é uma agenda extraoficial.”

Na resposta, Cristiano menciona o nome de Amilton em um contexto em que sugere que o reverendo é quem está articulando o encontro com o mandatário. “Dominguetti, agora nós precisamos aí. O reverendo está falando que está marcando um café da manhã com o presidente amanhã, às 10 horas, 9 horas, sei lá, que vai ter um café com os líderes religiosos e a gente vai entrar no vácuo, tá? Agora tem que fazê-lo confirmar isso aí para a gente colocar uma pulguinha atrás da orelha do presidente, tá?”.

Bolsonaro não encontrou líderes religiosos no dia 13 de março, segundo a agenda oficial. A reunião aconteceu dois dias depois, no Palácio do Planalto. O nome do reverendo Amilton não aparece entre os presentes. Durou cerca de duas horas, entre 16 h e 18 h. Às 17 horas, Dominguetti enviou uma mensagem a um auxiliar de Amilton, registrado na agenda do PM como “Amauri vacinas embaixada”, uma referência a outro nome pelo qual a Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah) também é conhecida. “Como foi a reunião do reverendo com o 01?”, questiona Dominguetti. E Amauri responde: “O reverendo está nesse momento com o 01”.

No dia 16 de março, o militar acionou o próprio reverendo pelo celular. Ao ser perguntado por Dominguetti sobre o encontro com Bolsonaro, Amilton diz: “Ontem falei com quem manda! Tudo certo! Estão fazendo uma corrida compliance da informação da grande quantidade de vacinas”. Na mesma data, outras duas pessoas da Senah com quem o PM tinha contato confirmaram o encontro entre Amilton e o mandatário. “Ontem o reverendo esteve com o presidente”, afirma uma mulher cujo número de telefone está salvo no celular de Dominguetti como “Maria Helena embaixada”.

Além do presidente, a primeira-dama também aparece nas conversas de Dominguetti. “Michele está no circuito agora. Junto ao reverendo. Misericórdia”, revela o policial. O interlocutor o questiona: “Quem é? Michele Bolsonaro?”. Dominguetti confirma: “Esposa sim”. Apesar de Michelle aparecer nos diálogos, a cúpula da comissão não identifica elementos suficientes para interrogá-la. O presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), escreveu no Twitter: “Eu sei o quanto é fácil para os desonestos de plantão citarem familiares em processos de lobby para mostrar intimidade com o poder”.

PRIMEIRA-DAMA Michelle também aparece nas mensagens auditadas (Crédito:Agustin Marcarian)

O reverendo entrou na mira da CPI depois que senadores identificaram que a entidade presidida por Amilton teria participado de negociações para a comercialização de vacinas com o Ministério da Saúde. A pasta chegou a reconhecer a Senah, comandada pelo reverendo, como intermediária na negociação paralela das 400 milhões de doses da AstraZeneca. O laboratório nega e informou que faz a negociação de imunizantes diretamente com os governos. Os parlamentares afirmam ter indícios suficientes para provar que Amilton era um interlocutor entre a Davati e o Ministério da Saúde. Agora, querem descobrir quais são os seus laços com o Palácio do Planalto. A CPI quer que o reverendo explique as conversas em que ele afirma ter se encontrado com Bolsonaro. Amilton foi convocado nesta semana para depor na CPI. O depoimento estava previsto para esta quarta-feira, 14, mas teve de ser reagendado. Ele apresentou atestado médico alegando uma crise renal que o impossibilitaria de comparecer à sessão por 15 dias.

Prevaricação

O cabo Luiz Paulo Dominguetti fez um depoimento digno de quem não tinha estofo para manter uma versão inventada e se complicou como nenhum outro inquerido. Ele disse que conheceu o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, por acaso, quando tomava um chopp num bar badalado em Brasília. Não contente, Dominguetti tentou incriminar o deputado Luis Miranda (DEM-DF) com a apresentação de um áudio. O tiro saiu pela culatra e o policial teve seu celular apreendido com informações preciosas para a continuidade das investigações. Dominguetti é PM da ativa e diz ser também representante da Davati no Brasil. A Davati não reconhece a intermediação do policial. “Nosso único representante no Brasil é Cristiano Alberto Carvalho”, afirma a nota da empresa assinada pelo CEO Herman Cardenas.

As conversas vieram a público na mesma semana em que Bolsonaro virou alvo de inquérito da Polícia Federal por suposta prevaricação durante a compra da vacina indiana Covaxin. As suspeitas surgiram depois de o deputado Luis Miranda (DEM-DF) ter dito em depoimento à CPI que avisou o capitão sobre irregularidades nas tratativas pela aquisição desse imunizante e que seu irmão, um servidor do Ministério da Saúde, foi pressionado durante as tratativas. Miranda relatou ter comunicado o mandatário em 20 de março e Bolsonaro teria dito que tomaria providências. Mas, ao que tudo indica, ele só tomou uma atitude em 23 de junho, depois que Miranda comentou o caso no depoimento à CPI. O deputado contou ainda que, na ocasião, Bolsonaro teria dito a ele e ao irmão que o problema no ministério era um “rolo” do seu líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR).

MUITO PERTO Os senadores Aziz, Renan e Randolfe entendem que a CPI tem provas que levam à responsabilização de Bolsonaro (Crédito:Pedro França)

O capitão evita tocar nesse assunto. Uma das únicas vezes foi na segunda-feira, 12, após reunião com o presidente do STF, Luiz Fux. Na entrevista, afirmou ter recebido “alguns papéis” de Miranda e repassado o caso para o então ministro Eduardo Pazuello. “Prevaricação se aplica a servidor público, não a mim”, disse Bolsonaro. Visivelmente abatido, o presidente confundiu o nome de Luis Miranda com o de Luiz Lima, um deputado do PSL-Rio. “Até o do Luiz Lima, mesmo conhecendo toda a vida pregressa dele, a vida atual dele, eu conversei com Pazuello sobre a denúncia do deputado Luiz Lima (Miranda) de que estaria algo errado acontecendo, dá para dar uma olhada?”.
Bolsonaro alega que não funcionário público para ser enquadrado no crime de prevaricação. Essa fala provocou reação da cúpula da CPI. “O presidente deveria saber que ele é o principal ‘servidor público’ do Brasil, e não CEO de empresa. Prevaricou, sim!”, escreveu o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues, no Twitter. Os diálogos revelados dão mais fôlego para responsabilizar o ex-capitão.