O Dia Mundial Sem Carro, celebrado anualmente em 22 de setembro e comemorado ao longo desta semana em diversas cidades, estimula a reflexão sobre a dependência excessiva de veículos motorizados. A iniciativa propõe a adoção de formas alternativas de mobilidade, como transporte público e bicicletas, buscando ruas com menos automóveis e mais segurança para pedestres e ciclistas. No Distrito Federal, a organização não governamental Rodas da Paz promove atividades para discutir e defender um futuro com mais deslocamento ativo.
- O Dia Mundial Sem Carro promove a reflexão sobre o uso de veículos e incentiva a mobilidade ativa em diversas cidades.
- A ONG Rodas da Paz organiza atividades em Brasília para estimular o uso da bicicleta e aprimorar a infraestrutura cicloviária.
- Entregadores por aplicativo destacam a falta de segurança e infraestrutura adequada como desafios diários para ciclistas.
A iniciativa do Dia Mundial Sem Carro estimula uma reflexão profunda sobre o uso exagerado do automóvel. Aos condutores que dirigem todos os dias, propõe-se uma análise sobre a dependência em relação aos veículos motorizados e a adoção de formas alternativas de mobilidade, como transporte público, bicicleta, patinete ou mesmo a caminhada.
ONG Rodas da Paz atua no DF
Nesta semana, no Distrito Federal, a organização não governamental Rodas da Paz tem realizado atividades sob o tema “Cidades Mais Humanas começam com escolhas diferentes”. O evento representa um convite à sociedade para experimentar, discutir e defender mais possibilidades de deslocamento, segurança e espaço para as pessoas.
O coordenador-geral da Rodas da Paz, Raphael Barros Dorneles, explica que para promover o uso de bicicletas é necessário adotar uma estratégia dupla. Um ponto essencial é o investimento na melhoria da infraestrutura cicloviária, com segurança, iluminação, sinalização, conectividade, conforto e arborização.
O outro pilar é a implementação de medidas que desestimulem o uso de veículos automotores, como cobrança de estacionamento, fiscalização rigorosa de infrações e priorização do transporte público e de ciclistas no trânsito. “Não basta somente estimular o uso da bicicleta. Tem que desestimular o uso do carro, se não as pessoas não migram”, afirmou Raphael Dorneles.
Ele complementa que “só o fato de ser dada prioridade à fluidez do trânsito para o transporte público e para a bicicleta já desestimula o uso do carro”.
É possível um ganha-pão mais seguro?
Nesta quinta-feira (24), a ONG Rodas da Paz planeja doar itens de segurança a entregadores por aplicativos que utilizam bicicletas. Serão disponibilizados espelhos retrovisores, campainhas, luzes, fitas refletivas e kits de remendo de pneus, conforme a necessidade individual de cada trabalhador.
Ítalo Santos Vieira, de 25 anos, trabalha há seis meses como entregador, cumprindo sete a oito horas diárias e transportando principalmente comidas e bebidas. O jovem relata que, por falta de recursos, atua sem itens essenciais de segurança, mesmo após já ter sofrido quedas durante o serviço sobre duas rodas.
“Eu tenho que pagar, senão, não tenho. Ainda estou sem espelho e cotoveleira”, lamenta Ítalo Santos Vieira.
(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
Adicionalmente, o entregador aponta que sua maior dificuldade é lidar diariamente com a falta de infraestrutura urbana e a ausência de redes cicloviárias conectadas. Ele menciona a má condição de ciclovias e calçadas, que o obriga a pedalar disputando espaço com carros e ônibus.
Essa realidade é semelhante à de Ivan Gabriel, de 31 anos, que há cinco meses tem nas entregas de bicicleta sua principal fonte de renda. Todos os dias, ele se desloca ao centro de Brasília, combinando metrô e bicicleta, para trabalhar por cerca de seis horas.
Ivan Gabriel conta que comprou o capacete, o cadeado e até a caixa térmica de isopor para levar as refeições, já que os itens não são fornecidos pela plataforma de delivery. Outra dificuldade relatada por Ivan é não encontrar um lugar seguro para guardar o veículo enquanto busca os produtos nos estabelecimentos.
“Há muitos roubos nesta área. A gente sempre tem que estar atento”, alerta Ivan Gabriel.
(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
Ocupação das ruas e descarbonização
Dentro da programação do Dia Mundial Sem Carro, no Distrito Federal, a ONG apoiou a realização da Bicicletada na noite de terça-feira (22). No evento, dezenas de condutores de bicicletas partiram da Universidade de Brasília (UnB) e percorreram cerca de 15 quilômetros nas vias da Asa Norte.
A Rodas da Paz também promoveu, na última segunda-feira (21), a edição de 2026 do Desafio Intermodal de Brasília. O teste prático de mobilidade urbana compara a eficiência de diferentes meios de transporte, que partem juntos de um mesmo local em direção a um mesmo destino na capital federal.
O objetivo é avaliar a alternativa de deslocamento mais inteligente e sustentável nas grandes cidades. São considerados fatores como o tempo real de percurso, o impacto ambiental, a emissão de poluentes por passageiro, a emissão de ruídos e o custo financeiro da viagem, que inclui o custo social e o investimento de recursos públicos na mobilidade urbana.
A última atividade prevista dentro da Semana do Dia Mundial Sem Carro será no próximo domingo (27), no Eixão do Lazer Sul, em Brasília. Será o lançamento da Carta-Compromisso da Mobilidade Sustentável, criada por organizações da sociedade civil.
O documento será entregue aos candidatos nas eleições de 2026, para que, se eleitos, assumam compromissos práticos por um trânsito mais seguro, inclusivo e ecologicamente responsável nos espaços urbanos.
(Foto: ONG Rodas da Paz/Divulgação)
Controle social e mobilidade sustentável
Raphael Dorneles explicou à Agência Brasil que um dos objetivos da ONG é a criação de um conselho deliberativo de mobilidade urbana sustentável e transporte. “Queremos ter um espaço estrutural deliberativo dentro da estrutura do GDF [Governo do Distrito Federal].
Ele complementa que a organização “briga pela participação popular, pelo controle social, pela governança e transparência de todo o processo da mobilidade urbana”.
Coletivos urbanos defendem ainda que o uso da bicicleta como meio de transporte, lazer e esporte pode trazer diversos benefícios para a saúde e para o bolso do ciclista. Isso inclui também a redução de emissões de gases de efeito estufa e da poluição atmosférica.
O coordenador-geral da Rodas da Paz explica que a bicicleta é um modal muito menos poluidor e tem um impacto ambiental significativamente menor. “Até a própria construção da bicicleta, a quantidade de material necessário para a construção, é muito menor do que para a fabricação de um carro”, afirma ele.
Raphael Dorneles conclui que a “estrutura viária necessária para a bicicleta ser muito menor do que para outros veículos, sobrando espaço para as pessoas, para casas, para comércio, para a área verde”. O especialista em mobilidade ativa projeta que o uso de bicicletas deve ser incentivado para tornar as cidades mais resilientes às crises climáticas.
Ministério das Cidades e investimentos
O Ministério das Cidades informou à Agência Brasil que tem, entre outras iniciativas, o Programa Avançar Cidades – Mobilidade Urbana. O programa visa à melhoria da circulação urbana e da segurança viária em todo o país.
A iniciativa financia ações de mobilidade urbana voltadas ao transporte não motorizado (transporte ativo), ao transporte público coletivo e à elaboração de planos de mobilidade urbana municipais e metropolitanos, estudos e projetos básicos.
Segundo a pasta, o Avançar Cidades recebeu investimentos federais de R$ 4,7 bilhões. Entre os projetos financiados estão a construção de calçadas acessíveis, ciclovias, iluminação pública e sinalização viária.
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