Dia do Quadrinho Nacional: relembre histórico dos quadrinhos com a política

Nona arte é frequentemente usada como ferramenta de denúncia e sátira social

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Presidente Lula, Ferréz e ministro Guilherme Boulos durante encontro Foto: reprodução/Instagram

O Dia do Quadrinho Nacional é comemorado nesta sexta-feira, 30 de janeiro, em homenagem à publicação da primeira história em quadrinhos do Brasil: na mesma data, em 1869, o artista Angelo Agostini lançava “As Aventuras de Nhô-Quim”, formalizando a tradição da arte sequencial no país.

Os quadrinhos são uma linguagem que combina a leitura sequencial dos quadros com a organização tabular. Diferente de outros formatos, a compreensão não ocorre apenas de forma linear (de um quadro ao outro), mas também a partir de uma percepção global do conjunto. Ou seja, antes mesmo de chegar ao último quadro, o leitor já apreende informações por meio da disposição dos elementos na página, realizando uma espécie de “leitura geral”. Esse processo é mediado pela visão periférica, que permite comparações visuais e antecipa sentidos, tornando a experiência de leitura mais complexa.

Antes da consolidação das histórias em quadrinhos com narrativas longas, artistas brasileiros já cultivavam a tradição de fazer charges e cartuns independentes. Grande parte dessas produções era marcada pela sátira social e política, utilizando o humor gráfico como instrumento de crítica e denúncia. Essa prática se tornou recurso recorrente no debate público nacional, atravessando o século XX, ironizando o período da ditadura e se mantendo presente nos temas contemporâneos.

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Luta contra a ditadura

De 1964 a 1985, brasileiros utilizaram a arte como forma de luta política contra a ditadura militar. Além das músicas e filmes, a produção de quadrinhos foi essencial para tratar assuntos que ainda eram tabus naquele tempo, seja pelas normas do regime autoritário ou pelo própria repressão moral.

O maior exemplo de produção gráfica da época foi o jornal “O Pasquim”, que reuniu nomes de peso da elite intelectual carioca – como Millôr Fernandes, Henfil, Ziraldo, Paulo Francis, Fortuna, Jaguar, entre outros. A equipe era conhecida pela linguagem despojada e satírica, com textos e cartuns sobre temas políticos, sexuais, artísticos e humorísticos.

Além dos textos afiados, o Pasquim ficou marcado como um jornal que integrou a produção escrita com as artes visuais, sempre aliando os comentários com cartuns, charges e quadrinhos. A afronta à ditadura militar era tanta que, nos anos 1970, quase toda a equipe de redação foi presa pelo regime, episódio batizado como a “gripe do Pasquim”.

Revisão de costumes

Com a reabertura política e a flexibilização da produção editorial, uma nova geração de cartunistas surgiu com a intenção de produzir arte fora dos padrões estabelecidos pelo Pasquim. Sendo a cidade de São Paulo o novo polo de quadrinhos nacionais, os anos 1980 a 1990 foram carimbados pelo sucesso de revistas de humor gráfico como “Chiclete com Banana” e “Circo”.

A produção era encabeçada por artistas como Laerte, Angeli, Glauco, Toninho Mendes, Luiz Gê, entre vários outros. Diferente da geração anterior – que focava em denúncias políticas mais diretas e monotemáticas – os jovens quadrinistas procuravam falar dos tipos sociais do espaço urbano, priorizando uma sátira política mais cotidiana, de revisão de costumes.

Isso não impediu, no entanto, o envolvimento direto de alguns cartunistas com a luta política: Laerte, uma das artistas mais referenciadas do Brasil até a atualidade, chegou a prestar serviços de desenho para diversos sindicatos. Ela deixou toda a produção dessa época em domínio público, de modo que as instituições trabalhistas pudessem reutilizar e adaptar os cartuns futuramente. Confira aqui.

Temas contemporâneos

Os quadrinistas brasileiros seguiram acompanhando a transformação social e política do mundo até as pautas mais recentes: a pandemia de covid-19, por exemplo, foi um tema tratado em larga escala por meio de tiras, HQs e charges a partir de 2020.

O destaque foi tanto que, no final de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi presenteado com um quadrinho intitulado “Dormindo entre Cadáveres”, que narra a rotina de um médico na linha de frente contra o vírus. Escrito por Luís Moreira Gonçalves e ilustrado por Felipe Parucci, a HQ chegou ao Planalto por meio do ministro da Secretaria-Geral Guilherme Boulos – que mantém histórico de parceria com Férrez, um dos fundadores da editora de quadrinhos Comix Zone.

Para além da pandemia, a guerra na Faixa de Gaza, explodida em 2023, fez com que diversos artistas dedicassem produções gráficas à causa. Em 2024, a campanha internacional #WithHandala [com Handala], reuniu artistas e cartunistas do mundo todo para manifestar solidariedade ao povo palestino e cobrar um cessar-fogo. Brasileiros como Carlos Latuff, Laerte e Daniel Lafayette participaram da ação.

Handala é um personagem criado em 1969 pelo cartunista palestino Naji al-Ali: um menino refugiado, sempre desenhado de costas, que representa resistência e exílio palestino. Desse modo, para a campanha, os cartunistas desenharam seus respectivos personagens virados de costas, em referência à figura de Handala.