“Dia D, hora H” — e um minuto de silêncio

Crédito:  Ueslei Marcelino

(Crédito: Ueslei Marcelino)

Eduardo Pazuello, general da ativa, mata o tempo como ministro da Saúde.

Antônio Barra Torres, almirante da reserva, mata o tempo como presidente da Anvisa.

Jair Bolsonaro, capitão da reserva, mata o tempo como presidente da República.

A pandemia de coronavírus, na ativa, mata gente.

Os três figurões da Nação pouco trabalham, e, quando o fazem, trabalham errado. Importam-se com o fato de que já morreram de Covid mais de duzentas mil pessoas no Brasil? Não, não se importam não. E, pior ainda, montam obstáculos para atazanar a vida de quem trabalha com seriedade e responsabilidade, colocando-se empaticamente no lugar dos familiares daqueles que partiram sem ar e sem poderem se despedir dos entes queridos. Quanto aos três militares exercendo funções civis, no que diz respeito à pandemia só falam — falam mais que a boca e falam bobagem. O campeão é o capitão, mas, na semana passada, o general roubou a cena. Pazuello perdeu uma ótima oportunidade de ficar com a boca fechada — aliás, essa poderia ser uma regra: os três manterem-se calados e sem papagaiar parvoíces. Em Manaus, que infelizmente se tornou uma capital cemitério, Pazuello declarou: “A vacina vai começar no dia D, na hora H no Brasil”. Usando linguagem de quartel, ele fez piada de péssimo gosto. Deu ruim, ministro, deu ruim! E ele completou a sua fala jogando palavras fora, como sempre o faz, dizendo todo empolado coisas que não significam absolutamente nada. Fingiu explicar: “Os estados receberão a vacina três ou quatro dias” depois que a Anvisa autorizar o início da vacinação. Como especialista em logística de almoxarifado, Pazuello deveria saber que, quando alguém diz “tantos dias depois”, é preciso ter uma data de referência para a contagem. Pois bem, ministro, quando a Anvisa vai autorizar a vacinação para que os brasileiros possam fazer o cálculo desses “três ou quatro dias”? Sobre isso, ele calou-se. Motivo: onde reinam o obscurantismo, o negacionismo, a irresponsabilidade e o desdém, ninguém sabe nada. Não sabe o general, não sabe o almirante, não sabe o capitão. Talvez a data da aplicação da primeira vacina seja 20 de janeiro, mas pode, também, ser a partir de 10 de fevereiro. Falava-se, na semana passada, que a Anvisa daria no domingo uma resposta sobre a Coronavac. Na verdade, seja qual for a data, o certo é que o Plano Nacional de Imunização dar-se-á com o atraso de uma eternidade de duzentos mil mortos.


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É exasperadora a situação da população brasileira, sobretudo se cotejada a de outros países — pelo menos cinquenta já estão imunizando seus habitantes, sendo que algumas Nações encontram-se na segunda etapa do procedimento. No Brasil, seguindo-se o ditado de que “muito ajuda quem pouco atrapalha”, as autoridades federais — que se mantêm indiferentes enquanto a Covid aniquila pulmões, lota UTIs, desespera famílias e leva profissionais de saúde a um estágio de completo esgotamento físico e emocional — bem que poderiam não atrapalhar. Estão atrapalhando, por exemplo, quem há quase um ano vem assumindo com todo rigor metodológico e científico o combate à doença: o governador de São Paulo, João Doria. Ele tomou iniciativas, trouxe vacinas, valeu-se da referência mundial nessa área que é o Instituto Butantan. Mais: em gesto de civismo, urbanidade, empatia, patriotismo, amor pelo Brasil e pelos brasileiros, Doria disponibilizará milhões de doses para o Plano Nacional de Imunização. O governo federal e seus órgãos esnobaram, ficaram caçando pelo em ovo, tudo na expectativa de que as vacinas que compraram da Índia aterrissassem em solo brasileiro. Esse blefe de oportunismo e demagogia é mais velho que blefe com par de sete em mesa de pôquer. Mas não adianta não, capitão Bolsonaro; não adianta não, general Eduardo Pazuello; não adianta não, almirante Antonio Barra Torres. Os senhores querem glórias do pioneirismo? Terão as vaias da lerdeza e da procrastinação, e, nesse caso, as vaias estarão longe de serem o “aplauso de quem não gosta”, como definiu o último presidente da Velha República, Washington Luís. As vaias serão vaias mesmo, vaias no critério de justiça histórica, justiça que o destino reserva aos seres humanos — em vida e após a morte, porque há nódoas que nem o detergente da morte remove. Pazuello, Barra Torres e Bolsonaro ideologizaram a doença e politizaram-na, então carecem, agora, pelo menos da decência de se colocarem no plano inferior que lhes cabe. O País está sem seringas? Dois episódios podem ativar a memória de Pazuello: o seu ministério demorou três meses para responder à Opas se interessava ou não a aquisição de quarenta milhões desse insumo básico à vacinação.

Certa vez, o historiador Capistrano de Abreu declarou que a Constituição deveria ter apenas dois artigos. O primeiro: “Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara”; o segundo: “Revoguem-se as disposições em contrário”. Quem no âmbito federal vestir a carapuça é porque foi-lhe feita sob medida. Órgãos do governo marcam e desmarcam reuniões, desconfirmam e cancelam agendas, adiam compromissos como se a pandemia estivesse a léguas daqui.

“Gripezinha”, digamos. Igualmente desesperadora é a apatia de parlamentares diante de todo esse quadro. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse que, se a vacinação demorar, “talvez Bolsonaro possa sofrer processo de impeachment”. Pois bem, parlamentar Rodrigo Maia, o senhor ainda diz “talvez”? O senhor ainda diz “talvez possa”? Bolsonaro já esgotou o primeiro passeio na ampla avenida dos crimes de responsabilidade, está na segunda andança.

Por favor, lembre-se que essa respeitada e nobre Casa do Povo já foi presidida pelo doutor Ulisses Guimarães, um Ulisses tão rico e tão forte de alma feito o Odisseu de Homero a soprar inspiração a James Joyce. A Penélope ou a Molly Bloom a serem reencontradas eram, então, de forma figurativa, a democracia — justamente a democracia que Jair Messias Bolsonaro quer solapar. É da dose de coragem de Ulisses Guimarães que o Brasil precisa para impedir que o Poder Executivo e seus órgãos aparelhados continuem desgovernando o País. Ulisses Guimarães, desarmado e de peito aberto, enfrentava militares municiados até os dentes, ferozes cães e bombas de gás lacrimogêneo no tempo da ditadura. Hoje está mais fácil para reagir. Mas o País sabe também, Rodrigo Maia, de todo o seu empenho e árdua luta para manter o equilíbrio republicano das instituições e evitar choques mais graves e extremos com o Executivo, pois era exatamente o agravamento de tais choques que Bolsonaro desejava — e deseja. Torcemos e rezamos e fazemos oferendas a todos os santos e a todos os orixás para que o bolsonarista Arthur Lira não se torne o novo presidente da Câmara dos Deputados. Finalmente, ainda falando de saúde pública, cabe uma questão que diz respeito diretamente ao capitão: por qual motivo ele decretou um século de sigilo em relação ao seu cartão de vacinação? Quão importante e quão misterioso é esse cartão para permanecer cem anos sob segredo? A resposta é simples: trata-se de outro blefe. Bolsonaro sempre manifestou antipatia a vacinas. E se o cartão mostrar justamente o contrário? Ou seja: ele falando contra vacinas publicamente, mas particularmente se imunizando? O que não falta nesse mundo é gente que seja Terraplanista em público e, na vida privada, admite mesmo que o planeta é redondo, meio ovalado.

Resumindo: Bolsonaro é o par de sete que acha que se faz passar por quadra de ases. Nesse jogo político, fora da saúde mas revelando igualmente temperamentos totalitários, os parlamentares bolsonaristas querem pressa na votação, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei que mingua os poderes dos governadores sobre as polícias civil e militar. Pretende o projeto que ambas as forças passem a ser subordinadas diretamente ao governo federal — coisa quem nem o totalitarismo do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 1937, e a ditadura militar instaurada em 1964 ousaram imaginar. A jogada de Bolsonaro é a de se fortalecer com gente armada, é comandar gente armada. Ele até sinalizou que, se em 2022, a eleição acontecer por meio de urnas eletrônicas, ocorrerá no Brasil uma insurreição mais grave e mais violenta em comparação com a que aconteceu recentemente nos EUA, insuflada por Dornal Trump, contra a certificação, no Capitólio, da vitória de Joe Biden. Bolsonaro já tentou formar uma espécie de guarda pretoriana, armando a população. Agora, descaradamente, quer as polícias sob a sua guarda para tentar resistir na base da força se não for reeleito. Seria a sua guarda bolsonariana a detonar uma guerra civil. Assim agem os ditadores, com essas cartas marcadas jogam os caudilhos. A Bandeira do Brasil, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, abandonada, rasgada e deteriorada é o exato e triste símbolo dessa gestão.

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