Dez anos sem Will Smith

Para quem considerava o Oscar um espetáculo morno, sem grandes surpresas, a 94ª edição do maior prêmio de cinema do mundo veio para acabar de vez com a imagem insossa e previsível do espetáculo. O tapa de Will Smith no “comediante” Chris Rock ao vivo, sem cortes, nem edições, por ofensas a sua mulher, Jada Smith, teve efeito sísmico: sacudiu a premiação de maneira constrangedora e mobilizou a opinião pública planetária durante vários dias. Eu mesma me posicionei sobre o ocorrido, alegando que não poderíamos analisar o fato de maneira assimétrica: de um lado teríamos alguém que vomitou piada infeliz e, de outro, teríamos alguém que reagiu à piada com violência. Para muita gente, tratava-se de dois homens negros protagonizando um vexame histórico.

Ao adotarmos esse prisma desigual e injusto (não-violência versus violência) reagimos com indignação ao suposto destempero de Smith, pois a argumentação mais persuasiva, nos marcos da civilização, é que violência não pode gerar violência. No entanto, toda argumentação deve ser posta em perspectiva e balizada por princípios éticos. A pessoa agredida estava no mesmo espaço do agressor, a infâmia jorrava em fluxo contínuo e precisava ser interrompida. Já diria Wittgenstein: o que não pode ser dito tem que ser calado. Jada e Will não ouviram a ofensa à distância, não estavam no sofá da sala, o que impacta diretamente nos modos de recepção e reação à violência (piadas podem ser extremamente violentas). Mas, ora, ora, a Academia do Oscar preferiu trilhar o atalho mais curto e simples para dar o exemplo: preferiu se manter na ponta do iceberg, na camada mais visível (o injustificado do ato de Smith) com vistas a se colocar do lado “certo da história e da História”.

O tapa no “comediante” Chris Rock ao vivo, sem cortes nem edições, teve efeito sísmico: sacudiu a premiação de maneira constrangedora e mobilizou a opinião pública planetária

O banimento de Will Smith por 10 anos de qualquer evento organizado pela Academia do Oscar reabre a torneira da violência aberta por Chris Rock e provisoriamente fechada pelo tapa. Ao se envernizar de protetora da civilidade e de uma ação comunicativa racional, a Academia legitimou o indizível, que é para os fortes, pois suportam a escuta do inominável na festa talhada por grandes estilistas.

Indizível que há anos se imiscui na festa do Oscar e diz o que não pode ser dito arrancando piadas, algumas validadoras, outras desconcertantes, para a consagração do espetáculo dos horrores. Pelo andar da carruagem, ano que vem tem mais. Estejamos preparados, o pior sempre pode acontecer, é o que nos ensina esta medida corretiva. O casal Smith apanhou mais uma vez!


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