Deve ser maravilhoso ter um presidente chato

Crédito:  Eric Thaye

DESAFIO Joe Biden: a luta é fazer os democratas irem às urnas (Crédito: Eric Thaye)

Se eu fosse americano, votaria em Joe Biden para presidente. 

O motivo é simples: Biden é chato. “Sleepy Joe”, ou Joe Sonolento, como diz seu oponente Donald Trump. Acho isso uma grande virtude. 

Deve ser maravilhoso ter um presidente que se apega a velhos modelos de civilidade, sobriedade e, vamos falar claramente, decência, em vez de sair por aí espalhando ignorância sobre ciência, regurgitando piadas grosseiras a torto e a direito e insuflando os piores instintos de seus seguidores. 

Deve ser incrível ter um presidente que não se preocupa muito com as redes sociais, mas gasta tempo procurando entender minuciosamente as políticas que estão em debate em seu governo ou no Congresso – um presidente guiado mais pela razão do que pelo fígado. 

Um presidente desse tipo, que não demanda atenção o tempo todo, que não brilha no escuro com sua vulgaridade radioativa (ou seu bronzeamento artificial), permite que as pessoas se ocupem um pouco menos da política e um pouco mais da própria vida. 

Estou acabando de ler um livro sobre o papel do carisma na política dos séculos 18 e 19. Chama-se Men on Horseback (“Homens a Cavalo”), do historiador americano David A. Bell. 

Bell explora um paradoxo: a mesma época que viu surgirem os ideais liberais, os direitos humanos e os governos constitucionais, também trouxe ao palco personagens como George Washington, Simón Bolívar, Napoleão Bonaparte e Toussaint Louverture – líderes carismáticos que estiveram à frente da fundação ou refundação de países, e muitas vezes exerceram o poder de maneira autoritária.

A hipótese do autor é que homens e mulheres nascidos sob monarquias precisavam sentir que desfrutavam de um vínculo direto com os governantes de regimes novos e ainda frágeis. 

“Era muito difundida a crença de que a sobrevivência dos novos Estados requeria líderes carismáticos, ligados aos cidadãos por fortes laços emocionais”, escreve Bell. “Como disse um dos acólitos de Napoleão Bonaparte, tais estados precisavam ‘ser governados mais por sentimentos e afetos do que por ordenamentos e leis’.”

Bell observa que nos países democráticos dos séculos 20 e 21, a relação entre cidadãos e líderes carismáticos se alterou de duas formas. Em primeiro lugar, homens e mulheres extraordinários precisam ser, ao mesmo tempo, homens e mulheres comuns – têm de mostrar que compartilham de gostos e hábitos populares. 

Em segundo lugar, uma parte da “magia” dos grandes líderes se transferiu para os cargos de presidente ou primeiro-ministro, independentemente de quem os ocupe. 

Não é realista imaginar que um dia o carisma vai deixar de ter influência na política. Como diz Bell, ele é “a face escura” da democracia. Pode-se, no máximo, sonhar que ele seja canalizado para boas causas,  ou que a magia das instituições se fortaleça um pouco mais, em detrimento do poder de atração dos salvadores da pátria.  

Eu prefiro essa segunda alternativa. A diferença entre o líder bem intencionado e o que só tem interesse em si próprio é difícil de estabelecer. O herói de hoje pode ser o autocrata ou o corrupto de amanhã. Nada impede que o mito e o picareta convivam na mesma pessoa.

Eu não quero amar políticos, quero que resolvam problemas.

Dê-me um presidente chato, mas competente, e eu ficarei feliz. 

 

  

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