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Deus é mulher: o adeus a Elza Soares

Crédito: Reprodução/Instagram

Há artistas que entram para a história devido apenas ao seu talento, mesmo quando possuem presença tímida fora do palco. Outros ganham os holofotes graças ao carisma, sem motivos artísticos sólidos condizentes com sua fama. Existem alguns, no entanto, que têm tudo – Elza Soares era excepcional em todos os sentidos. Foi uma cantora espetacular, uma personalidade magnética e uma líder em todos os campos em que se meteu.

Trabalhou até o último dia de sua vida, ontem, aos 91 anos: pouco antes de descansar o sono eterno, participava das gravações de um DVD em que relembra sua trajetória de vida. Morreu em 20 de janeiro, mesmo dia que o jogador Garrincha, o amor de sua vida, com quem ficou casada de 1966 a 1982. Coincidência ou destino?

Elza da Conceição Soares nasceu em Bangu, no Rio de Janeiro. Veio de uma família simples, foi criada na favela de Água Santa, zona norte carioca. Filha de um operário e uma lavadeira, sua vida mudou quando participou do programa “Calouros em Desfile”, na rádio Tupi: levou a nota máxima e ganhou um emprego como cantora em uma casa noturna, até ser contratada pela gravadora Odeon nos anos 1950. Sua carreira deslanchou com sucessos como “Mais que Nada”, “Mulata Assanhada”, “Samba de Verão” e “Se Acaso Você Chegasse”, entre outras.

Viveu um período fora da mídia nos anos 1980, mas ganhou status de artista cult na década seguinte. Tornou-se um ícone também para a juventude, não apenas por sua voz, mas também por vocalizar com contundência e orgulho a sua negritude e sua condição de mulher.

Elza Soares sempre foi aclamada no exterior, mas a consagração definitiva veio em 1999, quando foi eleita “a voz do milênio” em uma votação realizada pela emissora britânica BBC. Pouco depois lançou a canção “A Carne”, de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Wilson Cappelette, que logo se tornou um hino anti-racista e lhe rendeu cinco prêmios no Grammy latino.

Além do discurso contra a discriminação racial, ficou conhecida pela defesa da condição feminina, representada nos títulos de dois discos históricos: “A Mulher do Fim do Mundo” (2015) e “Deus é Mulher” (2018).

Seu último álbum foi “Elza Soares & João de Aquino”, lançado em dezembro do ano passado, e ela já trabalhava no próximo, com o produtor Rafael Ramos. É uma triste despedida, mas pelo menos sabemos que ainda poderemos ouvir registros inéditos da voz do milênio no futuro próximo – e por muito, muito tempo.