Comportamento

Deu errado e estão voltando atrás

Sem a coordenação central do Ministério da Saúde, vários estados e cidades que flexibilizaram o isolamento social estão sendo obrigados a recuar, exigir o fechamento do comércio e prolongar a quarentena até que a velocidade de contágio diminua

Crédito: Wagner Souza

ABUSO Diante das aglomerações no “Calçadão da 13 de Maio”, nos primeiros dias da reabertura, a Prefeitura de Campinas optou pelo recuo na flexibilização(abaixo) (Crédito: Wagner Souza)

Leandro Ferreira

A situação permanece crítica e, diante do crescimento do contágio pelo coronavírus, vários estados estão sendo obrigados a recuar em suas medidas de flexibilização da quarentena. Como consequência direta da abertura precipitada, cidades de todo País viram crescer o número de óbitos e de doentes da Covid-19 e, agora, estão sendo impelidas a retomar o protocolo mais rígido de combate à doença, o que inclui fechamento do comércio e ampliação do isolamento social. O avanço dos casos está relacionado à “interiorização” da pandemia, um movimento que escapa ao controle dos governadores, pois os prefeitos têm autonomia para adotar planos municipais de flexibilização, permitindo a reabertura do comércio e o aumento da circulação de pessoas. Para a infectologista da Unicamp Raquel Stucchi, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o cenário de recuo em algumas cidades não pode ser considerado uma surpresa. Ela lembra que a reabertura e a flexibilização do isolamento social deram certo em países que optaram por fazê-lo quando os números da pandemia indicavam uma estabilização, com queda nos casos de óbito e de contaminação. “Preferimos abrir quando a curva ainda estava subindo e deu errado. Agora, teremos que voltar atrás na decisão, o que traz um desgaste junto à opinião pública”, diz. Em São Paulo, a dinâmica do abre-fecha faz parte do plano de reabertura gradual elaborado pela gestão João Doria (PSDB-SP). E, de fato, diante do aumento no número de casos de Covid-19, municípios foram obrigados a voltar atrás e retomar restrições. Campinas, apesar de estar na fase laranja, adotou restrições da fase vermelha, ou seja, só podem funcionar a construção civil e a indústria não essencial. Shoppings, comércio de rua, escritórios, concessionárias e atividades imobiliárias, que são permitidas com horários restritos na fase laranja, foram todos proibidos de funcionar. Sorocaba passa pela mesma situação: desde segunda-feira (22), atividades econômicas consideradas não essenciais foram fechadas, apenas três semanas depois da reabertura parcial, que seguia o plano do governo paulista. A decisão da Prefeitura afeta também as atividades de templos religiosos, além do comércio de rua, shoppings e escritórios. Como antes do plano de flexibilização, atividades consideradas essenciais como farmácias e supermercados continuam funcionando, com regras de protocolo sanitário, como uso de máscara e distanciamento entre clientes.

As medidas de recuo adotadas por algumas cidades têm prazos de validade de uma a duas semanas e podem ser prorrogadas. Mas há cidades que não pretendem voltar à fase vermelha, mesmo com avanço de casos da Covid-19 e o risco da falta de atendimento nos hospitais locais. Segundo o secretário do Desenvolvimento Regional de São Paulo, Marco Vinholi, duas cidades, Marília e Registro, já foram notificadas judicialmente por causa do descumprimento das regras. “Temos divergências, mas o momento é de olhar para a saúde da população, é uma luta pela vida e não uma queda de braço”, afirma.

As medidas de recuo adotadas por algumas cidades têm prazos de validade de uma ou duas semanas e podem ser prorrogadas se houver necessidade

Risco de lockdown

As três capitais da região Sul, Curitiba (PR), Florianópolis (SC) e Porto Alegre RS) também optaram pelo recuo nas medidas de abertura devido ao crescimento do número de casos de Covid-19. O caso mais dramático é o de Curitiba: até meados de maio, a cidade tinha 600 casos, taxa de ocupação de leitos de UTI inferior a 50%, e alta adesão à medidas de isolamento, inclusive com uso de máscara em locais públicos. Com o flexibilização, a partir de 20 de maio, e a reabertura de shoppings, academias, restaurantes, templos religiosos, os casos quintuplicaram. A Prefeitura curitibana, não descarta decretar uma espécie de lockdown, mas para isso depende de decreto estadual. Preferiu, por enquanto, intensificar a fiscalização aos vários estabelecimentos e limitar horários de funcionamento do comércio de rua, restaurantes e shoppings. Florianópolis e Porto Alegre também estão adotando medidas de fechamento parcial, com horários reduzidos e escalonados para reduzir a circulação de pessoas.

Belo Horizonte também suspendeu a flexibilização e, como Curitiba, sugere impor lockdown. Com 80% dos leitos de UTI ocupados, a capital mineira manteve a abertura apenas às atividades essenciais. Em Rio Verde (GO), testagem em massa de funcionários de sete empresas alimentícias da região mostrou elevada contaminação, o que levou a Prefeitura a determinar o fechamento do comércio, no início do mês. No Piauí, onde a doença avança em municípios do interior, o governo estuda a decretação do lockdown. Um dos estados mais afetados pela pandemia, com mais de 65 mil casos da doença e mais 2,6 mil mortes, o Amazonas decidiu retomar as atividades. Mas o processo ocorre sob a crítica do prefeito da capital, Arthur Virgílio (PSDB). Apesar de a cidade ter registrado menos casos de contaminação e de mortes, ele ressalta que foram feitos poucos testes, o que encobre a situação real do município. “Eu considero que o melhor remédio para combater a Covid-19 é o isolamento social, o diagnóstico precoce e o tratamento imediato”, disse. Está claro que houve precipitação em várias cidades que flexibilizaram o isolamento. E a única saída digna agora é voltar atrás.

 

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