Economia

Deu a louca no mercado

Desconfiança com as propostas de Bolsonaro, Marina, Ciro e Haddad eleva dólar, derruba Bolsa e provoca fuga recorde de capitais

Deu a louca no mercado

Quanto mais as pesquisas de intenção de voto avançam, pior para a economia. O dólar comercial atingiu R$ 4,05 na quarta-feira 22, a maior alta em 30 meses. A Bolsa caiu 7,68% entre os dias 3 e 21 de agosto e investidores nacionais e estrangeiros tiram o dinheiro do País por cautela. Existem causas externas, como a disputa comercial entre EUA e China, além da apreensão com as economias emergentes depois da fuga de investidores da Turquia. Ainda assim, o que perturba mesmo o cenário interno é a política, com candidatos pouco confiáveis entre os primeiros colocados nas pesquisas. Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e, mais longe, Fernando Haddad (PT) – avatar de Lula – não apresentam propostas capazes de criar condições de desenvolvimento continuado. Firme na disputa do segundo turno, em todos os cenários, Bolsonaro se mostra um nacionalista estatizante de direita. Atrás dele vem Marina, uma populista de esquerda que não apresenta densidade, e Gomes, um centro-esquerdista intempestivo e aparentemente volúvel. Oscilando entre a quinta e a sexta colocação está Haddad, herdeiro de gestões intervencionistas que trouxeram resultados catastróficos.

Para o mercado financeiro, candidatos confiáveis são aqueles capazes de obter maioria parlamentar de dois terços para promover as reformas necessárias, como a da Previdência e a Tributária. Como nenhum deles parece ter chances reais de se eleger, o primeiro movimento dos investidores é comprar dólares como forma de garantir ativos. Esse movimento não ocorreu nos períodos entre julho e 20 agosto nas corridas presidenciais anteriores. Em 2006, ano da reeleição de Lula, houve até uma pequena valorização do real, de 1,3%. Em 2010, ela foi maior: 2,32%. Já em 2014, com Dilma assumindo seu lado intervencionista, a moeda brasileira perdeu 2,53% de seu valor. Agora, a desvalorização é de 3,41%. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Volatilidade

O temor do que virá das urnas gerou um fluxo cambial negativo de US$ 2,8 bilhões entre os dias 13 e 17 de agosto, segundo o Banco Central. “O investidor percebe a instabilidade e retira recursos. Esses candidatos falam o que o eleitor quer ouvir e só. Ninguém está comprometido”, disse Reginaldo Galhardo, da Treviso Corretora. Até as remessas de pessoas físicas para o exterior cresceram, atingindo US$ 1 bilhão no primeiro semestre – alta de 13,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. A última vez em que o dólar passou com folga a barreira de R$ 4 foi no início de 2016, depois que o impeachment de Dilma começou a ganhar força no Congresso Nacional.

Mais do que ter uma ideia de quem irá ganhar, o que o mercado faz agora é especular o que cada um fará se eleito. Em 2002, quando Lula lançou sua “Carta aos Brasileiros”, assumindo compromissos com as políticas econômicas adotadas no Plano Real, os investidores e banqueiros sentiram-se mais seguros – alguns inclusive o apoiaram abertamente. Hoje, isso não aparece nas agendas dos candidatos líderes. “O que nos falta é um consenso político. Por isso as eleições criam essa volatilidade”, disse Clemens Nunes, professor de economia da FGV.