O ESPÍRITO DE TUDO/Oi Futuro Flamengo, RJ/ Até 29/1/2017

Há uma expectativa de abarcar a totalidade em duas grandes séries de trabalhos de Rosângela Rennó. O “Arquivo Universal”, realizado entre 1992 e 2003, foi formado por vasta coleção de textos de jornais e fotografias apropriadas de coleções pessoais e arquivos institucionais. A série foi integralmente mostrada em exposição no CCBB do Rio de Janeiro em 2003 e virou um livro. Agora, “O Espírito de Tudo”, em cartaz no Oi Futuro Flamengo, introduz ao público outra pesquisa da artista mineira residente no Rio de Janeiro há cerca de três décadas: a memória extraída do olfato. No “Arquivo Universal”, Rennó manipulava textos e imagens, retirando-lhes legibilidade (no caso das fotos) e objetividade (textos jornalísticos), para aplicar-lhes outras camadas de sentidos e reorganizar tudo segundo novas ordens. Em “O Espírito de Tudo”, a artista volta a se munir de uma metodologia arquivista para mergulhar na literatura dos sentidos e memórias despertados pelos odores e perfumes.

A experiência da exposição começa estimulada pela etimologia da palavra perfume: per fumum – através da fumaça –, impondo ao visitante uma certa calibragem sensorial. O que há no incenso para tornar alguém místico? No âmbar cinzento para atrair paixões? Na magnólia que turva a imaginação? Na violeta para despertar a memória de um romantismo morto? As indagações lançadas por Oscar Wilde em “O Retrato de Dorian Gray” (1891) são perseguidas pela artista na obra “Per fumum” (2016), instalada no hall de entrada. “A fumaça é para várias filosofias e religiões uma forma de conectar o material e o imaterial”, diz Rosângela Rennó a ISTOÉ. “Todas estas resinas tem propriedades científicas e sanitárias, mas há um grande mistério: a ciência não explica os mecanismos envolvidos na leitura que o cérebro humano faz dos cheiros”.

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ESSÊNCIAS – Frascos do perfume Shalimar em vitrine da instalação “As Horas Viajantes”

A identificação dos seis trabalhos expostos com temas que tocam o segredo, o misticismo e a espiritualidade surgiu a partir de conversas da artista com a curadora Evangelina Seiler. De fato, “O Espírito de Tudo” parece querer colocar no mesmo patamar aquilo que sabemos e tudo o que não compreendemos racionalmente. Em “Per fumum”, a queima de incensos se sobrepõe a textos sobre as propriedades científicas dos elementos. Na sala 1, a instalação “Lanterna Mágica” (2012) integra no mesmo espaço uma coleção de lanternas mágicas, projetores usados no século 19 em teatros de sombras e apresentações de ilusionismo, e uma série de fotografias ampliadas por meio deles. “Essa fotografa mostra a arte como história, como técnica e como memória, mas também ascende ao fantasmagórico, ao mágico, ao religioso, e se casa com a lanterna mágica já ancestralmente usada em sessões de ocultismo, como se a artista tentasse promover uma volta da arte ao seu aspecto mítico”, escreve Evangelina Seiler no texto curatorial.

Estranhamente, a curadoria não optou por “Experiência de Cinema” (2004), obra que revela a imagem projetada sobre uma cortina de vapor e que arremataria o objetivo da exposição em relacionar a memória à imaterialidade da fumaça. Ainda assim, incide sobre os mistérios implícitos nas coisas materiais em “Realismo Fantástico” (1991), uma máquina misteriosa que projeta espectros de luz.

Roteiros
A alma encantadora das ruas

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Vitrines e Fachadas – Dois Ensaios Paulistanos de Dulce Soares/Instituto Moreira Salles, Poços de Caldas (MG)/ De 4/2/17 a 21/5/17

João do Rio imortalizou em crônica os personagens que no início do século 20 deram vida às ruas do Rio de Janeiro. Nas fotografias de Dulce Soares, as ruas do bairro paulistano da Barra Funda estão quase vazias. Um homem solitário brinca com um cão na esquina da Conselheiro Brotero com a Brigadeiro Galvão e uns poucos boêmios ocupam as mesas da boate Chic, num fim de noite qualquer de 1977. O ensaio “Barra Funda” é um demorado olhar sobre uma região de São Paulo que nasceu com vocação industrial e foi modificada por obras viárias de grande porte, resultantes do incentivo econômico à indústria automobilística. A série foi exposta pela primeira vez no MASP, em 1978. Quase 40 anos depois, essas imagens, esvaziadas de figuras humanas, têm muito a dizer sobre a cidade que cresceu sem dar espaço à convivência no espaço público.

“Barra Funda” e “Vestidos de Noiva 1978-1979” compõem a mostra “Vitrines e Fachadas”, que se desloca do Instituto Moreira Salles de São Paulo para o IMS de Poços de Caldas. No segundo ensaio, realizado na Rua São Caetano (a Rua das Noivas), Dulce Soares documenta não apenas as fachadas das lojas de vestidos como os bastidores de uma indústria de sonhos. Nas paredes, além das fotos, há depoimentos de noivas e de conversas entre costureiras e lojistas. É um documentário sensível, composto por uma narrativa espacial engenhosa, fruto de um olhar astuto e treinado na observação das nuances da arquitetura urbana.

Nos dois ensaios, a carioca Dulce Soares imprime à sua visão de São Paulo — onde reside desde a juventude —, uma alma encantadoramente metafísica, avessa à aceleração do tempo. Sua São Paulo dos anos 1970, mais que documental, é formada por cenários de uma “outra realidade”, além da história. PA

 

 


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