Calor, sede, fome e até bexiga apertada, tudo isso para conseguir ver seu artista favorito de perto. Eventos de grande porte como o Lollapalooza, que encerrou sua 13º edição neste fim de semana, sempre impressionam pela resiliência do público em aguentar um dia inteiro para assistir simples apresentações ao vivo.
Às vezes, porém, as pessoas sacrificam até seu bem-estar pela possibilidade de um lugar na grade – estrutura que separa a plateia do palco -, transformando o sonho em um teste de até onde você consegue suportar antes de sucumbir à fome e ao desmaio.
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Com um público de 285 mil pessoas nos três dias de evento, o festival escancarou uma cultura que há muito já se estabeleceu entre os fãs: chegar extremamente cedo na fila, horas antes da abertura dos portões do evento, correr e conquistar um lugar na tão sonhada grade.
Uma line-up formada por Sabrina Carpeter, Chappell Roan e Tyler, the Creator, artistas mainstream e extremamente populares, não deixa abertura para as pessoas arriscarem não enxergar seu cantor favorito no final da multidão, optando assim, por ignorar os próprios limites físicos em nome de um ângulo privilegiado.
“Sou muito fã da Marina, e eu sempre quero vê-la o mais de perto possível”, afirma Mario Gabriel Marangone, de 35 anos, em entrevista à IstoÉ Gente. Ele comprou o Lolla Pass – ingresso para os três dias de evento -, mas só enfrentou a grade pela cantora inglesa no sábado, 21. “É um sonho de estar aqui na grade, sinceramente. Porque 2016 e 2022 não rolou. Choveu, me tiraram de perto da grade e eu tive que ir para longe.”
Comumente, as pessoas que lutam por estar tão próximas ao palco precisam abdicar de ir ao banheiro ou sair para comprar comida – isso porque, uma vez que você sai, é impossível voltar. O público em volta assume seu antigo lugar em segundos, quase como uma “zona de guerra”. É possível combinar para ir se aliviar, mas tem de ser rápido.

Público enfrentou calor e pouco espaço para manter lugar na grade – Foto: Sofia Magalhães

Público enfrentou calor e pouco espaço para manter lugar na grade – Foto: Sofia Magalhães
“É isso que está me segurando aqui… Eu tava passando muito mal. Na hora que eu tava sentado, quase apaguei. Mas a gente pagou uma fortuna pra estar aqui, num sol infernal. Eu tava conversando com meus amigos aqui via celular: ‘Gente, o calor está absurdo'””.
“O que me mantém é saber que vai chegar. Por bem e por mal, 17 horas o sol vai se por e vai dar uma refrescada. Aí os perrengues passam a ser o quê? Aguentar o joelho”, brinca. “Mas nossa, a hora que ela entrar, eu sei que tudo isso apaga. O cansaço… Tudo vai embora.”
Segundo o curitibano, a uma hora de show vai valer a pena. Além dos R$ 1,300 para o ingresso, ele ainda gastou com passagens de avião e hospedagem em São Paulo, além de um acordo com os chefes para compesanr o trabalho de sexta-feira, 20, no final de semana. “Tudo para estar aqui. São esses os momentos que a gente leva para a vida, que a gente vai lembrar.”
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Alternativas para enfrentar o calor e cansaço
Além da possibilidade de assistir o show de longe e chegar mais tarde, Mario comentou que a organização do evento poderia começar a instalar tendas durante os períodos de espera entre os shows.
“Imagina o que era o Lolla 15 anos atrás e o que ele é agora. Ele expandiu demais, conseguiria colocar lona capa, ou algo que fosse, em cima da gente. Esperar até as 17 horas da tarde para o sol descer”, afirma. “Eles devem ter noção de quantas pessoas têm aqui, quantas milhares de pessoas tem aqui.”
Ele explica que o fornecimento de água gratuita nas apresentações – após uma portaria estabelecer a obrigatoriedade devido ao falecimento de Ana Clara Benevides, de 23 anos, que passou mal no início do primeiro show de Taylor Swift no Rio de Janeiro, em novembro de 2023 -, não é suficiente para aguentar o calor.
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Cadeira funcionaria?
No entanto, ele descarta a possibilidade do uso de cadeiras nesses espaços – aos moldes de apresentações na Ásia, em que fãs dispõem de assentos para descansar durante eventos musicais.
“Acho que para a nossa cultura, para a nossa energia, não [funcionaria]. Porque o pessoal ia querer ficar em pé, ia ter cadeira no meio da gente, ia ficar caindo, machucar alguém. Quando é show separado, que tem a cadeira superior, os estádios, que você pode sentar em cima, tranquilo”, esclarece.
É preciso ressaltar que durante o dia na grade de sábado, 21, diversas pessos precisaram ser retiradas da multidão por bombeiros após passarem mal devido ao calor, cansaço e desidratação.
“Quem escolhe estar na pista, vai para o perrengue, vai para a porrada mesmo, porque a gente sabe que é isso. Que é essa luta para estar de pé, para se aguentar em pé, para aguentar o sol, para aguentar tudo o que tem que aguentar.”
“Eu não sei se eu vou me sujeitar a isso de novo, não. 2022 eu vim super no gás, assisti a Marina, pensei em ficar para assistir a Doja Cat, mas meu joelho não colaborou”, explica o curitibano. “E hoje estou aqui, não me arrependo nada. Mas já não sei se faria de novo, porque o perrengue é demais.”
*Estagiária sob supervisão