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Desgoverno

Ao declarar que “o Brasil está quebrado e que não pode fazer nada”, Jair Bolsonaro reconhece que não sabe como lidar com as crises que se agravam em 2021. Após a confissão de impotência, ele deveria renunciar

Crédito: Divulgação

NA PRAIA Banhistas ignoram a recomendação de isolamento na Praia Grande (SP) no Ano Novo (Crédito: Divulgação)

FÉRIAS ABORTADAS Paulo Guedes precisou interromper o descanso para tentar resolver mais uma crise: “O presidente se referia ao setor público” (Crédito:Adriano Machado)

Desde a posse de Jair Bolsonaro, a sociedade espera ações concretas para combater os graves problemas nacionais. Em vez disso, o que se viu foi um ataque contínuo à democracia, o desmonte do Estado e um show de incompetência. Mais de dois anos depois, não se vislumbrou nenhuma grande estratégia para a retomada econômica, além das promessas extravagantes de Paulo Guedes. Pior, a pandemia ampliou os desafios e já custou a vida de mais de 200 mil brasileiros. O rombo fiscal vai empobrecer milhões. Tudo isso não é obra do acaso. São consequências das ações do presidente. Enquanto os brasileiros enfrentaram um fim de ano dramático, preocupados com a crise e isolando-se para evitar a Covid, ele aproveitou um descanso de 17 dias em praias do litoral de Santa Catarina e São Paulo pescando e promovendo aglomerações. Mais uma vez debochou dos cuidados básicos com a doença. Na volta a Brasília, deu seu diagnóstico para a situação: “O Brasil está quebrado. Não consigo fazer nada”. A declaração, feita para seu público preferido, a claque postada no cercadinho do Palácio da Alvorada, é o reconhecimento do seu fracasso.

“Os atrasos na compra das vacinas já passam do tolerável. A ignorância não pode prevalecer sobre a ciência” Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (Crédito:Suamy Beydoun)

Dívida explosiva

Além de a economia não ter reagido na atual gestão, a dívida pública explodiu com a pandemia, trazendo dúvidas aos investidores sobre a solvência do País. Há R$ 1,3 trilhão vencendo da dívida pública neste ano e a equipe econômica quer encerrar o ano com um rombo de R$ 247,1 bilhões — o oitavo ano consecutivo no vermelho. Existe pouca confiança sobre a trajetória da dívida e as dúvidas só crescem. Guedes tem reafirmado o compromisso com a disciplina fiscal, mas há pressão no governo pelo abandono do teto de gastos para tocar obras que garantam a reeleição. Além disso, a popularidade do presidente será afetada pelo fim do auxílio emergencial, que acabou em janeiro. O cenário era insustentável e já se sabia que seriam necessárias mudanças após o pleito municipal. A fala de Bolsonaro, assim, não é uma surpresa. Apenas verbaliza um movimento que era inevitável. Para sobreviver politicamente, ele é empurrado para o aumento dos gastos. Como dispõe de cerca de R$ 100 bilhões de gastos não obrigatórios no Orçamento, ou “fura” o teto, ampliando o déficit, ou arruma mais dinheiro. Guedes apostava na volta da CPMF para isso, mas o mandatário não quis arcar com o ônus de ampliar os impostos. Sobra então o controle dos gastos públicos, mas essa opção também é bloqueada por Bolsonaro, pois não deseja mexer em interesses corporativos. Além disso, a falta de articulação política no Congresso por sua inépcia inviabiliza as reformas.

Nunca ficou tão clara a falta de um estadista para o País. A história ensina que líderes mobilizam nações em travessias difíceis contando a verdade e somando os melhores recursos. É tudo o que não se viu no Brasil. Para enfrentar a pandemia, o governo demonstra uma falta de capacidade espantosa. Primeiro, negou a gravidade da doença. Depois, sabotou as medidas de prevenção e apostou em remédios milagrosos. Por fim, foi omisso na busca por vacinas. Com isso, mais de 50 países já deram a largada na imunização em massa, enquanto o Brasil ainda discute qual antídoto será adotado. Aqui, nem a compra de seringas e agulhas foi providenciada. No fim do ano passado, o Ministério da Saúde tentou fazer essa aquisição às pressas, mas fracassou. A resposta oficial para a inação foi no estilo Bolsonaro. Terceirizou o problema. Ele disse que “quem quer vacina” é que precisa ir atrás do registro na Anvisa, contando com o “mercado consumidor enorme” do Brasil para atrair os fabricantes. Ocorre que o planeta está numa busca desesperada pelo imunizante, que não será suficiente para todos neste momento — a oferta mundial cobre apenas um terço da demanda. Apenas os governos que se anteciparam e foram eficientes conseguiram obter as vacinas. Da mesma forma, o presidente suspendeu as compras de seringas “até que os preços voltem à normalidade”. Além do desconhecimento primário da lei da oferta e da procura, o mandatário simplesmente não consegue fazer a avaliação óbvia de que a imunização em massa é a única saída para a retomada econômica.

MISÉRIA EM ALTA Com o fim do auxílio emergencial, País terá 30,8% da população em estado de miséria. Desemprego atinge 14 milhões de pessoas (Crédito:Fabio Teixeira)

Felizmente vários estados e prefeituras se anteciparam. O governador João Doria, que desde junho investiu pesado no Instituto Butantan e impulsionou a cooperação com a China, agora tem a oferecer à população mais de 10 milhões de doses da vacina Coronavac, que mostrou eficácia de 78%. Promete atender toda a população do Estado até o fim do ano. O bem estruturado programa de vacinação paulista, a começar no dia 25, é o que falta no plano nacional.

Já a conduta irresponsável do governo federal é reproduzida nas principais áreas da administração. A Educação, que é a forma mais eficaz de diminuir a desigualdade, está à deriva, atolada em questiúnculas ideológicas, o que pode levar a um atraso de décadas no desenvolvimento do País. O Meio Ambiente, patrimônio vital para a transição à economia verde, está sendo degradado por omissão ou de forma francamente criminosa. O fogo consumiu 40% do Pantanal mato-grossense no ano passado, segundo o Ibama. A devastação da Amazônia foi a maior em 12 anos, enquanto o governo descartou a ajuda financeira de outros países e relaxou a fiscalização. Esse resultado deplorável transformou-se em obstáculo para a atração de empresas, além de ameaçar as relações com os EUA e a Europa. O acordo Mercosul-União Europeia está por um fio e o futuro presidente dos EUA, Joe Biden, já ameaçou o Brasil com sanções. É um desastre internacional. Para reverter a imagem negativa, Bolsonaro optou pela propaganda, uma interpretação tosca de como se constroem reputações. Gastou 17 vezes mais com publicidade no exterior do que todos os governos que o antecederam na última década.


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Brasil isolado

É mais um gasto inútil. O campo das relações internacionais traduz de forma exemplar o desgoverno. O chanceler Ernesto Araújo não é levado a sério no circuito diplomático e já se vangloriou por ter transformando o País em “pária”. Em seu balanço de fim de ano, disse que o Brasil precisava combater o “covidismo” e que a maior emergência sanitária em um século representava uma “histeria biopolítica”. Apontou a necessidade de combater o “narco-socialismo”, o “sistema intelectual politicamente correto”, o “abortismo”, o “trans-humanismo”, o “anticristianismo”, a “cristofobia” e o “marxismo do mercado megatecnológico”. Não se trata apenas de mistificação tradicionalista ou diversionismo político. Tamanha coleção de asneiras escancara a indigência intelectual que impregna a atual administração, com consequências práticas. O “soft power” leva anos para se construir e pode ser implodido numa só gestão. É o que está em curso. Nunca o Brasil esteve tão isolado, inclusive na América Latina, onde sempre exerceu a liderança natural.

“Quando você compra a biopolítica do ‘fique em casa’, talvez esteja ajudando o narcotráfico” Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores (Crédito:Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Na gestão interna, o descalabro não é menor. Os exemplos se multiplicam. Para tentar driblar o monitoramento das queimadas feito com competência pelo Inpe, a Aeronáutica comprou um satélite-radar com tecnologia duvidosa que custou US$ 33,8 milhões. Enquanto isso, o governo promove o desmonte desse órgão e da própria ciência, minando toda a pesquisa acadêmica no País. Na economia, o presidente se queixou de não conseguir reajustar a tabela de Imposto de Renda para aumentar a isenção dos atuais R$ 1,9 mil para R$ 3 mil. Essa é mais uma das inúmeras promessas que fez para ganhar a eleição, engavetada como todas as outras. O alívio para os assalariados, que custaria R$ 22 bilhões, até seria viável se o governo tivesse agido, mas nada foi feito desde a campanha matreira de 2018. Da mesma forma, as privatizações, que poderiam atrair investimentos e dinamizar setores, estão paralisadas por culpa exclusiva do mandatário. Na direção contrária, ele criou mais uma estatal em sua gestão, a NAV, além de fazer um aporte de R$ 7,6 bilhões em uma estatal da Marinha para construir corvetas. Administrar é fazer escolhas, como se sabe. E o presidente não esconde suas prioridades, voltadas para a caserna. Ao sancionar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, ele vetou o item que blindava gastos com a emergência sanitária. O mesmo vale para despesas relacionadas ao combate à pobreza. Mas garantiu que projetos do Ministério da Defesa não serão tocados. É o caso do desenvolvimento do submarino com propulsão nuclear e da compra de blindados. Reafirma o privilégio aos militares, que já tiveram aumentos salariais e foram beneficiados na Reforma da Previdência.

Fugindo da responsabilidade

A manifestação do presidente provocou uma enxurrada de críticas. As hashtags #RenunciaBolsonaro e #PedePraSairBolsonaro dispararam nas redes sociais. Depois da péssima repercussão, ele repetiu o que sempre faz em momentos de crise. Jogou a culpa nos outros, fugindo à sua responsabilidade. Mais uma vez, apontou o dedo para a imprensa, “que potencializou a Covid”. Com isso, tenta mobilizar os apoiadores e preparar o terreno para uma guinada na economia, que pode ter efeitos calamitosos. Além do abandono da disciplina fiscal — medida que causou o desastre econômico da gestão Dilma —, o aumento dos impostos e o relaxamento no combate à inflação podem ter consequências terríveis que vão recair principalmente sobre os pobres. E o País já está diante de um desastre social.

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O desemprego bateu novo recorde em novembro, atingindo 14 milhões de pessoas. O auxílio emergencial, que beneficiou 46 milhões de brasileiros e custou R$ 300 bilhões (dez vezes mais do que o Bolsa Família), havia reduzido a extrema pobreza. Seu fim terá o efeito inverso. O País passará a ter 30,8% da população em estado de miséria. Contra essa realidade, Bolsonaro também não tem respostas. Pior que isso, em outra declaração, atribuiu a culpa do desemprego à própria população, que teria formação deficiente: “Uma parte considerável não está preparada para fazer quase nada”.

PRIORIDADE DISTORCIDA Militares recebem benefícios e submarino tem verba blindada. Para a vacina não há garantia de recursos (Crédito:Divulgação)

O reconhecimento do fiasco prenuncia o destino da gestão Bolsonaro. O presidente deixou o primeiro ano passar em brancas nuvens e não aproveitou para aprovar medidas necessárias — a Reforma da Previdência avançou mais pelo esforço do Congresso do que do Executivo. No segundo ano, a pandemia mostrou um governo à deriva na Saúde, fazendo rodízio de ministros e entronizando um general sem conhecimento da área. Este ano, que antecede o período eleitoral de 2022, é o último em que reformas poderão ser encaminhadas. Mas Bolsonaro entra nesse momento crucial sem um projeto consistente de poder. Sua fala desastrada foi uma confissão de impotência e de desprezo pelo destino da Nação. Não cabe ao presidente dizer se o País está quebrado ou se é “ingovernável”. Essa é a desculpa de todos os governantes fracassados. Sua função é superar as dificuldades e encontrar soluções. Mas a falta de interesse do mandatário — já demonstrada em quase três décadas no baixo clero do Congresso — e a pouca disposição em tomar decisões difíceis ou complexas o impedem de dar respostas à sociedade. Se não estava à altura do cargo, Bolsonaro não deveria ter tomado posse. Se não pode dirigir o País, deve renunciar.

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