Pastores evangélicos e pesquisadores ouvidos pela IstoÉ acreditam que a representação pejorativa de famílias crentes e conservadoras no desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói que homenageou o presidente Lula (PT) tem potencial para atrapalhá-lo na disputa por votos do segmento na eleição. O petista esteve na Marquês de Sapucaí e foi alvo de críticas da oposição.
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Críticas foram além de pastores antipetistas
Para Vinícius do Valle, autor do livro “Entre a religião e o lulismo” (Editora Recriar, 2019) e ex-diretor do Observatório Evangélico, o desfile acenou a “uma base convertida, que vê com maus olhos segmentos sociais refratários ao PT”, mas “para os evangélicos que o presidente precisa atrair, o efeito foi desastroso”.
“A interpretação geral é de que houve um deboche com os crentes e aqueles que creem na família como a base da sociedade. Várias igrejas e lideranças se manifestaram, inclusive congregações regionais [no geral, menos envolvidas em discussões políticas]”, acrescentou.
Além das homenagens a Lula e críticas a adversários, a escola apresentou uma ala, chamada “Neoconservadores em conserva”, em que pessoas dentro de ladas representaram evangélicos, integrantes do agronegócio e defensores dos “valores tradicionais da família” na condição de opositores do governo, como mostra o roteiro enviado pela agremiação à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro).

Roteiro da ala ‘Neoconservadores em conserva’, apresentada pela escola Acadêmicos de Niterói
“Ainda que os evangélicos sejam na sua maioria conservadores, há nuances no próprio conservadorismo. A caricatura ignorou isso e reforçou o estereótipo de que todos os crentes são iguais“, disse à IstoÉ Valdinei Ferreira, pastor e professor de teologia da Faculdade da Igreja Presbiteriana Independente.
Ferreira considerou que, se bem explorada por lideranças religiosas de oposição, a sátira colocará em “situação complicada” os evangélicos que defenderam voto em Lula na eleição passada. “Não é possível dizer que haverá ampliação da rejeição, mas [o desfile] pode dificultar a conquista de mais votos no segmento“.
Para Valle, a discussão sobre o aumento da antipatia ao petista é complexa porque parte dos líderes que criticaram o desfile “já se portavam como oposição” e integram um setor evangélico onde a rejeição ao PT está consolidada.
O peso político da fé
Os crentes são 26,9% da população brasileira e, conforme pesquisa Quaest divulgada neste mês, 61% de seu eleitorado rejeita o atual governo. Ao longo do mandato, o presidente fez acenos, como a sanção do projeto que instituiu o Dia Nacional da Música Gospel e a escolha do advogado-geral da União, Jorge Messias, diácono da Igreja Batista Cristã, para o STF (Supremo Tribunal Federal), mas não conseguiu ampliar as pontes com o grupo.
“Dentro de uma tentativa de Lula de se mostrar mais próximo do segmento e atacar a narrativa da oposição, o episódio foi um balde de água fria. Um ‘tiro no pé’“, avaliou o pesquisador.

Lula ao lado de sua esposa, Rosângela da Silva, enquanto Acadêmicos de Niterói desfilava: presença municiou críticas da oposição
Alexandre Gonçalves, pastor da Igreja de Deus que participou de campanhas eleitorais como conselhero, disse que jamais teria indicado o mandatário a ir ao desfile, pelo alto potencial de munição negativa. “É um segmento onde Lula sempre teve rejeição elevada, conseguiu reduzi-la ao longo de seus governos, mas ela voltou a ser alta. Ele só tinha a perder”, disse à IstoÉ.
“A interpretação majoritária, no meio pentecostal, é de que houve uma chacota com as famílias cristãs“, concluiu Gonçalves. As reações de lideranças do segmento evidenciaram essa percepção.
Presidente da Igreja Batista da Lagoinha, André Valadão publicou no X (antigo Twitter) uma imagem da própria família dentro de uma lata e defendeu que, no conservadorismo, há “limites que preservam, princípios que não apodrecem com o tempo“.
Prefiro que a minha família seja como uma boa conserva: guardada, selada, protegida. Dentro dessa “lata”, que é a vontade de Deus revelada na Sua Palavra, há cuidado, limites que preservam, princípios que não apodrecem com o tempo. O mundo pode chamar de antiquado, mas eu chamo… pic.twitter.com/bseln3ZnKZ
— Andre Valadao (@andrevaladao) February 17, 2026
O pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e aliado antigo de Jair Bolsonaro (PL), representado de forma crítica no desfile, disse que o Carnaval “provou, mais uma vez, de que lado Lula está”. “A escola [Acadêmicos de Niterói] tentou denegrir evangélicos. [O presidente combate] costumes, família e pátria, fundamentos da fé de um verdadeiro evangélico. Quando você apoia um cara desse, está negando sua fé por paixão política”, afirmou.
A Frente Parlamentar Evangélica falou em “escárnio contra a fé cristã”, “deboche aberto aos valores conservadores que sustentam nossa sociedade” e prometeu acionar a PGR (Procuradoria-Geral da República) pela punição dos responsáveis. A Frente Parlamentar Católica disse que o desfile ultrapassou limites legais e também pregou responsabilização.
Mesmo políticos próximos do governo, como Otoni de Paula (MDB-RJ), engrossaram o coro. “O desfile atacou o conservadorismo e a família, que para a maior parte dos brasileiros, é sagrada”, disse o deputado federal e pastor da Assembleia de Deus Madureira à IstoÉ, acrescentando que Lula “é conservador”, mas o governo “não consegue falar o que não seja da bolha” e terá dificuldades para reverter o estrago.
Publicamente, os petistas não admitem o desgaste. Presidente do partido, Edinho Silva disse que Lula “sempre teve uma relação de muito respeito com a comunidade evangélica”. “Os líderes das igrejas sempre tiveram no presidente um aliado na construção de políticas públicas para o fortalecimento das famílias brasileiras”.
Um dos 14 membros do partido na Frente Parlamentar Evangélica, o deputado Nilto Tatto (SP) afirmou à IstoÉ que a reação crítica não é das famílias evangélicas, mas de “lideranças que tentam tirar proveito” e avaliou que nem o governo nem o PT devem responder pelo que ocorreu na Sapucaí. “A escola de samba não é do PT ou do governo, e não houve qualquer intervenção para definir o enredo“.