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#DesculpaBrigitte

O ataque sexista do capitão reformado à primeira-dama da França, Brigitte Macron, gerou uma onda de protestos no Brasil e no mundo. A esposa de Emmanuel Macron e a mídia francesa agradeceram à imediata solidariedade brasileira

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CLASSE A primeira-dama francesa, Brigitte Macron: cultura, elegância e agradecimento à solidariedade brasileira (Crédito: Divulgação)

O capitão reformado saiu do botequim, atravessou a rua e entrou na borracharia. Senhoras e senhores que sabem e praticam a boa educação, agora é samba: na semana passada o capitão reformado contradisse até o ancião provérbio e o antigo partido alto dos morros cariocas que anunciam: “se algo cair, do chão não passa”. Ah, passa sim, o capitão reformado, que tão cedo teve de dobrar o paraquedas, encher a farda de naftalina e vestir o pijama, que o diga. Ele passou do chão, o seu nível de adequação aos mais elementares bons modos que se espera de um homem (nem se está falando de gentleman ou cavalheiro, não é Humphrey Bogart? Não é Oscar Wilde?), escorregou para o subsolo, subsolo da borracharia, é claro. Logo ele, que se arvora em Catão, logo ele, que bem poderia funcionar como um escrivão de delegacia de costumes pelo seu discurso moralista. A bola-da-sua-baixaria da vez ensejou, para lavar a alma de todos nós, a demonstração de força das mulheres brasileiras que acertadamente exigem respeito dos “machos”, sejam eles ou não capitães reformados. A união das mulheres contra o varzeano comportamento sexista veio na forma do movimento #DesculpaBrigitte, lançado por internautas de todo o País e que imediatamente ganhou a adesão de uma infinidade de homens. E por que nasceu o #DesculpaBrigitte?

Como o capitão reformado faz coisas (não para o bem) que até Deus duvida, se o Deus do evangélico capitão reformado fosse à França clamaria pelo perdão da primeira-dama francesa, Brigitte Macron. Um cidadão chamado Rodrigo Andreaça publicou no Facebook duas fotos: uma do casal formado pelo capitão reformado e sua esposa, Michelle, e outra do presidente da França, Emmanuel Macron, com a sua mulher, Brigitte. Juntamente com as imagens, o internauta escreveu: “É inveja presidente do Macron pode crê (sic)”. O capitão reformado, que aliás é a triste figura do presidente do Brasil, endossou o comentário: “Não humilha, cara kkkkkkk” (isso mesmo, foram sete k numa manifestação do mais alta infantilismo). Traduzindo a baixaria, o que foi endossado tem o seguinte sentido: em meio à discussão internacional envolvendo a Amazônia que arde, o termômetro ferveu entre os dois presidentes com a insinuação de que Macron, cuja esposa é vinte e quatro anos mais velha que ele, estaria com inveja do capitão reformado pela jovialidade de Michelle, vinte e sete anos mais nova que o marido. “Como guardo um grande respeito pelo povo brasileiro, espero que tenha rapidamente um presidente que se comporte à altura”, declarou Emmanuel Macron sem rolar na escada da boa educação e da compostura moral que compõem (e devem mesmo compor) a liturgia da função de primeiro mandatário ­— sobretudo se pretende ele ser pai de filho embaixador.


“Achamos que o dever de um presidente é repelir comportamentos desse tipo ao invés de referendá-los”, publicou em nota o Grupo Mulheres do Brasil, um dos mais atuantes e que reúne aproximadamente quarenta mil membras. A atriz Letícia Colin deu um banho de valorização da mulher. Ela lembra que, para Brigitte, estar nesse status é apenas um detalhe: a primeira-dama francesa é professora de latim, literatura e teatro; inicia um projeto no qual lecionará para adultos desempregados nos subúrbios de Paris; e aguerrida ativista da causa antibullying. “Justamente no Dia Internacional da Igualdade Feminina (26 de agosto), vemos nosso presidente da República destilando ignorância”, escreveu nas redes sociais a deputada federal Tabata Amaral. “Ele foi grosseiro com Brigitte Macron”. Ligando essa grosseria ao ato de apequenar o próprio País, a também deputada federal Erika Kokay se manifestou por meio do movimento #DesculpaBrigitte: “O presidente foi machista, sexista e misógino. Ele ofendeu não somente Brigitte mas todas nós, mulheres, e igualmente toda uma Nação”.

Há tempo morando na Suíça, e, portanto, vivendo longe do Brasil, ainda assim o escritor Paulo Coelho, uma das unanimidades nacionais e um dos autores mais traduzidos no planeta, sentiu-se constrangido. E fez um vídeo como forma de “pedir desculpa pela crise de histerismo provocada pelo presidente brasileiro (…). É um momento tenebroso para o Brasil. Peço mil perdões pelo o que está acontecendo”. Se o capitão reformado se “acha”, e, mais que isso, se acha popular, foi justamente de uma das mais populares cantoras e personalidades midiáticas, Maria Gretchen, que desembarcou nas redes sociais a primeira crítica: “Emmanuel e Brigitte Macron, pardon”.

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Emmanuel e Brigitte Macron não rolaram na escada da boa educação e da compostura moral ao responderem à ofensa do capitão reformado

Todas essas manifestações de solidariedade estamparam as capas de jornais franceses (entre eles “Le Parisien” e “Le Figaro”), e Brigitte se declarou emocionada. Ou seja: brasileiras e brasileiros expressaram ao mundo que o País e a esmagadora maioria de seu povo são maiores na alma, na educação e em sua natureza se cotejados com o capitão reformado. Já para ele, resta-lhe seguir exaltando, em sua antropofagia torta e mesquinha, outro presidente, torto e mesquinho, exímio em baixarias — o colega americano Donald Trump. Só para lembrar, foram da boca de Trump que saíram esses absurdos: “Agarre-as pela vagina (…) quando você é uma estrela, te deixam fazer tudo”. Só para lembrar também, Trump igualmente comparou a sua mulher, Melania, com Heidi Cruz, esposa de seu oponente no Partido Republicano, Ted Cruz. E, finalmente, só para lembrar, o capitão reformado, hoje mais queimado no mundo do que a floresta em chamas, é aquele que as senhoras e senhores de fato já sabem quem é: Jair Bolsonaro.

 





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