Comportamento

Desânimo na sala de aula

Pesquisa mostra que há uma geração que sofre com o déficit educacional porque o ensino remoto durante a pandemia não foi capaz de substituir o presencial. Para completar, há uma decepção geral entre os jovens com o governo Bolsonaro

Crédito: Toni Pires

DESCASO A estudante Ananda Novaes viu sua turma diminuir de 30 para 21 alunos: a maioria precisou largar a escola para trabalhar e sustentar a família (Crédito: Toni Pires)

INFRAESTRUTURA As aulas de tecnologia são obrigatórias na escola de Pedro Baroni, mas não há monitores suficientes e a internet é fraca (Crédito:Toni Pires)

A política e o déficit educacional, depois de dois anos de pandemia, estão perturbando os estudantes brasileiros. Insatisfeitos com os resultados do ensino remoto, muitos sentem dificuldades com a volta às salas de aula. Pesquisa encomendada pelo Todos Pela Educação e realizada pela Conectar Pesquisas e Inteligência ao redor do Brasil mostra que os alunos retornam com o sentimento de que aprenderam pouco e reclamam das dificuldades que tiveram de manter o foco olhando para uma tela de computador, sem a supervisão de professores. Nove em cada dez jovens acreditam que o ensino remoto não substituiu o ensino presencial e pediam que as escolas reabrissem. Esses alunos não tiveram preparo para voltar à sala de aula, se desacostumaram com o contato pessoal e ainda encontraram uma infraestrutura precária. O que se vê são professores e alunos que, desmotivados com o futuro e compreendendo a imensa lacuna de classe social entre estudantes de colégios públicos e particulares, deixam a escola. A evasão escolar aumenta a olhos vistos. A pesquisa revela também uma decepção completa com a gestão federal e com a atuação do Ministério da Educação. Sessenta por cento dos jovens no geral desaprovam o governo Bolsonaro.

91% acreditam que o ensino remoto não substitui o presencial
61% não acreditam que o ensino remoto melhorou o aprendizado dos estudantes 

Estudante do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual Fernão Dias Paes, em São Paulo, Ananda Novaes Moreira viu sua classe diminuir de 30 alunos para 21 nos últimos dois anos. Muitos largaram o colégio pela necessidade de trabalhar para ganhar uma renda extra que ajudasse a família e outros precisavam cuidar dos irmãos mais novos. Uma minoria encontrou uma chance de estudo no período noturno – chegando a 40 pessoas na sala de aula. “Só estuda à noite quem tem extrema necessidade, pois faltam professores e os alunos precisam sair correndo para dar tempo de pegar o último ônibus. Toda essa correria, falta de infraestrutura, a insegurança e a privação de um futuro aumentam a insatisfação com o governo”, afirma Ananda, 18 anos. A jovem também percebeu que, durante o ensino remoto, muitos de seus colegas que trabalhavam também precisavam marcar presença nas aulas virtuais. “Tive muita dificuldade para me organizar na disciplina, principalmente. Estava em casa, tudo era motivo de distração, não conseguia estudar direito e procrastinava as matérias”, diz.

Não muito distante de Ananda, estudando no mesmo bairro paulistano, está Alice Zammataro, 16 anos. Apesar da proximidade geográfica, a realidade das duas é bem diferente e ambas sabem disso. Aluna de um tradicional colégio de São Paulo, Alice viu seus colegas desaparecerem da sala de aula, mas afirma que a maioria não frequenta por opção e por ter se desacostumado a ter matérias em classe. “Era fácil abandonar o estudo com as aulas virtuais. Não éramos monitorados, não tinha que prestar atenção, podíamos nos conectar mesmo viajando, era fácil se distrair. Foi muito dificil ter aulas pela tela, prestar atenção e manter uma rotina de aprendizado”, afirma a garota.

ENSINO REMOTO Alice Zammataro não se acostumou com o ensino remoto porque era dificil manter o foco: seu rendimento e suas notas caíram drasticamente (Crédito:Toni Pires)

Política na educação

O retorno não foi como o esperado. A volta reiterou o abismo de oportunidades entre estudantes de várias origens. A falta de investimento nas escolas não pagas, principalmente em sua infraestrutura, é deprimente. Pedro Baroni, 16 anos, estudante do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual Professor Manuel Ciridião Buarque, já viu cair o teto de uma sala na escola, a merenda escolar ser limitada por falta de alimentos e se acostumou a não ter acesso à internet. Em sua grade há aulas de tecnologia, porém falta tecnologia no colégio, visto que os computadores foram mal instalados e não há monitores disponíveis para toda a turma. “Nós, alunos de escola pública, só podemos fazer o Enem de graça uma única vez, no terceiro ano, quando muitos de nós ainda não estão preparados para isso. As cotas de colégios públicos não existem uma vez que precisamos competir com alunos que vêm de escolas mais privilegiadas em relação à nossa. É um sistema injusto. Não há esperança. Quem nasceu pobre vai continuar pobre”, diz o jovem. Oitenta e dois por cento dos brasileiros acreditam que os estudantes de escolas públicas foram mais afetados pelo fechamento de colégios durante a pandemia do que os alunos das particulares. E quase metade declarou que a questão da infraestrutura nas públicas deve ser discutida como prioridade pelo próximo presidente da República.

82% acreditam que os alunos de escolas públicas foram mais afetados pelo fechamento do que os das particulares
60% dos entrevistados desaprovam o governo do presidente Jair Bolsonaro 

Para cerca de 60% dos brasileiros a educação é um tema “muito importante” e deve ser inserido nas pautas e propostas dos próximos candidatos para governo federal e estadual. Segundo os entrevistados, se o assunto fosse prioridade haveria uma melhora significativa no desemprego, na redução de violência e corrupção, e também na renda de milhares de famílias. “Os números não mentem. A educação é importante para muitas pessoas na hora de escolher seus representantes. A população está descontente com a condução do governo federal e o eleitorado quer que os pré-candidatos tenham propostas concretas para a área”, explica Lucas Hoogerbrugge, líder de relações governamentais do Todos Pela Educação.

Apesar disso, ele vê com extrema preocupação o crescimento da percepção que as pessoas têm de que há menos alunos matriculados na sala de aula, bem como aumento de famílias que acreditam que seus filhos não estão alfabetizados. “Só vamos resolver essas lacunas se priorizarmos nosso foco em melhorar essa situação. Precisamos expandir a carga horária, recuperar as aprendizagens dizimadas e diminuir a desigualdade que foi escancarada pela pandemia. Vamos precisar de muito esforço e coordenação nacional para sairmos desta situação”, afirma Hoogerbrugge. O rombo educacional e social causado pela pandemia não será tapado de prontidão. Estima-se que leve cerca de uma década para que a situação volte ao normal.