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Deputada birmanesa desafia nobel Suu Kyi nas urnas

Deputada birmanesa desafia nobel Suu Kyi nas urnas

A deputada birmanesa Thet Thet Khin em campanha em 8 de setembro de 2020 - AFP

Uma deputada expulsa do partido de Aung San Suu Kyi, que ela considera “caótico e autocrático”, enfrentará a heroína nacional de Mianmar nas próximas eleições. Ela acredita que o país precisa trabalhar com o Exército, acusado de genocídio, e não contra ele.

A Liga Nacional para a Democracia (LND), partido de Suu Kyi atualmente no poder, é um dos favoritos para as eleições de 8 de novembro, a segunda desde que o país deixou para trás décadas de regime militar, mas Thet Thet Khine espera deixar uma marca.

Thet Thet Khine tem uma trajetória mista como estudante ativista, médica e posteriormente empresária. Em 2015, foi eleita deputada pela LND, junto com Suu Kyi.

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Caiu em desgraça, porém. Expulsa da LND no ano passado – segundo ela, por falar o que pensa -, essa mulher de 53 anos espera atrair eleitores para seu Partido Pioneiro do Povo (PPP).

“A LND não é mais a solução para o país”, disse Thet Thet à AFP em sua mansão em Yangon, decorada com colunas e lustres neoclássicos.

“A forma como o partido é dirigido é muito caótica e muito autocrática”, avalia, afirmando que a lealdade é valorizada em detrimento da capacidade e que existe uma cultura de microgestão e de medo de irritar “A Dama”.

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“Uma pessoa toma todas as decisões”, critica.

Muitas minorias étnicas estão decepcionadas com a LND, mas a sigla tem uma base de apoiadores nas terras dos bamar, o grupo étnico dominante.

E, para muitos, Suu Kyi incorpora a LND. Ela lidera o governo como conselheira de Estado, tem as rédeas das relações internacionais como ministra das Relações Exteriores e está à frente do combate ao coronavírus no país.

– “Via intermediária?” –

A família de Thet Thet Khine fez fortuna na indústria de rubis. Como estudante de medicina, uniu-se ao movimento pró-democracia que varreu o país em 1988, até ser brutalmente reprimido pelos militares.

Os protestos também levaram Suu Kyi à fama, “tão especial para nós”, lembra ela.

Após a repressão, a agora opositora optou pelos negócios, mas voltou à política na transição após o regime militar.

Agora lidera seu próprio partido em uma sociedade muito patriarcal. Afirma que a liderança é coletiva e que, no PPP a idade média dos candidatos é de 46 anos.

O partido promete mais empregos, melhores salários e menos impostos, embora dê poucos detalhes sobre como seria financiado. Apresenta o primeiro candidato abertamente gay de Mianmar, um muçulmano e um budista convicto, conhecido por sua posição islamofóbica.

“Poucos políticos entendem o mundo dos negócios, então isso é uma vantagem para ela”, estima Khin Zaw Win, analista de Yangon.

Uma de suas prioridades é preencher a lacuna entre o governo civil e o Exército, muito evidente na relação tensa entre Suu Kyi e o chefe do Exército, Min Aung Hlaing.

“Se pai e mãe brigam (…) os filhos não sabem o que fazer”, explica Thet Thet Khine, acrescentando que o Exército é “parte da solução” no processo de construção do Estado.

Segundo a Constituição, as Forças Armadas detêm poderes imensos, com três ministérios importantes e um quarto dos assentos no Parlamento, dando-lhes o direito de veto sobre a legislação.

Thet Thet Khine oferece uma “via intermediária”.

Mas meio século de governo da junta faz com que muitos suspeitem de Forças Armadas que aprisionaram milhares de pessoas por suas ideias, subjugaram minorias étnicas e alimentaram o declínio econômico.

“Tomaram muitas decisões erradas e cometeram muitos erros de gestão no passado”, reconhece a líder política, que insiste, porém, em que a nova geração de soldados está-se “profissionalizando”.

– Repressão aos rohingyas –

Aliar-se aos militares significará “perder algum apoio”, prevê Khin Zaw Win, que vê nela uma decisão pragmática. “Você precisa de algo em que se apoiar”, explica.

O Exército é acusado de vários abusos contra os direitos humanos em décadas de guerras contra grupos étnicos armados.

Em 2017, os muçulmanos rohingyas denunciaram assassinatos, estupros e incêndios criminosos em operações militares que levaram o país a ser indiciado por genocídio na mais alta corte da ONU, um julgamento que Thet Thet Khine considera “desnecessário”.

Os militares “podem ter reagido de forma desproporcional (…) mas não é genocídio, ou limpeza étnica”.

Os rohingyas vivem no estado de Rakhine há séculos, mas são vistos como forasteiros sem direitos.

Os rohingyas “nunca serão nativos”, diz ela, mas reconhece que aqueles, cujas famílias imigraram há mais de três, ou quatro gerações, deveriam ter sido aceitos.

“Devem ter cidadania” e não ser alvo de discriminação, acredita.

Praticamente todos os 600.000 rohingyas restantes em Mianmar não terão direitos nessas eleições, como aconteceu nas últimas poucas organizadas no país.

Sua situação não é prioritária para a maioria dos partidos, inclusive para o PPP.

Este partido está presente em menos de um terço dos distritos eleitorais. Thet Thet Khine se contentaria em obter 5% das cadeiras e reconhece que é um teste para as eleições de 2025, quando Suu Kyi fará 80 anos.

Suu Kyi “não acredita em um plano de sucessão, então, depois de sua era (…) a LND irá à falência de acordo com a terminologia empresarial”.

“Mas acho que ela permanecerá no poder até seu último dia”, concluiu.

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