Cultura

Depois do cinema, é hora dos shows em drive-in

O show não pode parar. Foi com essa máxima, que, na última terça-feira, o cantor Ivo Meirelles subiu no palco da Arena Estaiada Drive-In, em São Paulo. O carioca estreou na cidade esse novo molde de apresentações, tendência decorrente do isolamento social em razão da pandemia do novo coronavírus. Ontem, a banda mineira Jota Quest se apresentaria em outro espaço drive-in, a Arena Sessions do Allianz Parque – uma série de shows está programada para o espaço em julho. A alternativa é uma forma de movimentar a cadeia de produção artística diante do cancelamento massivo de shows.

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De fato, os shows no estilo drive-in têm se tornado uma opção no Brasil e no mundo. A banda inglesa de música eletrônica VNV Nation se apresentou, no dia 21, em um espaço aberto em Hamburgo, na Alemanha. No Facebook, a banda classificou a experiência como “incrível” e que a noite foi “inesquecível, incomum e completamente brilhante” – numa referência às luzes dos faróis dos carros.

Por aqui, o cantor e compositor Léo Chaves foi o primeiro artista popular a se apresentar no palco externo da Arena Petry, em Florianópolis (SC). Há duas semanas ela funciona com o sistema drive-in, com shows e peças infantis. Chaves fez sua apresentação no dia 20, para uma plateia de 250 carros – cada automóvel entrava com até 3 pessoas. “Receber aplausos em forma de buzinadas e faróis altos foi diferente de tudo o que eu já tinha vivido em minha carreira”, diz ele, que, no ano passado, lançou-se em projeto solo depois de 26 anos de dupla com o irmão, Victor. “Senti o gostinho de estar no palco novamente.”

Ivo Meirelles conta que, em março, fazia uma temporada de shows no Bar Brahma quando a covid-19 começou a se espalhar pelo Brasil. “Percebi que a coisa ia ficar feia e mandei fazer umas máscaras, imaginando que se as distribuísse na hora para o público, isso bastaria para que o show continuasse”, diz Ivo. Não foi bem isso que aconteceu. Mas o apetrecho personalizado, cuja estampa mostra um Ivo sorridente, de óculos escuros, com farta cabeleira multicolorida, está sendo bem utilizado pela equipe.

Com as máscaras e a necessidade de seguir com sua arte, Ivo fez contato com a produção do Arena Estaiada, outro espaço que teve de se adaptar à nova realidade, para fazer uma live. Bob Dannerberg, empresário e um dos sócios da Arena (onde funciona também um cinema), comenta que teve a ideia do show baseado em ações que já estão ocorrendo nos Estados Unidos e Europa. “O desafio hoje é se reinventar”, enfatiza. “Pensar em modalidades de negócios que sejam adaptadas à pandemia.”

Novo formato

Produtores e empresários trabalham com a possibilidade de os shows voltarem a ser realizados a partir de agosto. Primeiramente, as casas de espetáculos e festivais receberiam até 35% da capacidade de público permitido. Em uma segunda etapa, essa porcentagem subiria para 50%. Até o fim de setembro, as apresentações poderiam receber 100% dos espectadores. Porém, tudo depende de como a pandemia se comportará até lá e das orientações dos governos estaduais e prefeituras.

Enquanto isso, os drive-in são uma solução para o setor cultural. “É uma maneira de não deixar a marca na gaveta”, diz Roberto Petry, sócio-diretor da Arena Petry em Florianópolis, complexo com 24 mil metros quadrados. Antes da pandemia, a casa realizava ao menos três grandes shows mensais. A estrutura estava ociosa desde março.

Petry diz que esse modelo de show drive-in tem custo mais elevado, com uma estrutura maior e menos consumo por parte do público, o que praticamente inviabiliza o lucro. “O ganho é institucional e de relacionamento. Muita coisa está sendo negociada na base da parceria”, diz. Petry acredita que o modelo acaba quando voltarem os shows presenciais.

Opinião parecida tem Luiz Restiffe, da Agência InHaus, que produz festivais como Nômade e Farraial. “É uma possibilidade continuar com os eventos, mas esse modelo não veio para ficar. As pessoas querem se relacionar, estar juntas, lado a lado. Quando isso for possível, o drive-in acaba”, afirma o empresário.

Apesar da previsão, Restiffe vai lançar o Drive-in Stage, que em julho vai realizar eventos com música e cinema dentro do Parque Burle Marx, em São Paulo. O primeiro deles será o Sertanejando SP, nos dias 11 e 12, que terá apresentações dos grupos de forró Rastapé, Bicho de Pé e Trio Dona Zefa e contará com comidas e barracas típicas.

Os eventos serão para 100 carros, distantes cinco metros entre eles, conforme decreto da prefeitura. A compra de ingressos, consumo de bebidas e comidinhas e até a fila para o banheiro serão feitos por meio digital. A agência ainda estuda uma versão pocket do Nômade Festival, igualmente para ser visto de dentro do carro. “Vamos sentir como esse tipo de entretenimento será recebido e, quem sabe, depois, definir voos maiores”, diz Restiffe.

Fernando Ximenes, sócio do Arena Estaiada Drive, também quer esperar ver como o setor de entretenimento vai caminhar nos próximos meses para definir se a programação do espaço será aumentada, não só com shows, mas com palestras e humor stand-up. “Nosso objetivo é manter as atividades até o final de agosto, mas, como estamos nos reinventando a cada dia, nada impede de prorrogarmos o espaço. Tudo depende da demanda.”

Otimista, o empresário carioca Luiz Calainho, que tem entre seus negócios a Aventura Entretenimento, produtora de musicais como Elis – A Musical e Vamp, e as unidades do clube de show Blue Note no Rio e em São Paulo, diz que os drive-in voltaram para ficar. Não como espaços permanentes, acredita ele, mas como eventos transitórios. “Lembro da sensação de frequentar o cinema drive-in com meus pais e irmãos na década de 1970. Essa diversão em família ou em amigos vai pegar as pessoas agora também”, diz ele, que, em julho, vai produzir dentro desse modelo, no Rio e em São Paulo (Parque Villa-Lobos), sessões de musicais que homenageiam a bossa nova e o samba.

Como é a experiência. O Estadão assistiu ao show drive-in de Ivo Meirelles na Arena Estaiada, na terça-feira, 23. O ingresso é online: não há bilheteria. Quando o cliente chega, um funcionário mede a temperatura dos ocupantes do automóvel. Acessando um QR code em cada uma das vagas dos carros – 100, ao todo – o cliente pode chamar os garçons para fazer pedidos e também entrar na fila do banheiro.

O show está prestes a iniciar quando os primeiros carros começam a chegar. O automóvel guiado pelo vendedor de materiais hospitalares Roque Massaia, de 61 anos, acompanhado de sua esposa, Rose, de 59, encosta em posição privilegiada, bem no centro do palco. “Ganhamos os convites de uma amiga. A verdade é que estávamos entediados de ficar em casa”, comenta Roque. Eles relembraram da época de namorados, quando assistiam às sessões nos drive-in de São Paulo. “Lembro de um na Marquês de São Vicente. O som era horroroso, muito difícil de entender os diálogos”, diz Rose.

Problema resolvido pela tecnologia. Um mecanismo de transmissão foi desenvolvido para captar as frequências das notas musicais do show e transmiti-las em uma rádio, que pode ser acessada de dentro do carro. Interessante como espectador presenciar o show de fora do carro, com o cantor cantando “baixinho”. Dentro do automóvel, um som simultâneo limpo e sem ruídos.

O show começa com quinze minutos de atraso, às 17h45, com a presença de Nãnãna da Mangueira, sambista da velha-guarda da Verde e Rosa. Ela canta algumas canções e chama Ivo ao palco, que é recebido com um buzinaço pelo público. “Nunca imaginei que fosse gostar tanto de ouvir buzinas”, brinca Ivo. Além de convidados especiais como Tobias da Vai-Vai e Arlindinho, duas passistas das escolas de samba Rosas de Ouro e Vai-Vai sambaram o tempo todo com as máscaras multicoloridas de Ivo. O que pode ser visto como uma nova tendência no próximo carnaval: samba nos pés e suor nas máscaras. Mas isso já é outra história. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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