Por Júlia Leão Fotos Divulgação Denise Fraga é conhecida por seus personagens cômicos na televisão. Recentemente, porém, a atriz aceitou um desafio e filmou um longa dramático, da cineasta Tata Amaral, ?Hoje?, que estreia em circuito nacional no segundo semestre. Protagonista ao lado do ator uruguaio Cesar Troncoso (que interpreta Luiz), a atriz dá vida a Vera, ex-militante política que recebe indenização do governo brasileiro pelo desaparecimento do marido, vítima da repressão desencadeada pela ditadura militar brasileira (1964-1985). A trama foi inspirada no livro Prova Contrária, do escritor Fernando Bonassi, e já levou para casa a estatueta de melhor filme no 44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (2011). Além do ?Candango de Ouro?, ganhou mais cinco estatuetas de melhor fotografia, atriz, direção de arte e roteiro. Em conversa com Gente, a atriz conta como foi realizar este trabalho. Como definiria Vera? E como foi interpretá-la? Vera é uma mulher que está tentando reestruturar sua vida depois de uma grande perda e este sentimento confuso em relação ao seu passado. Há um desconforto na compra do apartamento com o dinheiro da indenização recebido pelo desaparecimento do marido durante a ditadura militar. Talvez tenha sido a personagem mais complexa que interpretei. A mais dramática, com certeza.
Atualmente temos uma ex-guerrilheira, que foi torturada e casada com um “companheiro’ como Presidente da República. O que acha desse cenário? Alguma semelhança com o filme? Acho que todas as pessoas que de alguma maneira passaram por estas experiências se identificarão com o filme. Não sei o quanto de semelhança direta poderia ter, mas sinto que o fato de termos uma ex-guerrilheira como presidente do País, cria cada vez mais pertinência para que histórias íntimas desse período lindo e ao mesmo tempo terrível da nossa História sejam contadas. Sempre teremos o que saber, sempre precisaremos de depoimentos, histórias, filmes, peças e livros que nos ajude a entender e digerir o que foi tudo aquilo. Você fez pesquisa de campo com pessoas torturadas nesta época ou mesmo que viveram mais intensamente a luta contra a ditadura para compor a personagem? Vimos muitos depoimentos de pessoas que a própria Tata já tinha recolhido para fazer a minissérie ?Trago Comigo?, para a TV Cultura. Eu já tinha também pesquisado bastante para a personagem Bia que fiz na minissérie ?Queridos Amigos? da TV Globo. Após mais de 20 anos, a questão da tortura continua mal resolvida na vida de Vera. Conhece pessoas que até hoje vivem com esses fantasmas? Você acha que o Brasil quer esquecer essa época? Eu acho que simplesmente não dá pra esquecer. A tortura é uma parte vergonhosa da nossa história. A tortura como consequência da luta por um sonho, da luta pela liberdade é uma coisa hedionda. A tortura é um instrumento covarde. A sofisticação de métodos de tortura a que se chegou neste período é algo muito difícil de digerir. Não dá pra esquecer e não é pra esquecer. Eram pessoas lutando por algo maior, uma forma de vida melhor, pelo menos era o que todas elas tinham na cabeça. Siga Gente no Twitter!