Democracia cavalgada

Crédito: JOEDSON ALVES/EFE

(Crédito: JOEDSON ALVES/EFE)

Elá veio ele, galopando, triunfante, no papel que se imagina, de soberano absoluto, idolatrado, entre poucas dezenas de gatos pingados. Ideológicos, que perderam a noção de tempo e democracia. E lá veio ele, de novo, e mais uma vez, com seus intentos totalitários, desejando fechar o Congresso e o Supremo, falando em forças estranhas que promovem a crise, chamando opositores de “marginais e terroristas”. Bolsonaro, o “mito” Messias do cerrado, imagina ter a primazia das ruas e da voz do povo. Ledo engano. Cruamente sinalizado a ele por meio de mobilizações que estão ganhando estofo e amplitude, por todas as camadas sociais. E lá vem a grande turba. A mostrar que a hora agora, e sempre, é da democracia irreversível. Sem retrocessos. Sem tolerância a abusos contra a pregação magnânima da Constituição. Cerca de 600 advogados e juristas assinaram e deixaram claro um protesto de repúdio às imprecações absolutistas do mandatário. Torcidas organizadas de dois times rivais, Palmeiras e Corinthians, tomaram as ruas, irmanadas (quem diria!), para darem um voto de resistência em prol da democracia. Algo inédito.

Surpreendente! Manifesto assinado por milhares de postulantes, das mais diversas vertentes ideológicas e de classe, intelectuais, artistas, professores, os chamados formadores de opinião, varreu as páginas de jornais, veículos de comunicação, para pedir um CHEGA aos desmandos do chefe de Estado. A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a OAB e centrais sindicais estão organizando conversas para ratificar a necessidade de respostas às ameaças fascistas. O movimento “Somos 70%”, também fazendo referência à baixa aprovação do chefe do Executivo, se diz maioria frente aos seus desvios oblíquos e o Congresso articulou uma aliança suprapartidária invocando a necessidade de se deixar de lado diferenças políticas para que todos integrem o pelotão de defesa política contra a eventual implantação de uma ditadura no País. Cordão de isolamento poderoso, sonoro e em formação, trazendo, na essência e de maneira sincronizada, o objetivo de conter os arroubos ensandecidos que emanam do Planalto. Mesmo o Supremo Tribunal Federal, em rara união, demonstrou desapreço às afrontas do presidente cujo lema, manifestado de própria voz, seria o de que “decisões absurdas não se cumprem”. Não se cumprem, como assim? Absurdas para quem, caro presidente? O senhor pensa ser o patriarca de um feudo, para ditar e desautorizar deliberações judiciais, acordadas nos termos da Carta Magna? Ao que tudo indica, sim. O inquilino do Palácio é levado pela retórica do arreganho. Parece reconhecer somente a própria voz como a única credenciada ao comando. De tudo e de todos.

Déspota deslocado da realidade, anseia marchar à base da pólvora e da baioneta. “Chegamos no limite. Estou com as armas da democracia na mão”, alegou dias atrás. Certamente não seriam democráticas as tais armas às quais se refere. Essas, de outra natureza e origem, portam os que sabem atuar conforme a voz da maioria e a devida ordem legal. Nas palavras do decano do STF, Celso de Mello, guardadas as devidas proporções, o “ovo da serpente”, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar (1919-1933), parece estar prestes a eclodir no Brasil. O ministro togado traçou um paralelo entre Hitler, que após eleito pelo voto popular enveredou na rota de um sistema totalitário, e as circunstâncias em curso por aqui, marcadas pela delinquência federal. Talvez com certo exagero. Mas do ponto de vista dos pendores do capitão raso de Brasília, nada muito longe do factual. Bolsonaro chegou a fazer referência aberta nas redes digitais a uma frase do líder fascista, Benito Mussolini. Postou no Facebook vídeo com os dizeres: “Melhor um dia como leão do que cem anos como ovelha”. Tá ai o que pensa o Malasartes das armas. Bolsonaro, não há dúvida, converteu-se no estorvo da democracia. Com ele cessou o diálogo. Irrompeu a intolerância. Calaram-se os fundamentos essenciais da boa convivência social. No ciclo de mandato que alcança quase a metade do prazo, o replicar de crises parece durar a eternidade. Grupelhos mascarados de uma facção bolsonarista denominada “300 do Brasil”, com tochas na mão e togas pretas, à imagem e semelhança dos arruaceiros da Ku Klux Klan americana, chegaram a sitiar o STF, dias atrás, urrando ameaças, numa estética de atos supremacistas bem típico de veneradores de seita. Não há muita escapatória para os democratas que não a de buscar reagir. O presidente não planeja a distensão dos conflitos. Ao contrário. É a chama de sua sobrevivência. Na polarização com “inimigos”, no impasse com os poderes constituídos e na eterna verborragia belicista reside seu lampejo de sobrevivência. Com o mesmo intuito, abre descaradamente o balcão de negócios para comprar forças políticas abjetas e fisiológicas do Centrão, como meio de evitar os processos de impeachment que se amontoam. Apeado do cavalo, ele não consegue ser mais do que o mero bedel do baixo clero, para onde deve irremediavelmente voltar.

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