A prevalência de demência aumentou significativamente nos últimos vinte anos em países da América Latina e do Caribe. Pesquisadores apontam que o envelhecimento da população, isoladamente, não explica esse avanço. Fatores como sedentarismo, doenças crônicas, baixa escolaridade e acesso limitado aos serviços de saúde também contribuem para o crescimento dos casos na região, conforme estudo publicado na revista JAMA Neurology.
- A demência na América Latina e no Caribe registrou um aumento expressivo de sua prevalência nas últimas duas décadas, superando as projeções baseadas apenas no envelhecimento populacional.
- Estudo recente revela que a alta não é explicada somente pela mudança na pirâmide etária, mas por um conjunto de fatores como sedentarismo, doenças crônicas e acesso restrito à saúde.
- Especialistas reforçam a importância do diagnóstico precoce, da prevenção e de políticas públicas articuladas para combater a progressão da doença e oferecer suporte aos pacientes e seus cuidadores.
Demência é um termo abrangente utilizado na medicina para categorizar diferentes tipos de síndromes que causam declínio cognitivo. Entre elas, destacam-se a Doença de Alzheimer (DA), a demência vascular (DV), a demência da doença de Parkinson (DDP) e a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Esses quadros, caracterizados por prejuízos à memória, comunicação, atividade motora e autonomia, são mais comuns entre os idosos, e o envelhecimento demográfico naturalmente tende a elevar sua prevalência.
Este cenário é notável em regiões da América Latina e do Caribe. Um estudo, divulgado em julho, indicou que a prevalência de demência cresceu de forma significativa no México, Peru e Porto Rico ao longo das últimas duas décadas. A prevalência bruta total passou de 10,6% entre 2003 e 2006 para 16,9% entre 2016 e 2020. Esse valor médio inclui também dados de Cuba e da República Dominicana, onde as médias se mantiveram elevadas no período, com 8,8% e 9,7%, respectivamente.
O que impulsiona o avanço da demência?
A pesquisa ainda ressalta que os resultados apontam para uma subestimação anterior da demência na região. “Estimativas anteriores da carga global foram, em grande parte, derivadas de modelos estatísticos que extrapolam dados coletados em países de alta renda, ajustados de acordo com o tamanho da população e a estrutura etária”, explicou o neurologista Jorge Llibre-Guerra, professor da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e um dos autores do artigo, em entrevista à Agência Einstein. Ele complementa que “Nosso estudo é um dos poucos a medir a prevalência diretamente em amostras comunitárias, utilizando ferramentas diagnósticas validadas e culturalmente adaptadas.”
No entanto, o envelhecimento populacional não é a única explicação para essa tendência. Embora a América Latina e o Caribe estejam em processo de inversão de suas pirâmides sociodemográficas, com mais idosos do que nascimentos, o crescimento dos casos não se deve apenas a isso. Llibre-Guerra avalia que “Quando ajustamos estatisticamente nossas estimativas para considerar as mudanças na estrutura etária da população entre as duas ondas, os aumentos no México, no Peru e em Porto Rico persistiram. Isso sugere que algo além do envelhecimento está impulsionando essas tendências.”
Entre as possíveis causas adicionais, a equipe de pesquisa aponta os comportamentos sedentários como principais responsáveis pela alteração. Tais comportamentos favorecem a obesidade, a inatividade física, o diabetes e a hipertensão, todos reconhecidos como fatores de risco para a demência. A dificuldade de acesso a cuidados de saúde primários para o tratamento dessas condições também pode estar ampliando o risco ao longo do tempo. Além disso, o nível de escolaridade, um forte fator de proteção, pode não ter exercido seu efeito protetor nas gerações mais velhas, que não se beneficiaram de avanços educacionais no início da vida.
“A redução na prevalência de demência observada nos Estados Unidos e em vários países europeus é atribuída, em grande parte, a mudanças ao nível populacional que levaram décadas para se consolidar”, informou o pesquisador. Ele compara: “A América Latina e o Caribe enfrentam um conjunto diferente de circunstâncias, uma vez que grande parte da população idosa atual cresceu com acesso limitado à educação, os sistemas de saúde carecem frequentemente de recursos para o controle de doenças crônicas e a região está passando por uma rápida transição epidemiológica que está concentrando a exposição aos fatores de risco em um período de tempo muito mais curto.”
Diagnóstico e tratamento são pilares
O aprimoramento da capacidade de diagnóstico também é um fator a ser considerado na análise do aumento dos casos. Atualmente, médicos e equipes de saúde estão mais preparados para identificar e lidar com quadros de demência do que há vinte anos. Antigamente, era comum considerar o esquecimento em idosos como algo “normal”. Hoje, essas doenças são melhor compreendidas, e casos suspeitos são investigados por meio de diversas abordagens.
Uma pesquisa publicada em 2022 na revista Dement Neuropsychol, pela Academia Brasileira de Neurologia (ABN), recomenda que o percurso diagnóstico dessas condições seja clínico. Ele deve se basear em anamnese detalhada, avaliação funcional e uso de instrumentos de rastreio cognitivo adaptados, como o Miniexame do Estado Mental (MEEM), o Montreal Cognitive Assessment (MoCA) e a Bateria Breve de Rastreio Cognitivo (BBRC). A ABN também sugere investigação etiológica com exames laboratoriais e de neuroimagem, além de biomarcadores em casos específicos, visando iniciar o tratamento precocemente e frear a neurodegeneração.
Na Doença de Alzheimer, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima representar 60 a 70% de todos os casos de demência, a perda de memória é o sintoma principal. Geralmente, o indivíduo tende a esquecer fatos recentes, ter dificuldades em cumprir compromissos, realizar atividades cotidianas (como pagar contas) e até esquecer palavras. “Quando o indivíduo começa a sentir isso, ele já deve procurar atenção médica, porque hoje entendemos que, quanto antes o diagnóstico for feito, maior a chance de frear a evolução do quadro”, afirma a neurologista Jerusa Smid, do Hospital Israelita Albert Einstein. Ela conclui que, como não há cura, “o objetivo das terapias é atrasar a sua progressão e prolongar, pelo maior tempo possível, a autonomia do paciente.”
O tratamento da demência se divide em frentes medicamentosa e comportamental. A escolha dos fármacos varia conforme a causa da doença. No Alzheimer, inibidores da acetilcolinesterase — como donepezila, rivastigmina e galantamina — bloqueiam a enzima que degrada a acetilcolina, um neurotransmissor crucial para a memória, aumentando sua disponibilidade cerebral. A memantina, indicada para casos moderados a graves, atua sobre receptores de glutamato do tipo NMDA, reduzindo a atividade excessiva que pode lesar neurônios.
Recentemente, cresceu o número de tratamentos com anticorpos contra a proteína beta-amiloide, que se acumulam no Alzheimer, formando placas que interrompem a comunicação e causam a morte neuronal. Esses medicamentos representam uma mudança no paradigma por agirem diretamente na alteração relacionada à doença, mas sua indicação é restrita e exige avaliação criteriosa.
Os cuidados não medicamentosos incluem exercícios físicos moderados (caminhada, bicicleta, natação, dança) e atividades que estimulam o cérebro, como aprender idiomas, tocar instrumentos ou hobbies manuais. Treinos cognitivos estruturados, conduzidos por neuropsicólogos, são planejados para estimular memória, atenção, linguagem e raciocínio. Tais atividades são personalizadas às dificuldades e habilidades de cada paciente, abrangendo tarefas de associação, organização e orientação.
Fundamental também é o controle de fatores que agravam ou aceleram a doença. Manter diabetes, pressão arterial e colesterol sob controle, combater a obesidade e cuidar da qualidade do sono são medidas cruciais. “O sono tem papel particularmente relevante, pois, além de estar associado ao risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC), sua má qualidade também se relaciona diretamente à doença de Alzheimer. Durante o sono, o cérebro intensifica processos de eliminação de substâncias residuais, entre elas proteínas alteradas associadas à doença”, lembra Smid. O tratamento de depressão e ansiedade, e a correção de perdas auditivas e visuais, também contribuem para um curso mais lento e a preservação da funcionalidade.
Estratégias de prevenção e combate
O combate à demência nos próximos anos dependerá da capacidade dos sistemas de saúde de se anteciparem. Em muitos países, planos nacionais de demência já guiam medidas de saúde pública e assistência. No Brasil, um estudo de 2025 no International Journal of Geriatric Psychiatry concluiu que 8,5% da população com 60 anos ou mais vive com demência. Apesar de iniciativas estaduais e municipais, falta um plano nacional articulado que organize desde a identificação inicial até o atendimento de casos complexos.
Diante desse panorama, especialistas defendem que a atenção primária deve ter um papel central. O diagnóstico precoce deve ocorrer nas unidades básicas de saúde, onde profissionais devem ser capacitados para identificar sinais de comprometimento cognitivo e acompanhar a maioria dos pacientes. Casos que demandem investigação mais aprofundada, ou que possam ter tratamento específico, seriam encaminhados à atenção secundária para avaliação especializada. Quadros de maior complexidade chegariam à rede terciária, focada em atendimentos especializados.
A prevenção, contudo, começa bem antes do surgimento dos sintomas. Um relatório da OMS, publicado em julho, aponta que até 45% do risco de demência pode ser atribuído a fatores modificáveis. A ampliação do acesso à educação e à escolaridade ao longo da vida é vista como uma medida de longo prazo para reduzir o risco. Na vida adulta e velhice, controlar fatores como hipertensão, colesterol alto, diabetes, distúrbios do sono e problemas de saúde mental é decisivo para preservar a saúde cerebral.
Não existem medidas de prevenção “milagrosas” para a demência, como por vezes se propaga nas redes sociais. Não há justificativa para suplementação indiscriminada em pessoas saudáveis. “Na investigação de um paciente com suspeita de demência, exames de sangue podem identificar deficiências de B12, ácido fólico, vitamina D, proteínas ou a presença de anemia — situações que devem ser corrigidas quando confirmadas. Mas, na ausência desses déficits, a recomendação é não recorrer a polivitamínicos de forma rotineira”, pontua Smid. Ela enfatiza que “A prevenção deve estar baseada em medidas com respaldo científico e no acompanhamento individualizado dos fatores de risco, e não em modismos que prometem proteger o cérebro sem evidências consistentes”.
O combate à demência requer mudanças que vão além de consultórios e hospitais. O envelhecimento populacional aumenta a demanda por centros de convivência e acolhimento para idosos, além de instituições públicas de longa permanência, ainda escassas no país. Outro desafio é o suporte a cuidadores. “Em muitos casos, familiares, sobretudo mulheres, deixam o emprego para assumir a assistência de pais, companheiros ou sogros, com impactos econômicos e sociais que ultrapassam a esfera doméstica. Ampliar essa rede de suporte significa reconhecer a demência não apenas como uma questão médica, mas como um problema que envolve famílias, mercado de trabalho, políticas públicas e toda a sociedade”, analisa a neurologista do Einstein.
Da IstoÉ com Agência Einstein