Cultura

Demasiado humano

Em seu novo documentário, o diretor russo Evgeny Afineevsky revela os bastidores da revolução provocada pelo papa Francisco no interior da Igreja Católica e demonstra como seu ativismo político na questão da tolerância religiosa, defesa do meio ambiente e crise dos refugiados tem causado reações em todo o mundo

Crédito: Divulgação

ATIVISMO Papa Francisco: documentário mostra o lado político do pontífice e o poder inspirador de sua mensagem (Crédito: Divulgação)

Se o papa Francisco não existisse, seria preciso inventá-lo. Poucas vezes na história a voz de um líder humanitário — religioso ou não — se mostra tão necessária para chamar a atenção aos problemas do mundo atual, onde os desafios são tantos e tão gigantescos que ameaçam nossa própria existência como seres humanos. Além da pandemia, enfrentamos simultaneamente uma crise ambiental, um colapso social e uma degradação moral. Tudo isso está no filme biográfico sobre o chefe da igreja católica intitulado “Francesco”, novo documentário do diretor russo-americano Evgeny Afineevsky. A produção comprova que o lado humano do pontífice tem provocado mudanças relevantes dentro e fora dos círculos cristãos.

O estilo ativista da produção não é novidade para quem conhece o trabalho de Afineevsky. O diretor foi indicado ao Oscar e ao Emmy por “Inverno em Fogo: A Luta da Ucrânia pela Liberdade”, filme sobre a revolução de 2014, que começou com um pequeno protesto na praça Nezalezhnosti e terminou com multidões nas ruas de Kiev e a deposição do presidente Viktor Yanukovych. Seu segundo filme, o também elogiado “Cries for Syria”, aborda a tragédia que afetou o país do Oriente Médio após uma guerra civil devastadora. Em “Francesco”, Afineevsky retrata novamente uma revolução, mas desta vez ela é focada em resolver os desafios enfrentados pela humanidade e conduzida por um único homem: o argentino Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco.

O papa Francisco é um homem de ação. Seu papado entrará para a história pela coragem com que aborda temas sensíveis para a própria Igreja, como os escândalos de abusos sexuais e pedofilia. No documentário “Francesco”, o acesso livre do diretor ao Vaticano permite ao público conhecer melhor as decisões políticas do alto clero, mesmo quando incomodam: determinada pelo próprio papa, a investigação sobre pedofilia no Chile leva a condenações impensáveis há poucos anos. Até as vítimas do abuso, os padres Juan Carlos Cruz, James Hamilton e Jose Andres Murillo, se mostram surpresas com a ação corajosa do papa, bem diferente da reação de seus antecessores. A forte influência da avó, Rosa, levou Francisco a mudar a política da Igreja em questões de gênero. Em atitude inédita, nomeou mulheres para altos cargos no Vaticano, como a advogada – e leiga – Francesca Di Giovanni, a nova subsecretária para as Relações com os Estados, posição mais alta já ocupada por uma mulher na Santa Sé. “Francesco” mostra ainda sua posição firme em apoio às uniões civis de mesmo sexo, discussão que a Igreja evita há anos. Ele não apenas abençoa os casais gays, como os recebe no Vaticano. “Somos todos filhos de Deus”, diz o pontífice, em um depoimento emocionante – sua humildade e respeito ao ser humano faz assuntos complexos parecerem simples.

É no mundo “real”, porém, fora do Vaticano, que o filme mostra suas ações mais contundentes. É importante ressaltar que o uso da expressão “política”, nesse caso, não diz respeito a reuniões com presidentes ou interlocutores poderosos. Sua atuação é humana, jesuística, voltada para os povos que sofrem com as crises espalhadas pelo planeta. No documentário é possível ver que ele compreende o poder midiático de sua presença, e usa sua imagem para colocar holofotes que, de outra maneira, ficariam restritos às sombras. Refugiados, mudanças climáticas, intolerância religiosa, desigualdade social – quanto pior a crise, mais provável é a presença do papa Francisco no local, acolhendo as vítimas e atraindo as câmeras da imprensa mundial. Afineevsky espera que o filme tenha um efeito positivo de atrair pessoas às causas defendidas pelo papa: a campanha de divulgação e engajamento, que conta com diversas personalidades de Hollywood, está em www.francescofilm.com .

TRAGÉDIA O drama dos refugiados: a grande questão humanitária da atualidade, segundo o papa Francisco (Crédito:Divulgação)

As cenas que mostram a coragem pessoal do papa Francisco impressionam. Em visita à República Central Africana, uma nação em plena guerra civil, ele se recusa a andar no carro blindado e entra caminhando para rezar em uma mesquita, acompanhado por líderes muçulmanos ameaçados de morte. Já o drama dos refugiados lhe é caro por razões pessoais: conta na entrevista que sua própria família teve de deixar a Itália na Segunda Guerra para fugir do ditador Benito Mussolini. Se o problema era dramático na época, quando quarenta milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar, o que dizer de hoje, quando esse número já atinge 70 milhões? A cobertura jornalística da visita do papa ao campo de refugiados de Lampedusa colocou pressão sobre o governo italiano e forçou o lançamento do “Mare Nostrum”, programa de resgate que salvou 150 mil náufragos em um ano. “Deus sempre perdoa, os homens às vezes perdoam. Mas a natureza não perdoa nunca”, afirma, em sua cruzada contra a devastação do meio-ambiente. Sua inspiração em São Francisco de Assis, o padroeiro da ecologia, o levou a incluir o tema em sua encíclica “Laudato Si”. O tema nunca havia sido abordado pela Igreja – mais um assunto que torna Francisco um papa que faz muitas coisas pela primeira vez.


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EXCLUSIVO
“O papa é um revolucionário”

Como foi a sua transição temática dos protestos na Ucrânia e da crise na Síria para o papa Francisco?
Meus filmes abordam temas como revolução, luta pela democracia, histórias humanas. Aprendi muito sobre os problemas que enfrentamos hoje. Queria falar sobre esperança e humanidade, e me deparei com a visão do papa Francisco. Enquanto causamos desastres e guerras, ele tenta navegar por toda essa bagunça.

Evgeny Afineevsky, diretor

A escolha pelo tema teve alguma influência religiosa?
Não, até porque sou judeu. Nasci na Rússia e fiz um filme favorável à Ucrânia, hoje um inimigo. Cresci em Israel e filmei na Síria. Vou na direção oposta. A religião não faz parte dessa história, o importante era dar voz aos inocentes que precisam ser ouvidos.

O papa compreende a importância da mídia?
No começo do projeto, ele me disse: “não sou um ator e não vou agir de forma diferente na frente das câmeras”. Para ele o importante é o poder das pessoas. Ele sabe que a imprensa chama atenção para suas causas, mas a opção do documentário pelo ativismo foi minha. Meus filmes têm sempre um “call to action”, um chamado à ação.

Qual é a mensagem do filme?
Estamos em um momento da história em que precisamos escolher o que deixamos no passado e o que levaremos para o futuro. Com a situação crítica vem a oportunidade, e esse é um momento de convocar as pessoas a agirem.

Foi fácil convencê-lo a falar sobre questões polêmicas?
O papa não é um revolucionário apenas na igreja, mas um revolucionário em todos os sentidos. Ele traz transparência para a igreja e aborda os temas que julga importantes.

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Quando estava com ele, sentiu uma presença divina?
Falar com o papa é como falar com você. Ele faz você se sentir confortável. Não tenta ser superior, como outros líderes mundiais. Não senti nada divino. Ele é um grande ouvinte, um professor. Eu o vejo como irmão, pai, amigo.
É um homem santo porque o que faz é nobre. Ele nos inspira a mudar nossa visão das coisas. Se continuarmos assim, estamos destinados ao fracasso.

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