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Deixem a rainha beber

Aos 95 anos, Elizabeth II é aconselhada pelos médicos a parar de tomar drinques diários. Ela usa até um túnel que liga o Palácio de Saint James ao Duke’s Bar

Crédito: Jason Reed

POLÊMICA Segundo médicos, a rainha estaria bebendo acima do recomendado (Crédito: Jason Reed)

ESCAPADA O Duke`s Bar, ao lado do Palácio de Saint James: visitas reais (Crédito:Giuseppe Masci )

Preocupados em preservar a longevidade da rainha Elizabeth II, que deve comemorar em 2022 o Jubileu de Platina, os médicos pediram à monarca britânica que corte o seu Dry Martini diário. Não se sabe se a rainha seguirá o conselho, mas o temperamento de Elizabeth II indica que não. A rainha, de 95 anos, bebe um copo de vinho branco no jantar e entre três e quatro doses diárias de Dry Martini. A recomendação médica gerou polêmica no Reino Unido, com muita gente manifestando a opinião de que a rainha deveria beber quanto quisesse. A polêmica é saborosa porque a rainha nonagenária é conhecida pela jovialidade. Na semana passada, ela recusou um prêmio de uma revista voltada para o público idoso, ao dizer que se sente jovem. No dia 20, obedeceu contrariada ao conselho dos médicos para cancelar uma visita oficial à Irlanda do Norte e ficou descansando no palácio de Buckingham. Os contratempos acontecem às vésperas da comemoração dos 70 anos de reinado no próximo ano, que envolverá uma série de compromissos para Elizabeth II e outros membros da monarquia mais antiga da Europa.

Além do Dry Martini, Elizabeth II gosta de beber gim com Dubonnet, um aperitivo francês. Médicos em Londres disseram que a rainha não bebe apenas um Dry Martini por dia, mas “três ou quatro”. A rainha aprendeu a misturar gim com Dubonnet com sua mãe, a “Rainha-mãe” Elizabeth Bowes-Lyon, que morreu em 2002 aos 101 anos de idade. “A mãe da rainha começava o seu dia com uma dose de Dubonnet com gim antes do almoço. Na refeição, bebia vinho. No final da tarde, tomava uma dose de Martini. Após o jantar, bebia um copo de champagne, e seu ritual nunca mudou”, disse Margareth Rhodes, sobrinha e dama de companhia de Elizabeth Bowes-Lyon, ao historiador inglês Adrian Tinniswood. A mistura de gim com Dubonnet era composta de 70% do destilado inglês com 30% da bebida francesa. Isto porque o gim possui entre 37% e 50% de teor alcoólico, enquanto o fermentado francês, feito a partir do vinho, tem 14,8%.

Tinniswood escreveu um livro sobre os hábitos domésticos da realeza britânica: “Atrás do Trono: uma História Doméstica da Monarquia”. Seu livro cobre cinco séculos da história familiar. Beber é um hábito antigo na Família Real britânica. O rei James I morreu aos 58 anos, em 1625, possivelmente devido ao consumo excessivo de álcool. “A polêmica começou porque a quantidade de bebida que a rainha consome por dia é superior à recomendada pelo governo britânico para os cidadãos”, comenta Victor Missiato, professor de história no Colégio Mackenzie em Brasília. Ele nota que o gim da rainha, contudo, é de alta qualidade e artesanal – diferente da bebida industrializada geralmente vendida nos bares e varejo.

Indiscrições

Revelações indiscretas foram feitas aos tabloides britânicos. A principal foi a de Jack Brooksbank, marido da princesa Eugenie, neta da monarca. Brooksbank revelou ao jornal “Daily Mail” que existe um túnel entre o Palácio de Saint James e o Duke’s Bar, um dos mais tradicionais de Londres. A rainha usaria o túnel para ir ao Duke’s e beber seus Dry Martinis. O bar fica praticamente ao lado do Palácio de Saint James, o mais antigo da capital inglesa, construído por Henrique VIII em 1530 e ainda em uso pela Família Real. Brooksbank é atacadista de bebidas.

A atual dinastia, os Windsor, é conhecida não só por beber, mas por produzir a própria bebida. A Família Real possui propriedades na Irlanda do Norte, onde é produzido o gim Hillsborough. Já Elizabeth II lançou em 2020 o seu gim, o Sandringham, feito com 14 plantas diferentes colhidas nos jardins do seu palácio de inverno. Sandringham fica no Leste da Inglaterra e a rainha herdou a propriedade do seu pai, o rei Jorge VI. O curioso é que existe todo um marketing que ressalta o fato de o gim ser produzido nas propriedades da monarca – a renda obtida com a produção e venda não é informada, mas uma garrafa de Sandringham custa 60 libras (R$ 460). A monarca também lançou a cerveja Sandringham. Um gim real mais “popular” é o Buckingham Palace, feito com ervas do jardim do maior palácio londrino. Cada garrafa custa 40 libras. Até o príncipe Charles possui a sua marca de gim, a Highgrove. “O príncipe Charles produz o gim com zimbro, frutas cítricas e ervas da sua propriedade em Gloucester. O dinheiro vai para um fundo de caridade do Príncipe de Gales”, diz Missiato.

“Se ela bebe três ou quatro doses por dia e isso não afeta a vida dela, tudo bem. Sempre depende do metabolismo da pessoa, cada caso é um caso e não se pode generalizar”, diz o doutor José Mauro Braz de Lima, médico e professor de UFRJ. Coordenador do Programa de Álcool e Drogas da UFRJ, ele comenta que é preciso trazer o bom senso para a discussão. Ele lembra que o problema do consumo do álcool, como de qualquer substância psicoativa, é o abuso. “Todo uso excessivo é de risco. Mas não acredito que seja o caso da rainha, que aos 95 anos tem uma vida ativa e cumpre os seus compromissos”, observa.