Decisão da Justiça suspende viagens de moto de 99 e Uber em São Paulo

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99 retoma a modalidade moto e protagoniza um embate com a Prefeitura de São Paulo Foto: Divulgação

Uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que 99 Uber deixem de oferecer os serviços de viagens de moto por aplicativo na capital paulista, em concordância com um decreto da prefeitura que já impedia essa atividade no município.

O despacho de Eduardo Gouveia, juiz da 7 ° Câmara do Direito Público da corte estabeleceu, no entanto, que as empresas de transporte por aplicativo não ficarão sujeitas a multas pelo crime de desobediência, como havia sugerido o prefeito Ricardo Nunes (MDB).

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O que dizem as empresas

Em notas enviadas ao site IstoÉ, a 99 afirmou ter interrompido o serviço, mas prometeu recorrer da decisão, “amparada pelo entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal) e de mais de 20 decisões judiciais em todo o Brasil que confirmam que as prefeituras não podem proibir a atividade”. A Uber também acatou, mas ressaltou que a decisão é liminar — portanto, provisória — e também prometeu recorrer.

Entenda o conflito

Ainda no primeiro mês de seu segundo mandato, o prefeito se viu no centro de um imbróglio judicial e político provocado pelo desacato de empresas de transporte por aplicativo à proibição de mototáxis na cidade.

Em 14 de janeiro, a 99 decidiu retomar a oferta de mototáxis na capital paulista à revelia da proibição do serviço, imposta pela prefeitura em um decreto de 2023.

Como reação, a prefeitura promoveu blitzes para apreender motocicletas e aplicar multas e, em seguida, uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo sustentou a suspensão. Mesmo assim, as concorrentes 99 e Uber se uniram para manter um “serviço pirata” em boa parte da cidade.

A insistência refletiu o peso econômico do serviço para o setor. Bruno Rossini, diretor de Comunicação da 99, disse ao site IstoÉ Dinheiro que o 99Moto tem realizado 30 mil corridas diárias desde que retomou a operação. Para a companhia, a legislação federal só dá poder à prefeitura para fiscalizar e regulamentar o serviço, e não proibi-lo.

Mas Nunes não recuou. Citou os índices de mortalidade elevados pelo serviço, defendeu a autonomia da administração para decidir sobre a prática, pediu à Polícia Civil a abertura de um inquérito para investigar as empresas e prometeu novas multas.

Ao site IstoÉ, a gestão informou que, entre 2023 e 2024, o número de mortes de motociclistas passou de 403 para 483, e o de internações por acidentes com o veículo, de 3.432 para 3.744.

Disputa na Câmara

O impasse caminhou para a arena política. Vereadores de partidos que integram a base de Nunes, Kenji Palumbo (Podemos) e Lucas Pavanato (PL) se articularam para derrubar o decreto que impede a operação de mototáxis e legalizar o serviço.

Kenji apresentou um Projeto de Decreto Legislativo para suspender o ato normativo da administração. Para que tramite no plenário, o PDL depende de 37 assinaturas. A aprovação, por sua vez, depende de dois terços da Câmara.

Já Pavanato protocolou o Projeto de Lei 17/2025, que visa regulamentar o serviço de transporte remunerado privado individual de passageiros em motocicletas. O vereador acredita que o texto deve ser usado para o debate do tema no Legislativo paulistano. A proposta depende de maioria simples para ser aprovada no plenário.

Ao site IstoÉ, Kenji disse que, além dos motociclistas, a população é afetada pela falta do serviço e que não está contra a prefeitura, mas “em favor da população”.

Pavanato criticou em especial a apreensão das motos a aplicação de multa de R$ 7.100,67 aos motociclistas que prestavam o serviço. “[O valor da multa] quebra qualquer pessoa humilde que esteja trabalhando com isso. O papel da prefeitura não é de perseguir o trabalhador, mas ajudá-lo e punir quem é criminoso“, disse ao site IstoÉ.

Embora integre o PL, partido do vice-prefeito Ricardo Mello Araújo, e tenha apoiado Nunes no segundo turno das eleições de 2024, vale lembrar que o vereador se elegeu com uma plataforma radical e, após o primeiro turno do pleito, chegou a boicotar uma reunião que o emedebista marcou com parlamentares eleitos.

Nesta discussão, as divergências se impuseram e Pavanato afirmou que a base de Nunes está “revoltada”. “A direta tende a ficar a favor do meu projeto, até por uma questão ideológica. Já a esquerda está em uma sinuca de bico, porque eles têm o discurso de defesa do trabalhador, mas trabalham para inviabilizar os aplicativos e as novas tecnologias da cidade”, afirmou.

Já a vereadora Amanda Paschoal (PSOL) disse que o plenário está ansioso para debater o tema. “O presidente Ricardo Teixeira [União Brasil] indicou que o tema dos mototáxis será prioridade no início dos trabalhos. O clima perceptível é de que precisamos começar a escuta de todos os atores envolvidos”, finalizou.

No Edifício Matarazzo, um secretário minimizou ao site IstoÉ a reação de parlamentares contra a inflexibilidade do prefeito no caso e disse se tratar de uma ação de “apenas um” vereador.

Na base governista, o movimento para respaldar Nunes foi puxado pelo vereador Marcelo Messias (MDB), que apresentou na quinta-feira, 23, um projeto de lei para consolidar a proibição ao mototáxi na cidade até que os índices de mortalidade no trânsito atinjam, no máximo, 4,5 por 100 mil habitantes.

Não há desconforto entre a base. O que falta é discussão sobre esse serviço, para definir regras e impedir que mortes aconteçam. Até que seja construído, entre os vereadores, o Executivo, as associações e os motoboys, um diálogo amplo e que forneça um entendimento amplo sobre a cidade de São Paulo e os riscos, é mais seguro que haja uma proibição”, disse Messias ao site IstoÉ

Major Marcos Palumbo (PP) foi na mesma direção e endossou a argumentação governista. “Esse transporte gera insegurança, dadas as dimensões e dificuldades do trânsito de São Paulo. Sem uma discussão sobre as áreas delimitadas, uso de equipamentos e a obrigatoriedade de um seguro para que as plataformas arquem com os custos de acidentes, o município vai arcar com todos o ônus“, disse ao site IstoÉ.