Cultura

Decifrando Susan Sontag

O biógrafo Benjamin Moser revela como uma estudante de literatura se tornou a rainha da crítica americana e a intelectual mais influente do seu tempo — e por que ela ocultou o lesbianismo quando a aids se espalhou

Crédito: Juan Esteves

BRIGUENTA A crítica e romancista Susan Sontag, em São Paulo, em junho de 1993: cultivo da polêmica, do engajamento e do sexo como performance artística (Crédito: Juan Esteves)

Esta é a fábula de uma jovem acadêmica que se transformou em uma das celebridades mais ricas de Nova York. Também se trata da história da mulher que, em vez de se deixar vulgarizar pela mídia, jamais abdicou do rigor de pensamento, foi consagrada como a intelectual pública mais influente de seu tempo e — dona de uma personalidade contraditória — ocultou erros e dilemas éticos e morais.

As faces múltiplas da crítica, romancista e ativista americana Susan Sontag (1933-2004) são dissecadas pelo conterrâneo Benjamin Moser, no livro “Sontag — Vida e obra”, lançamento da Companhia das Letras. Moser, de 43 anos, apresenta uma obra monumental, tanto em volume (possui 700 páginas) como em agudez de análise e liberdade para decifrar criticamente os tropeços da personagem, em vez de exaltá-la, cacoete de muitos biógrafos. Também traça um quadro de mutações da vida intelectual entre as décadas de 1950 e 2000.

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A obra resulta de sete anos de pesquisas nos diários, cartas e até no laptop de Sontag, bem como de entrevistas com dezenas de pessoas que conviveram com ela. “Foi um privilégio”, afirma Moser à ISTOÉ, por telefone, de Amsterdã, onde mora com o marido. “O convite para fazer a biografia partiu do editor e do filho de Sontag, David Rieff. Obviamente, aceitei a tarefa.” Rieff tinha gostado do livro “Clarice, uma biografia” (2009), de Moser, sobre a Clarice Lispector. O título lançou a moda da escritora brasileira entre os leitores de língua inglesa, fato que só fez crescer quando Moser passou a traduzir sua ficção.

O biógrafo compara as duas biografadas: “Clarice levou um cotidiano reservado e devotado à escrita, ao passo que Susan viveu para o mundo. Foi intensa, engraçada, briguenta e malvada”.

Nascida em Nova York, Sontag cresceu em Los Angeles e se formou em Letras na Universidade de Chicago. Ali se casou com o professor Philip Rieff, de quem virou ghost writer. Separou-se, morou em Paris no fim dos anos 1950, onde fez amizade com Jean-Paul Sartre e Roland Barthes. Em 1964, seduziu Nova York, primeiro como professora na Universidade Columbia e depois como jornalista e agitadora cultural. Frequentava os grandes eventos. Suas atividades lhe renderam convites para visitar o Vietnã e Cuba, nos anos 1960, e Sarajevo, nos 90, com todas as despesas pagas. Produziu relatos panfletários sobre as cidades conflagradas e escreveu tratados brilhantes sobre fotografia, literatura, câncer e aids, além de romances medíocres.

“Ela foi a intelectual mais rigorosa e indispensável dos Estados Unidos durante meio século”, diz Moser. “Pena que não assumiu o lesbianismo. A omisão afastou-a da linha de frente do engajamento dos anos 1980, marcado pela aids.” Recolhida, encarava o sexo com obra de arte. E assim teve casos com dezenas de colegas e figuras boêmias, para enfim se unir à fotógrafa Annie Leibovitz, que a introduziu na alta sociedade e a sustentou com luxo até a morte, de câncer, doença que analisou à luz das visões cambiantes ao longo da história.

Sontag não acompanhou as alterações da cultura na virada do século. “A sociedade mudou, até mesmo para ela”, afirma Moser. Seu legado foi ter valorizado a arte, as viagens e as amizades: “São atitudes que estão sendo esquecidas por causa do isolamento imposto pela tecnologia”.

A missão de Sontag foi ter fornecido respostas lúcidas para todas as dúvidas sobre um mundo sempre sacudido por mudanças profundas. Infelizmente, deixou vaga a função de guia. “Hoje somos órfãos dela”, diz Moser.