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Debate sobre reparação a descendentes de escravos ressurge nos EUA

Debate sobre reparação a descendentes de escravos ressurge nos EUA

A senadora Elizabeth Warren, pré-candidata democrata para a eleição presidencial de 2020, apoia a concessão de indenizações aos descendentes de escravos - GETTY IMAGES/AFP/Arquivos

Em janeiro de 1865, quando a Guerra Civil dos Estados Unidos estava chegando ao fim, foi prometido a alguns escravos libertos “40 acres e uma mula” para começar uma nova vida.

O audacioso experimento foi fugaz, rejeitado em alguns meses pelo presidente Andrew Johnson, sucessor do assassinado Abraham Lincoln, e a terra voltou para as mãos de seus antigos donos.

Mais de 150 anos depois, a questão de se os Estados Unidos deveriam proporcionar uma compensação aos afro-americanos por erros passados ainda está sobre a mesa.

As indenizações por séculos de escravidão e discriminação racial se transformaram em um tema de acalorado debate entre a grande quantidade de pré-candidatos das primárias democratas para as eleições presidenciais de 2020.

O ativista de direitos civis Jesse Jackson colocou o polêmico tema, que nunca antes havia figurado de maneira tão proeminente em uma corrida presidencial, durante sua fracassada candidatura à Casa Branca em 1988.

Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, e a candidata democrata de 2016, Hillary Clinton, não apoiaram a compensação para os descendentes de escravos.

Entre os pré-candidatos democratas para 2020, a senadora Elizabeth Warren e Julian Castro, ex-prefeito de San Antonio, mostraram-se fortemente a favor das reparações.

“Os Estados Unidos se fundaram sobre o princípio de liberdade e sobre as costas do trabalho escravo”, disse Warren, senadora por Massachusetts, em evento recente da CNN em Jackson, no Mississippi.

“Acredito que é hora de começar um debate nacional de pleno direito sobre as reparações neste país”, defendeu.

Julián Castro, que busca se tornar o primeiro presidente americano de origem hispânica, disse que apoia as reparações e reconheceu que há uma “grande quantidade de desacordos” sobre o que deveriam ser.

“Se, de acordo com a Constituição, indenizamos as pessoas porque tomamos suas propriedades, por que não indenizaria as pessoas que eram propriedade de outra?”, questionou.

– ‘Injustiça, crueldade, brutalidade’ –

Warren deu seu apoio a um projeto de lei na Câmara de Representantes, que nomearia uma comissão para examinar o tema.

O projeto de lei H.R. 40 propõe a formação de um painel “para abordar a injustiça fundamental: a crueldade, a brutalidade e a desumanidade da escravidão nos Estados Unidos e nas 13 colônias americanas entre 1619 e 1865”.

A comissão “consideraria uma desculpa nacional e uma proposta de reparação para a instituição da escravidão”.

A H.R. 40, assim chamada pelo prometido compromisso de “40 acres e uma mula”, foi apresentada pela primeira vez na Câmara há três décadas e voltou a ser apresentada todos os anos desde então, mas nunca chegou a ir à votação.

Os senadores Kamala Harris e Cory Booker, os dois pré-candidatos negros na disputa pela indicação democrata, também manifestaram seu apoio às indenizações. Já o ex-congressista pelo Texas Beto O’Rourke disse que deve haver uma “discussão” sobre o tema.

Marianne Williamson é a única pré-candidata democrata que defende indenizações diretas aos afro-americanos. Ela propôs criar um fundo de entre 200 bilhões e 500 bilhões de dólares, valores que os especialistas no tema consideram muito baixo. O mais razoável – alegam – seriam falar em trilhões de dólares.

Outros dois pré-candidatos democratas, o senador por Vermont Bernie Sanders e a senadora por Minnesota Amy Klobuchar, apoiaram abordar a desigualdade racial como parte de planos mais amplos para reduzir a desigualdade de renda.

“Acredito que, neste momento, nosso trabalho seja abordar as crises que os americanos enfrentam em nossas comunidades”, disse Sanders em “The View”, da ABC. “E acho que há melhores maneiras de fazer isso do que simplesmente com um cheque”, completou.

Já Klobuchar afirmou, no programa “Meet the Press” da NBC, que é necessário “investir naquelas comunidades que foram afetadas pelo racismo”, mas que isso não deve se traduzir em um pagamento direto a cada indivíduo.

O eleitorado negro é chave para os democratas. Acredita-se que, de seu apoio, possa depender o destino de quem disputará a Presidência com Donald Trump nas eleições de novembro de 2020.

Pelo menos 52% dos afro-americanos consultados em uma pesquisa da CNN-Kaiser de 2015 apoiaram os pagamentos aos descendentes de escravos. Já 89% dos americanos brancos entrevistados se opuseram à ideia.

No artigo “The Case For Reparations”, de 2014, publicado na revista “The Atlantic”, Ta-Nehisi Coates disse que a ideia é “aterradora” para muitos americanos “não apenas pela falta de capacidade de pagamento”.

“A ideia das indenizações ameaça algo muito mais profundo: o legado, a história e a reputação dos Estados Unidos no mundo”, disse Coates.

“Um país que se pergunte o que deve a seus cidadãos mais vulneráveis é melhor e mais humano”, escreveu.

No passado, os Estados Unidos já indenizaram algumas comunidades, como os japoneses radicados no país que foram internados em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.