Debate sobre remoção de estátuas chega à Itália

MILÃO, 12 JUN (ANSA) – A discussão sobre a remoção de estátuas de personalidades com histórico de racismo e colonialismo, já acalorada em países como Bélgica, Estados Unidos e Reino Unido, chegou à Itália.   

Um grupo contra a discriminação racial, sexual e de gênero chamado “Sentinelli di Milano” (“Sentinelas de Milão”) pediu ao prefeito da cidade, Giuseppe Sala, e à Câmara Municipal a remoção de uma estátua em homenagem ao jornalista Indro Montanelli (1909-2001), situada em um parque homônimo.   

O coletivo também propõe que a área seja dedicada a “qualquer pessoa mais digna de representar a história e a memória de nossa cidade”. Segundo os Sentinelli, Montanelli “reivindicou com orgulho até o fim da vida o fato de ter comprado e se casado com uma menina eritreia de 12 anos para que ela fosse sua escrava sexual”.   

“Acreditamos que é hora de dizer basta a essa ofensa à cidade e a seus valores democráticos e antirracistas”, diz o grupo.   

Considerado um dos maiores jornalistas italianos do século 20, Montanelli teve uma longa carreira no Corriere della Sera, jornal de maior circulação no país, e também fundou o diário conservador Il Giornale.   

Em entrevista à emissora Rai em 1969, Montanelli admitiu que havia comprado uma garota eritreia de 12 anos no Chifre da África. O episódio ocorreu na década de 1930, quando o regime fascista de Benito Mussolini tentava estabelecer um império com a conquista da Etiópia.   

“Era uma belíssima garota de 12 anos. Desculpem-me, mas na África é outra coisa. E me casei regularmente com ela, no sentido de que a havia comprado do pai”, contou. Questionado na sequência pela jornalista Elvira Banotti, Montanelli acrescentou que “as meninas da Abissínia [nome do antigo Império Etíope] se casavam com 12 anos”, mas reconheceu que, se fosse na Europa, isso seria considerado uma violência.   

Reações – A proposta de remover a estátua de Montanelli foi rechaçada por integrantes de diversos grupos políticos na Itália, da esquerda à direita. Um dos primeiros a se posicionar foi o senador e ex-ministro do Interior Matteo Salvini, líder da ultranacionalista Liga.   

“Tirem as mãos do grande Indro Montanelli! Que vergonha da esquerda, viva a liberdade”, escreveu Salvini no Twitter. Já o diretório da Liga em Milão apresentou uma moção na Câmara Municipal para batizar uma praça com o nome do jornalista.   

O prefeito Sala, de centro-esquerda, disse nesta sexta (12) que também “não é favorável à remoção da estátua”. “Acho que todos erram na vida, e Montanelli errou, mas Milão reconhece suas qualidades, que são indiscutíveis”, acrescentou.   

O presidente da Fundação Montanelli, Alberto Malvolti, também se pronunciou e disse que cogitar a remoção do monumento é “uma ofensa à memória do mais popular e apreciado jornalista italiano do século 20”. Segundo Malvolti, o casamento com a garota eritreia “nunca foi escondido” e deve ser “julgado no contexto histórico em que ocorreu”.   

A jovem eritreia, chamada Destà, permaneceu na África após o retorno de Montanelli à Itália e, segundo o próprio jornalista, se casou com um militar eritreu que ele havia comandado na guerra colonial, batizando seu primeiro filho de Indro.   

Nos últimos dias, protestos antirracismo provocaram a remoção ou derrubada de estátuas do rei belga Leopoldo II, patrocinador de atrocidades na atual República Democrática do Congo, sua antiga propriedade particular, do escravocrata britânico Edward Colston e do navegador italiano Cristóvão Colombo, símbolo da violenta colonização europeia nas Américas. (ANSA)