Washington vem reativando discretamente pistas históricas em ilhas do Oceano Pacífico, incluindo a usada pelo bombardeiro que lançou bomba atômica sobre Hiroshima.Pistas de pouso construídas em ilhas remotas do Pacífico para atacar o Japão nos estágios finais da Segunda Guerra Mundial estão sendo discretamente restauradas pelos EUA, enquanto o país reforça sua postura defensiva diante do avanço da influência chinesa na região.
Poucos detalhes foram divulgados sobre os trabalhos em andamento nas antigas bases de Tinian, nas Ilhas Marianas do Norte, e Peleliu, no arquipélago de Palau. Analistas acreditam que o objetivo é oferecer à Força Aérea dos EUA alternativas a bases primárias como Andersen (no norte de Guam) e Kadena (em Okinawa, Japão).
Desde 2023, engenheiros americanos vêm reconstruindo as quatro pistas de 2.400 metros em Tinian – de onde o bombardeiro B‑29 Enola Gay decolou para lançar a bomba atômica sobre Hiroshima em 6 de agosto de 1945. Três dias depois, outro B‑29 partiu do mesmo local para atacar Nagasaki.
A base, que já foi a mais movimentada do mundo, foi abandonada em 1947 e tomada pela vegetação até 2003, quando uma pista foi reaberta para exercícios. A recuperação mais ampla começou em 2023.
Já em Peleliu, engenheiros também trabalham na reativação da pista de 1.800 metros construída ainda durante a Guerra do Pacífico, parte da Segunda Guerra. A ilha foi palco de uma das batalhas mais intensas daquele período. Nas décadas que se seguiram o local foi usado como aeroporto para aeronaves leves, até que unidades americanas iniciaram uma limpeza em 2024. Em junho daquele ano, um KC‑130 tornou‑se o primeiro avião de grande porte a pousar ali desde a guerra.
A busca por resiliência
Segundo Garren Mulloy, especialista em assuntos militares da universidade japonesa Daito Bunka, os EUA passaram a reavaliar suas bases após perceberem o quão vulneráveis elas são a ataques de longo alcance. Ele afirma que a escalada chinesa no Indo‑Pacífico surpreendeu Washington, que antes acreditava que ninguém ousaria desafiá‑la na região.
Navios chineses testam com frequência as reivindicações marítimas da Coreia do Sul e do Japão no Pacífico Norte. Mais ao sul, Pequim realiza exercícios militares de grande escala ao redor de Taiwan, projetando sua ameaça de "reunificar" a nação insular com a China continental. O governo chinês também reivindica a maior parte do Mar do Sul da China como território próprio, apesar de um tribunal internacional ter rejeitado essas alegações em 2016.
Segundo Dan Pinkston, professor de relações internacionais na Troy University, em Seul, e ex‑oficial da Força Aérea dos EUA, a expansão chinesa é a principal preocupação regional. Pequim busca romper as chamadas primeira e segunda "cadeias de ilhas" para obter acesso irrestrito ao Pacífico. Para ele, a reativação de antigos aeródromos pelos EUA é uma preparação para possíveis escaladas.
Infraestrutura ampliada
Um relatório do Congresso americano mostra que, entre 2020 e 2023, Washington ampliou a fatia de recursos destinada à infraestrutura militar no Indo‑Pacífico em comparação com suas demais bases ao redor do mundo. Em 2020, os EUA investiram 1,8 milhão de dólares na região — o equivalente a 22% do total que aplicou para esse fim globalmente. Em 2023, o montante praticamente dobrou, alcançando 3,5 milhões de dólares e representando 29% do total. No período, 58 milhões de dólares foram destinados ao desenvolvimento do aeródromo em Tinian, mas os investimentos maiores foram feitos em Pearl Harbor e a base naval de Guam.
As bases renovadas precisam de pistas reforçadas, áreas de taxiamento e plataformas endurecidas para evitar que aeronaves afundem no solo úmido das ilhas tropicais. Também são necessárias fontes de energia, água, tanques subterrâneos de combustível e abrigos protegidos para aeronaves e armamentos.
Estruturas para radares e sistemas defensivos também estão previstas. Em 2024, militares americanos informaram que avaliavam locais adequados para operar baterias antimísseis Patriot. Embora esses sistemas ainda não estejam instalados, o terreno está sendo preparado para recebê‑los.
Mulloy lembra que a China é a principal ameaça, mas que a Coreia do Norte também deve ser considerada. Em 2017, Pyongyang anunciou um plano para lançar mísseis balísticos Hwasong‑12 – com alcance estimado de 4.500 km – "ao redor” do território insular de Guam, colocando a base de Andersen, dentro do raio de ataque.
Se um conflito maior eclodisse na Península Coreana ou no Estreito de Taiwan, Andersen, no norte de Guam, seria um alvo óbvio. Por isso, ter uma rede de instalações alternativas espalhadas pelo Pacífico é visto como estratégia essencial. Em caso de emergência, essas bases também permitiriam aos EUA deslocar rapidamente tropas e equipamentos para a região.