POLÍTICA

De direita ou de esquerda?

Seu cérebro decide e você nem sabe. Estudos científicos revelam que características cerebrais têm mais influência na escolha de posições políticas e morais do que se pensava

Crédito: Divulgação

Direita, esquerda. Conservador, liberal. As classificações do posicionamento político e moral das pessoas estão mais atuais do que nunca por conta da onda de radicalização que tomou conta do mundo. Muito já foi estudado sobre os fundamentos psicológicos, ambientais e históricos que levam à percepção das pessoas de pertencer a um grupo ou a outro. Agora, é a vez de a neurociência acrescentar seu conhecimento. A área investiga como o cérebro funciona e as repercussões disto para o organismo e o comportamento. A conclusão é a de que o órgão tem muito mais impacto do que imaginávamos na maneira como adotamos nossos posicionamentos. De acordo com as últimas pesquisas, quando um indivíduo demonstra uma postura liberal ou conservadora diante de questões sociais ou quando vota neste ou naquele candidato, está sendo muito mais influenciado pelas conexões neurais do que tem ideia.

Medo e razão

As descobertas são fascinantes. A neurociência se desenvolveu muito a partir da disponibilidade dos exames de ressonância magnética funcionais, capazes de captar as regiões cerebrais em ativação exatamente no momento em que as pessoas são estimuladas a pensar em algo ou a visualizar determinado objeto, por exemplo. É com o auxílio destes aparelhos que estão sendo levantadas as principais informações sobre o tema. O que os testes mostram é que o que ocorre no cérebro corresponde exatamente ao perfil político de cada um. “Conservadores tendem a apresentar um estilo mais preto no branco na hora de criar e interpretar categorias”, afirma o neurocientista Álvaro Machado Dias, professor da Universidade Federal de São Paulo. “Já os liberais e pessoas de esquerda costumam usar e interpretar categorias de maneira mais difusa. Esta diferença psicológica relaciona-se a padrões distintos de conectividade cerebral.”

Os estudos deixam isto claro. Nos conservadores, a amigdala, por exemplo, é maior. Trata-se de uma estrutura que integra o chamado cérebro primitivo, a primeira região a se desenvolver, quando o homem tinha de criar mecanismos que o ajudasse a sobreviver. É nela em que são processados os instintos e sensações como o medo. Portanto, é compreensível que estes indivíduos apresentem margem menor para lidar com adversidades e tendam a enxergar os cenários mais assustadores do que realmente são. Em consequência, adotam diante da vida uma postura cautelosa, demonstrada na hora em que optam pela manutenção do status quo. Escolhem o candidato a um cargo eletivo que mais se aproxima disto e dificilmente apóiam avanços em questões morais historicamente polêmicas, como o aborto. Preferem o seguro e o previsível.

As pessoas de esquerda, ao contrário, manifestam ativação maior no córtex cingulado anterior, área do circuito neuronal responsável pela tomada de decisões e moderação do comportamento social por meio de uma análise racional do contexto. “Eles têm facilidade para lidar com situações conflituosas e conseguem enxergar as nuances das questões”, explicou Ryota Kanai, da University College of London, líder de uma pesquisa sobre o tema publicada na revista científica Current Biology. A característica biológica ajuda a fazer com que pensem em outras soluções diferentes. “Liberais e conservadores passam por diferentes processos cognitivos até tomaram suas posições”, afirmou à ISTOÉ o inglês Darren Schreiber, da University of Exeter, na Inglaterra, autor de um estudo mostrando que as diferenças nos cérebros são fortes o bastante para apontar a ideologia de alguém. “Demonstramos isto com 83% de acurácia. Pesquisas posteriores chegaram a 95% de acerto.”

“As diferenças são fortes o bastante para apontarmos a ideologia de cada um” Darren Schreiber, Universidade  de Exeter, Inglaterra

Ao mesmo tempo em que é determinante, o funcionamento cerebral pode ser modificado de forma que o posicionamento mude também. Há um trabalho clássico da Yale University (EUA) demonstrando isto. Os cientistas praticamente transformaram um conservador em um liberal. Para isto, bastou induzir os participantes a imaginarem um contexto no qual estariam totalmente protegidos de danos físicos ou psicológicos. Seguros, tornaram-se mais maleáveis e empáticos em relação a assuntos como imigração e direitos dos homossexuais, assemelhando-se às pessoas de esquerda. Dados assim reafirmam que o ser humano é muito mais complexo do que se pensa. Por isto mesmo, é preciso compreender o modo de pensar e agir de cada um levando-se em consideração esta complexidade. Nada é preto e branco. Só assim teremos uma sociedade melhor informada e mais apta à convivência entre os diferentes.

>>> O FATOR BIOLÓGICO – O que a ciência já descobriu sobre a relação entre o cérebro e a política