Eu estava acostumado a assistir apenas em documentários ao desespero de pessoas na Europa tentando embarcar em estações de trens superlotadas para se livrar da expansão do nazismo capitaneado pelo genocida Adolf Hitler. Minha alma doía e ainda dói, em uma espécie de dor histórica, dor retroativa, e eu sempre “falava só com os meus botões” (como costumava dizer meu avô italiano que lutou na resistência contra a tirania do fascismo): esse horror aconteceu com a humanidade, mas nunca mais vai acontecer.

Estudando e reestudando o sociólogo e filósofo alemão Theodor Adorno, sempre reflito sobre uma de suas indagações que me inquietam a mente: tendo já a espécie humana experimentado fazer o seu semelhante sofrer e morrer em campos de extermínio como o de Auschwitz, como será possível evitar novos Auschwitz? Igualmente inquietante, para mim, é o paradoxo formulado pelo filósofo austro-britânico Karl Popper: como defender radicalmente a tolerância, pois, se formos tolerantes com os intolerantes, eles destruirão a nós, os tolerantes? Na literatura isso se chama “Paradoxo de Popper”. Coloca-se em relação à maldição dos regimes totalitários, sejam de extrema direita ou de estrema esquerda.

De volta às estações de trens, até o romântico Casablanca passou a me deixar aflito porque nele há a cena em que Humphrey Bogart espera em vão por Ingrid Bergman e acaba partindo sozinho em um trem lotado de refugiados quando os nazistas ocuparam a França. Identifico nesse incômodo com o filme o mesmo sentimento acima descrito: uma dor histórica — à época da Segunda Guerra eu era ainda poeira cósmica. Poderia acrescentar diversas reflexões sobre o tema, mas o importante é dizer que aquilo que era por mim considerado dor retroativa tratava-se, na verdade, de medo do futuro, medo de vir a ser contemporâneo de estações superlotadas de gente tentando emigrar para se livrar da morte.

O meu medo me virou realidade. Geograficamente distante, mas vizinho na empatia, sou contemporâneo dos trens e das estações descritas acima, estações com mulheres multiplicadas em mil braços para carregar mil pesadas sacolas, multiplicadas em um milhão de colos para carregar um milhão de filhos, homens tentando ajudá-las enquanto cuidam de abarrotadas bagagens nos ombros. É tanta gente espremida que parece um só corpo, passo por passo, o passo do desesperado da frente é o passo do desesperado que está logo atrás, fisionomias de quem atravessou noites sem se refazer em abrigos subterrâneos ao som de bombas. Vi uma senhora em uma estação tirando um pedaço do pequeno miolo de pão que estava nas mãos de seu filho para dar ao filho de outra mulher…

Vladimir Putin, eu te odeio! Eu te amo povo da Ucrânia!