Esportes

De Bagdá ao 6º Grand Slam: Bruno Soares lembra infância e projeta aposentadoria

Quatro dias após levantar o seu sexto troféu de Grand Slam, Bruno Soares continua sorrindo. Nem mesmo a longa viagem entre Nova York e Roma e o isolamento obrigatório no quarto de hotel, à espera do novo teste de covid-19, afetam o bom humor de um dos atletas mais bem-sucedidos do Brasil. Em entrevista ao Estadão, ele recordou a sua infância em Bagdá, projetou a sua aposentadoria e pós-carreira e, claro, continuou a celebrar seu novo feito e sua vitoriosa carreira.

Não por acaso. O mineiro de 38 anos é o segundo tenista com mais títulos de Grand Slam no País. Está atrás apenas da lenda Maria Esther Bueno, estrela das décadas de 50 e 60, com incríveis 19 conquistas. O sexto troféu de Soares veio na quinta-feira, na final de duplas do US Open, ao lado do croata Mate Pavic.

“A sensação é surreal até hoje. Ganhar um Grand Slam ainda é uma sensação fora de tudo, difícil de descrever”, contou Soares à reportagem, no sábado, por transmissão de vídeo da capital italiana, onde vai competir nesta semana. “Até hoje é a mesma coisa. É o filminho que passa na sua cabeça, é o torneio com o que você sonha em ganhar quando tinha 10, 11 anos. Estou com 38 e continua sendo uma sensação indescritível”.

Em Nova York, o brasileiro viveu experiência diferente. Celebrou um grande título na vazia quadra Arthur Ashe, uma das maiores do mundo. “Foi muito estranho no início. Era aquele negócio meio morto, aquele silêncio. Você faz um baita ponto e escuta apenas as palmas do treinador”, disse o duplista. “Era para ter 3 mil pessoas, mas tem apenas 10”.

Habituado a brilhar nas principais quadras do mundo, Soares se tornou figura incomum no esporte brasileiro em termos de consistência. Atuando em alto nível há 13 anos, costuma estar entre os favoritos em todos os torneios e já soma 33 títulos – para efeito de comparação, Gustavo Kuerten faturou 20, sendo três de Grand Slam.

Representar bem o Brasil “lá fora” nunca foi um peso para o duplista. “Sempre consegui levar essa pressão para o lado positivo. Claro que sempre tem cobrança. Mas, penso: ‘cara, beleza, você é a esperança de resultado da turma, que está te cobrando e, se a turma te cobra, é porque acredita no seu potencial’”, explicou Soares, com seu conhecido jeito informal. “Ajuda também o fato de eu ser um cara de fácil acesso, tenho bom relacionamento com todos. Acaba transformando tudo em energia positiva”.

Com seu novo bigode e os cabelos despenteados, Soares fala com leveza de sua carreira. E indica que a trajetória nas quadras está chegando perto do fim. Durante os cinco meses de paralisação do circuito, em razão da pandemia do novo coronavírus, o tenista pôde vislumbrar como seria sua futura vida de aposentado. Com muito descanso, certo? “Tive a oportunidade de passar mais tempo com os meus filhos, mas trabalhei pra caramba”.

Nos últimos anos, o mineiro investiu parte de suas premiações do circuito em três empresas. “Aproveitei para entrar de cabeça e aprender muita coisa dentro do business. Nunca pude estar tão perto por causa das viagens. Estava trabalhando o dia inteiro, em home office, como quase todo mundo”.

Para Soares, o pós-carreira já é quase uma realidade. “A pandemia me fez ter uma clareza dos meus próximos passos. Ainda tenho um gás muito grande, gosto do circuito e de competir, mas sei que não tenho muito tempo ainda não”, afirmou. “Meu objetivo de vida é poder parar de jogar bem encaminhado suficientemente no lado financeiro para que o tênis não seja uma preocupação financeira e, sim, uma paixão”.

Ele evita apontar uma data para a aposentadoria, mas 2022 é uma possibilidade. “Tinha botado na minha cabeça que jogaria até o final de 2022, quando eu virar um quarentão. Não é uma meta. Se encher o saco antes, paro antes. Se estiver jogando bem e motivado, continuo. Hoje, quando tiro férias, já bate uma vontade louca de voltar a jogar, de viajar”.

Antes de parar, o tenista ainda tem dois objetivos a cumprir: faturar uma medalha olímpica e chegar ao topo do ranking da ATP. “A Olimpíada é um sonho meu. Minha próxima grande meta é Tóquio. E, em 2016, fui campeão mundial de duplas, mas não cheguei a ser número 1 no ranking individual, fui número dois algumas vezes”.

Os títulos de Grand Slam parecem distantes do que pensava Soares no início de sua carreira. “Isso não passava pela minha cabeça, de jeito nenhum. Era um sonho distante. Quando a gente começa no circuito, descobrimos como é difícil chegar lá. É outro mundo. Quando era jovem, sempre tive grandes resultados. Mas obviamente existe uma distância entre ‘beleza, eu posso ser um bom jogador’ e ‘quando você tiver 38 anos, você vai estar levantando o sexto troféu de Slam’. Seu alguém me dissesse isso, eu falaria: ‘bicho, sem chance’”.

NO ACAMPAMENTO EM BAGDÁ – Se o sonho já parecia distante na juventude, na infância o início de Soares no tênis faz sua carreira parecer ainda mais improvável. O brasileiro descobriu o esporte no Iraque quando tinha cinco anos. Sim, o mineiro passou seus primeiros anos de vida em Bagdá, capital do país comandado por Saddam Hussein na época.

Nascido em Belo Horizonte, o mineiro desembarcou no Oriente Médio com apenas dois meses de vida. Sua mãe, ele e seus irmãos foram se juntar ao pai, engenheiro de uma construtora brasileira contratada para construir uma grande estrada nos arredores de Bagdá.

Nos primeiros anos, Soares e família viviam em um acampamento próximo da estrada reservado para os familiares do pessoal envolvido na obra. Moravam em um contêiner adaptado, como faziam diversas outras famílias de brasileiros no local. “Era um vilarejo de contêiner. Era bem ‘roots’, década de 80, nada de asfalto. Era interessante, um ambiente legal. Muita família, muita criança. Na época, era um lugar superseguro porque só tinha a gente ali. Foi uma experiência interessante”, relembrou.

Foi no acampamento que teve início a trajetória do brasileiro no tênis. “Foi o único período da vida dos meus pais em que eles jogaram tênis. Eu ia junto para o clube, correndo, arrastando a raquete. Comecei a bater bola, brincar no paredão. E, no quinto ano lá, meu pai foi transferido para o escritório em Bagdá. Lá eu comecei a ter aulas”.

A “aventura em Bagdá”, como ele mesmo diz, durou seis anos e acabou quando foi deflagrada a Guerra do Golfo, em 1990. “Eu, minha mãe e meus irmãos voltamos para o Brasil, de férias. Três dias depois, estourou a guerra. Meu pai, que viria uma semana depois, acabou levando quatro meses para ser liberado. Ficou lá trancado, num momento de guerra. Foi complicado. Ele só pôde viajar com duas malas, deixou muita coisa para trás. E nunca mais voltamos. Foram seis anos de Iraque e a obra não terminou!”, recordou Soares.

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