“O que aprender quando a vida imita a arte?” foi a reflexão em forma de questionamento que Dani Gondim, 32 anos, fez ao revelar, em novembro de 2025, ter sido diagnosticada com um câncer no mediastino – um compartimento visceral da cavidade torácica situado entre os pulmões – após ter interpretado em um filme uma personagem que enfrenta o mesmo tipo de doença.
Natural de Fortaleza, a atriz viveu Marília Alvarez em “Milagre do Destino” (2025), obra brasileira baseada na história real da repórter cearense Marina Alves e sua luta contra um linfoma. O filme é uma produção da TV Verdes Mares (afiliada da Globo no Ceará) em comemoração aos 55 anos da emissora e 60 anos da Globo, com direção de Alexandre Klemperer.
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Dani tem compartilhado as etapas do seu tratamento oncológico, através das redes sociais, onde também mostra como está enfrentando esse momento, destacando que conta com a família para formar uma rede de apoio. Ela também levantou a bandeira da doação de medula óssea, apesar do transplante de medula não envolver o tratamento para o tipo de câncer que ela desenvolveu. “Quanto mais poder você tem, seja poder financeiro, seja poder midiático, quanto mais poder, mais você tem que retribuir à sociedade”, explica ela.
A artista já estava engajada na causa, muito motivada pelo seu trabalho no filme, antes mesmo de receber o diagnóstico. Quando veio o tratamento, carregado de reflexos na aparência do paciente, ela viu que tinha mais uma missão: incentivar mulheres ao tratamento em detrimento da vaidade. Bonita e explorando desde cedo sua beleza como instrumento de trabalho, Dani encarou a perda dos cabelos como uma etapa na busca pela cura. Ela estreou como modelo aos 12 anos de idade, desfilou em passarelas e estampou capas de revista, chegando a conquistar carreira internacional.
“E se eu puder ter sido um instrumento para que uma mulher entendesse que a beleza dela não é sobre o cabelo e que a saúde dela é muito mais importante do que qualquer aspecto físico de vaidade, eu já fico feliz com isso. Eu entendo, eu compreendo que a nossa cultura faça isso, faça essa pressão estética com a gente, mas a nossa vida vale muito mais do que isso”, Dani Gondim
Em bate-papo para IstoÉ Gente, Dani Gondim relembrou sua trajetória na atuação, abriu o coração sobre o impacto da descoberta da doença e o que espera para a vida e para a carreira depois que encerrar o tratamento.
Com 32 anos, Dani Gondim começou a estudar teatro aos 8, mas foi em 2016 que ganhou destaque nacional como atriz ao dar vida à vilã da novela infanto-juvenil “Carinha de Anjo”, do SBT. No canal ainda esteve em “Cúmplices de um Resgate” e disputou a terceira temporada do “Bake Off Celebridades”, ficando em segundo lugar na competição.
Em seu currículo estão participações em “Malhação” e na novela “Bom Sucesso”, ambas produções da Globo, e no curta “Nuvens de Chantilly”, com direção de Marcoz Gomez, que está rodando festivais desde 2024. A cearense, aliás, é também uma das compositoras do tema musical da produção, que tem o mesmo nome da obra cinematográfica e está disponível em todas as plataformas.
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Você está em tratamento de um câncer no mediastino. Como detectou o problema entre os pulmões? E como tem sido o tratamento?
O problema nos pulmões foi detectado através de exame de imagem. Eu passei alguns meses com tosse, como se eu estivesse com uma pressão baixa, de vez em quando eu tinha falta de ar, mas nada que me preocupasse, porque tempos de vento em Fortaleza e essa época do ano a gente chama de época de polinização. Então você tem a gripe do caju e é comum que as pessoas tenham crises de tosse, crises alérgicas. O tratamento tem sido com quimioterapia. Eu faço uma internação de um tratamento de quimioterapia com vários dias seguidos em bolsa de quimioterapia. Eu fico internada durante o tratamento porque é uma quimioterapia de 24 horas durante vários dias na semana e a cada 21 dias eu volto para uma nova internação.
O meu tipo de quimioterapia é modular. Ele vai aumentando ou diminuindo doses de acordo com a resposta do meu corpo. Por exemplo, eu estou tendo alguns níveis de intoxicação da quimioterapia. Os meus dedos ficam dormentes e aí determinadas substâncias ele diminui. Porém, em contrapartida, os meus exames de sangue e de imunidade estão segurando bem. Aí, o médico aumentou a dose de quimioterapia. Eu tenho tido bastante enjoo, é uma das coisas que mais está deixando desconfortável o tratamento. E por questão de segurança da imunidade, eu fico trancada no quarto. E aí isso dá um pouco de agonia, você fica um pouco mais limitada. Mas faz parte do tratamento de cura.
Você é modelo e atriz desde adolescente, tendo lidado esse tempo todo com a cobrança da estética. Como foi raspar o cabelo por conta dos efeitos da quimioterapia? E como tem sido lidar com o espelho agora?
O problema não foi nem raspar o cabelo. Eu me sinto bem com essa imagem. O problema foi que a partir do momento que eu tive que adotar esse novo visual, a minha vida teve que ser exposta, né? A minha vida particular teve que ser exposta. E isso pra mim sempre foi um desafio. A prioridade das minhas matérias, a prioridade das minhas divulgações sempre foi falar sobre o meu trabalho. O meu trabalho era o ponto de partida principal. E agora a minha vida privada virou o ponto de partida principal. E esse foi o desafio. A mudança estética, o que ela me entristece ou paralisa ou atrapalha um pouco é porque ela limita os meus personagens. Mas hoje a gente tem muitas alternativas pra isso. E quando eu puder voltar à ativa, de entrar num set de filmagem, de passar mais tempo de produção, eu acho que isso não vai ser um problema. E a gente pode explorar novas mulheres em mim, novas personagens.
Muitas mulheres, aliás, perdem os cabelos no tratamento, mas evitam exibir a nova imagem. E você postou um vídeo nas suas redes sociais raspando o cabelo e tem aparecido direto sem perucas. Isso tem impactado mulheres que te acompanham nas redes?
Eu tive um relato da Marina, que foi a personagem inspiração do filme “Milagre do Destino”, ela falou de mulheres que inclusive recusaram o tratamento porque não queriam perder o cabelo. E na nossa cultura o cabelo para a mulher é visto como o nosso contorno, a moldura do nosso rosto, a nossa vaidade está muito atrelada ao cabelo. Esse relato dessa mulher que ela disse, a mulher faleceu porque recusou o tratamento porque não queria ficar careca. E aí eu lembro do meu pai e da minha avó, minha avó teve um câncer e a minha avó quando chegava no salão e as pessoas diziam “ai, que cabelo lindo”, ela arrancava a peruca e dizia “é peruca, eu estou careca”. E se eu puder ter sido um instrumento para que uma mulher entendesse que a beleza dela não é sobre o cabelo e que a saúde dela é muito mais importante do que qualquer aspecto físico de vaidade, eu já fico feliz com isso. Eu entendo, eu compreendo que a nossa cultura faça isso, faça essa pressão estética com a gente, mas a nossa vida vale muito mais do que isso.
Seu tratamento não cabe doação de medula, mas, mesmo assim, você tem levantado a questão. Como é usar sua imagem, ainda que num momento tão delicado, pra ajudar outras pessoas?
Eu acho que, quanto mais poder você tem, seja poder financeiro, seja poder midiático, quanto mais poder, mais você tem que retribuir à sociedade. E por conta de 20 anos de trabalho, eu consegui um poder na mídia que me faz poder transformar um problema, uma doença minha, um tratamento meu e converter em ajuda para as pessoas que precisam. Em março de 2025, depois do lançamento do filme, a gente fez uma campanha nacional para incentivo à doação de sangue e medula óssea. Incentivo, primeiramente ao cadastro também, porque muitas pessoas nem se cadastravam. E aí, quando eu me vi nessa situação, eu, sabendo que eu não precisava das doações, uma das primeiras coisas que me impactaram foi “poxa vida, eu não vou mais poder ser uma doadora de sangue”. E eu fiquei super triste com isso. E aí eu pensei: “bem, eu não posso mais ser uma doadora de sangue, mas as milhões de pessoas que veem meus vídeos e acompanham a minha história, a minha história profissional, podem”. Então, eu posso pedir para que elas se cadastrem, para que elas sejam doadoras. E aí você multiplica essa potência. Eu uso a minha voz e eu uso o poder que eu construí com o meu trabalho para tentar ajudar outras pessoas. Eu acho que isso é essencial. Inclusive, acho que isso é função de todo artista, de toda pessoa que tem qualquer tipo de privilégio, é tentar ajudar o máximo de pessoas possível.
No começo de 2025, você estrelou o filme “Milagre do destino” – baseado em fatos reais –, em que vivia uma jornalista que descobriu uma leucemia e foi salva ao descobrir uma irmã, que se tornou doadora. Chegou a pensar sobre essa coincidência da vida imitando a arte?
Eu fiquei impactada com a coincidência. E as coincidências foram aumentando ao longo das descobertas do meu tipo de câncer. Nós duas temos um linfoma primário, não Hodgkin’s, no mediastino. A diferença é que o dela é um pouco mais próximo do coração e o meu é mais próximo dos pulmões. Mas é exatamente na mesma região. O mediastino é essa região central do tórax, onde fica o timo, o coração, o meio dos pulmões. Então a gente tem um câncer na mesma região, não Hodgkin’s, primário. As coincidências só foram aumentando. O que muda é que o dela é tipo T e o meu é tipo B. Mas é impressionante. Eu acho que, de uma certa forma, a arte me preparou para o que eu ia passar agora. Ela me adiantou algumas coisas. Eu aprendi a fazer o curativo do meu cateter. Eu entendi os processos de coleta de sangue. Eu entendi o processo hospitalar também. Eu tive que fazer um estudo do processo hospitalar que ela passava. Eu me vi careca. Porque a gente fez uma prótese de careca. Eu me vi careca. Eu pude experienciar isso antes de viver isso de verdade. Tem uma cena do filme que eu acho que foi essencial para me dar força também nesse processo. Que a minha personagem olha no espelho e antes de raspar o cabelo ela fala: “Essa doença não me define”. E eu me fortaleço muito nisso. Essa doença não me define. Eu fiquei com muito medo de perder trabalho. Eu fiquei com muito medo de ser esquecida no mercado. Eu fiquei com muito medo que a minha mudança estética me barrasse nos projetos futuramente. E aí eu olho no espelho e digo: “Essa doença não me define”. Isso é uma passagem. É um processo. E eu vou superar isso. Eu vou superar isso.
O que você tem planejado para vida e para carreira depois que encerrar o tratamento?
Eu estava organizando, era agora em novembro, dezembro, eu ia gravar os meus videoclipes, inclusive, quando eu descobri tudo isso, eu ainda tentei negociar com o médico para ver se eu poderia começar o meu tratamento de quimioterapia em janeiro, e não foi indicado, né, ele disse que eu podia ter algumas sequelas mais graves e que eu ia ficar com cada vez mais falta de ar, eu podia ter desmaios, então a gente teve que começar de imediato o tratamento. Eu também tive que deixar em espera e recusar alguns projetos de seriado e de um filme. Mas, em março eu devo finalizar o meu tratamento e continuo estudando, continuo fazendo as minhas pesquisas como atriz, como artista, como compositora, continuo escrevendo. E aí a arte é sempre um exercício, né, a gente vai exercitando, assistindo novos produtos, se atualizando no mercado, para quando voltar, quando puder voltar, voltar preparada para as oportunidades que aparecerem.

Dani Gondim. Reprodução/Instagram.

Dani Gondim. Reprodução/Instagram.