Uma transição de peso balançou os pilares da arquitetura mundial. O arquiteto que assinou mais de 200 projetos de parques, resorts e cruzeiros do Walt Disney World por mais de 40 anos cedeu aos encantos da arquitetura urbana. Aos 75 anos, Bob Weis é o novo Líder Global de Design de Experiência Imersiva da Gensler.

Situada em São Francisco e fundada em 1965, a Gensler tem projetos e escritórios espalhados pelo globo. São mais de 7 mil colaboradores em 50 localidades, entre elas, São Paulo. No mundo, há 4 mil clientes em quase 30 áreas de atuação, que vão de hospitais a arranha-céus. O prédio mais alto da China tem sua assinatura. Com 632 metros de altura, a Torre de Shanghai fica a 20 minutos de carro do Shanghai Disney Resort, por cujo projeto o alemão Weis chegou a ganhar prêmio.

Bob Weis, arquiteto dos parques da Disney, vai projetar prédios para a vida cotidiana
HOTEL RETRÔ O Hollywood Tower, no parque de Orlando, tem em seu interior um elevador que despenca de 61 metros (Crédito:Stephen searle / Alamy / Fotoare)

O motivo dos novos rumos de Weis parece estar longe de ser o cansaço da fantasia. Como ele próprio falou ao site da empresa, a ideia é adicionar magia à vida cotidiana, dando às pessoas o protagonismo da própria história. Como em um filme ou uma peça de teatro. Formado em Arquitetura pela Cal Poly School of Environmental Design, foi lá que ele teve contato com as artes cênicas.

Quando entrou no grupo Disney, em 1980, Weis já recebeu tarefas de grande peso, na construção de parques da empresa na França e no Japão. Mas não foram realmente suas primeiras ocupações na Disney World. Quando adolescente, ele trabalhou por meses como vendedor de pipoca e sorvete pelas alamedas do parque, para pagar os estudos, sem imaginar que sua vida profissional se daria ali.

Inovação

Como lembra a professora e coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Estácio Teresópolis – RJ, Eclea Morais, em uma sociedade em que as relações sociais são muito midiáticas, não é anormal a demanda por uma arquitetura da espetacularização, que traz elementos incomuns e icônicos para o espaço urbano. “Acho que o grande desafio vai ser como Weis promoverá essa arquitetura no espaço público de uma forma não segregadora, porque esse é um dos grandes problemas de projetos neoliberais”, comenta.

Bob Weis, arquiteto dos parques da Disney, vai projetar prédios para a vida cotidiana
BOB WEIS Por 42 anos o arquiteto das atrações da Disney (Crédito:Divulgação)

Uma das expectativas da Gensler com a chegada de Weis é que ele eleve ainda mais o design de inovação da empresa global. Talvez em nível tão alto quanto o elevador de 61 metros de altura que ele mesmo projetou no parque de Orlando. Como o novo líder fará isso? A partir de experiências imersivas envolvendo os cinco sentidos e de espaços que estabeleçam conexões humanas mais intensas.

Para o arquiteto, professor e coordenador de urbanismo na Escola da Cidade, Pedro Vada, no entanto, é impossível criar uma imersão no espaço físico sem considerar o fator tempo, muito menos incentivar emoções por meio de um único projeto, já que a experiência arquitetônica tem caráter muito pessoal. “Não dá para assumir que um pensamento sobre um projeto específico vá durar tanto tempo quanto ele, de fato”, ele diz. E completa: “O projeto é uma coisa que deveria ser viva. É muito mais vinculado à transformação no tempo do que propriamente a uma funcionalidade ou tendência específica”.

Segundo o professor, a proposta de Weis na Gensler, de incluir fantasia no cotidiano, segue a linha de um movimento de criação de cenários na arquitetura, que tende, muitas vezes, a ignorar as realidades locais nos projetos.

“Cria-se um cenário de coisas muito efêmeras para um espaço público que permanece ou então fantasias de uma cidade que nunca existiu”, ele fala, e dá o exemplo das intervenções feitas na última década no Largo da Batata, em São Paulo, em um movimento que também é conhecido como urbanismo tático.

Bob Weis, arquiteto dos parques da Disney, vai projetar prédios para a vida cotidiana
TEATRO JAPONÊS Por fora, o Space Mountain na Disney de Tóquio parece uma casa de espetáculos, mas abriga uma montanha-russa (Crédito:Parinya Suwanitch / Alamy )

Se as referências estéticas ao fantástico Walt Disney World vão inspirar as próximas construções assinadas pela Gensler no mundo real, também é o tempo que dirá. E não é que as obras precisem fugir ao entretenimento, como lembra a arquiteta e urbanista Raquel Schenkman, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, “O lúdico existe no ambiente e pode existir na cidade, mas não como cenário.” Para ela, o que chamou de “imaginário de fuga” é vendável em uma fatia do mercado imobiliário, e não vê além desse motivo para a aquisição do profissional pela nova casa, “É uma arquitetura que não quer se vincular ao lugar, ela quer criar o novo”.