Cúpula do Mar do Norte na Alemanha é marcada por tensões no Ártico

Governantes europeus se reúnem na Alemanha nesta segunda-feira (26) para discutir cooperação energética e segurança no Mar do Norte, em um contexto de incerteza diante das ambições dos Estados Unidos em relação à Groenlândia.

Há tempos, a região é alvo de preocupações com uma eventual ameaça russa, mas recentemente surgiram tensões com a pressão do presidente americano, Donald Trump, em torno desse território autônomo dinamarquês situado no Ártico.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, presidirá a cúpula poucos dias depois de Trump ter desistido de ameaças de tomar a Groenlândia pela força e de impor tarifas a aliados europeus que se opusessem.

O republicano anunciou um “acordo-marco” com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, o que gerou alívio e confusão, já que até agora não foram divulgados detalhes.

“Teremos de prestar mais atenção a todas as partes do território europeu da Otan”, advertiu Merz na quinta-feira, após uma reunião extraordinária do Conselho Europeu.

Participam da cúpula, na cidade portuária de Hamburgo, no norte do país, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen – que visitou a Groenlândia na sexta-feira -, além de representantes da Otan, da Comissão Europeia e da Islândia.

Também estarão presentes os governantes da Noruega, Países Baixos, Irlanda, Bélgica e Luxemburgo, enquanto França e Reino Unido enviarão ministros.

“Dada a composição do encontro, estou certo de que a segurança no Alto Norte (Ártico) também será de interesse dos participantes”, comentou Steffen Meyer, porta-voz de Merz.

– Sabotagem e vigilância –

O objetivo formal da cúpula é impulsionar a expansão transfronteiriça da energia eólica marítima, do mercado de hidrogênio e da infraestrutura marítima interconectada.

As preocupações com segurança estarão na agenda porque os mares do Norte e do Báltico têm sido alvo dos chamados “ataques híbridos”, geralmente atribuídos à Rússia.

Há suspeitas de que navios cargueiros ligados à Rússia tenham sabotado cabos submarinos de comunicação e infraestruturas críticas de vigilância nessa região.

Na Alemanha, foram detectados sobrevoos misteriosos de drones em aeroportos, bases militares e instalações industriais, que as autoridades acreditam ter sido lançados a partir de embarcações russas.

Merz afirmou na semana passada que a “segurança marítima” e o “sucesso econômico compartilhado no Norte” seriam discutidos em Hamburgo.

A meta é transformar o Mar do Norte no “maior reservatório de energia limpa”, algo que ele classificou como de “importância crucial para uma Europa forte, segura e autossuficiente”.

Na última cúpula do Mar do Norte, em 2023, os países concordaram em construir usinas eólicas com capacidade de 300 gigawatts, com uma meta imediata de 120 GW até 2030.

No entanto, mantidas as tendências atuais, haverá apenas 82 GW de capacidade instalada até o fim da década, segundo a consultoria Baringa.

– Clima e segurança –

Fontes governamentais afirmaram que as “dificuldades atuais” do setor serão debatidas em Hamburgo.

Entre os obstáculos estão gargalos logísticos nos portos, escassez de peças de reposição e uma rede elétrica com dificuldades para absorver energia adicional e de origens diversas.

Também há receios quanto à entrada de fabricantes chineses de turbinas na cadeia de suprimentos, em um momento em que atores europeus buscam ampliar sua autonomia.

Defensores da energia eólica argumentam que ela não é apenas benéfica para o clima, mas também para a segurança, já que sistemas descentralizados são mais resilientes a sabotagens e ataques do que usinas de combustíveis fósseis, oleodutos e navios-tanque.

Simon Skillings, do centro de estudos E3G, afirmou que “aprendemos muito nos últimos anos, não apenas com os ataques híbridos à infraestrutura, mas também observando a situação entre Ucrânia e Rússia. Aprendemos que recursos dispersos são mais resilientes”.

“Uma infraestrutura mais distribuída é mais robusta (…) são necessários múltiplos ataques, e não um único, para eliminar o fornecimento de energia”, acrescentou.

Segundo Skillings, parques eólicos marítimos também podem reforçar a segurança no mar se equipamentos ou drones de vigilância forem integrados às turbinas.

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