Cultura e nazismo no Brasil

O escândalo envolvendo a demissão de Roberto Alvim, secretário especial de Cultura, revela a que ponto chegou o processo de destruição das instituições do Estado democrático de Direito. Não foi um ato acidental o já célebre discurso nazista. Alvim, durante mais de um ano, vinha apresentando o seu “pensamento” sobre a cultura brasileira. O que pode ter ocorrido foi o aprofundamento do delírio autoritário, típico do fanatismo extremista.

No episódio chama também a atenção o fato de Alvim, logo após a divulgação do sinistro vídeo e das primeiras reações contrárias, ter conversado com Jair Bolsonaro e recebido apoio do presidente – ao menos foi o que ele – Alvim – declarou. Se o fato ocorreu é extremamente preocupante. Pode ser – o que também é provável – que Bolsonaro não tenha entendido a gravidade da fala do seu secretário de Cultura, o que deve ser tributado nem tanto a um culto ao extremismo, mas ao desconhecimento do significado de um discurso cultural que tinha no nazismo a sua inspiração. Foi a pressão de auxiliares mais próximos, além dos protestos da comunidade judaica, que levou à demissão de Alvim.

O incidente poderia ficar no terreno da galhofa. Não é o caso. Desde os anos 1930, não há registro que uma autoridade brasileira, ocupando alto posto na administração federal, tenha manifestado publicamente sua adesão aos valores culturais nazistas. E mais: ter defendido como política de Estado. Isso em um País que tem como fundamento os princípios democráticos e iluministas consubstanciados na Constituição de 1988.

A demissão de Alvim poderá abrir caminho para que a pasta da Cultura – como secretaria ou ministério – possa distensionar a relação governo-classe artística. Seria um bom começo. Também deveria levar à mudança em fundações que estão com dirigentes absolutamente desconectados das suas atividades-fim, como a Fundação Palmares ou a Fundação Casa de Rui Barbosa, entre outras. Caberia refletir sobre o projeto cultural – se é que há – do governo eleito em outubro de 2018. Aí deve morar o principal problema pois tudo parece ser resolvido de improviso, inclusive o reacionarismo no campo das artes. Pior ainda será a dificuldade do novo titular em relação a autonomia na gestão. Poderá nomear quem achar mais apto para alguma função? Terá de se submeter ao obscurantismo religioso? Será dada liberdade para apresentar e gerir um projeto cultural distante da polarização que envenena o Brasil? O futuro à curto prazo vai apresentar as respostas.

Caberia refletir sobre o projeto cultural – se é que há – do governo eleito em outubro de 2018


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