Romancista, ensaísta e jornalista, Leonardo Padura escreveu em um artigo no espanhol El País que Cuba está na moda. Virou assunto do momento. Publicado no domingo, 12, o texto diz que ele vem sendo procurado por diversos colegas de profissão, todos querendo seu ponto de vista sobre o que está se passando em Cuba e o que vai acontecer com a ilha. “Sobre a mesa estão todos os cenários”, declarou, advertindo, na sequência, que ninguém conseguiria, por ora, se inclinar por alguma das possibilidades que se imaginam.
A depender das palavras de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, a nação de 11 milhões de habitantes será seu próximo alvo, depois do conflito no Oriente Médio – deflagrado a partir de ataques do país, junto com Israel, ao Irã.
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Em 16 de março, o mandatário norte-americano havia soltado uma de suas bravatas, dizendo que seria uma honra tomar Cuba. Nesses termos. Ele estava respondendo a repórteres na Casa Branca quando foi perguntado pela ilha, com quem estava negociando o fim das sanções que impôs ao país. “Toda a minha vida ouvi falar de Cuba e dos Estados Unidos. Quando os Estados Unidos iriam fazer isso? Acho que terei… a honra de tomar Cuba. Seja libertando-os, tomando-os. Acho que poderei fazer o que quiser com eles, para dizer a verdade. Eles são uma nação muito fragilizada agora”, afirmou.
Naquela data, a ilha sofreu um apagão total. Era o sexto ocorrido em um período de um ano e meio. Dias antes, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, admitiu, em pronunciamento público, que o governo estabeleceu conversas com Washington com o objetivo de “buscar soluções, por meio do diálogo, para as diferenças bilaterais”. Diante desse contexto, a frase de Trump soava ainda mais estridente aos ouvidos cubanos.
Díaz-Canel reagiu: “Qualquer agressor externo encontrará em Cuba uma resistência inexpugnável”. A mensagem encontrou eco entre fiéis apoiadores do comunismo caribenho, como o cantor e compositor Silvio Rodríguez, muito popular nos países que falam espanhol. “Exigo minha AKM [um fuzil usado pelo exército da então União Soviética], caso se lancem. E que conste que digo isso muito seriamente”, comentou em um post que ele publicou em seu blog pessoal, o Segunda Cita.
Outros cubanos também se sentem impelidos à resistência, movidos pelo espírito heroico e o idealismo romântico que ainda hoje sobrevivem de forma inexplicável entre tamanha adversidade. Morador de Havana, Jorge Antonio Ferrera Díaz, cientista social aposentado de 78 anos, afirma que a população está disposta a defender a soberania e a independência do país a qualquer custo. “Há plena consciência de que enfrentaríamos uma máquina de guerra altamente desenvolvida tecnologicamente, mas defenderemos a pátria com decisão, dignidade, bravura e entrega”, diz à reportagem, em mensagem escrita.
Mas há os aqueles a quem a realidade terrível tratou de calibrar expectativas e opiniões. Também moradora da capital, a professora aposentada Carmen (que prefere não revelar seu sobrenome), de 70 anos, é uma das que defendem uma solução mais equilibrada – se é que isso é possível – com o inimigo gigante do norte. “Não quero ver meu país envolvido em uma guerra. A guerra tem uma face feia. Não quero uma invasão, porque isso traria consequências funestas, sobretudo para a população civil. Penso que, sem abrir mão da nossa soberania, os governos podem chegar a um entendimento para pôr fim às sanções” – leia os dois depoimentos nesta reportagem.
Com a guerra contra o Irã, os Estados Unidos tinham deixado a ilha em segundo plano, exceto por um ou outro comentário de Trump. Aparentemente. Na quarta-feira, 15, o jornal USA Today publicou que um planejamento militar para uma possível operação liderada pelo Pentágono em Cuba está sendo discretamente intensificado. Tudo ficaria pronto para o caso de Trump dar a ordem para intervir na ilha. O diário pontua que foi também uma operação discreta dos Estados Unidos que retirou o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro de seu complexo em Caracas, em 3 de janeiro (hoje ele está preso em Nova York), fato que especulações de que Cuba seria o próximo alvo. Entre as autoridades norte-americanas, porém, diferentemente do que argumentavam em relação à Venezuela e ao Irã, o país não é visto como uma “ameaça iminente”.
Em Havana, o governo de Díaz-Canel recebeu projetos de ciência e inovação relacionados a fontes de energia renováveis na terça-feira, 14, em uma iniciativa quixotesca frente ao tamanho do desafio. Segundo o Granma, veículo oficial do Partido Comunista cubano, as iniciativas, apresentadas por cientistas e especialistas, são capazes de fornecer soluções eficientes em curto prazo. Uma das propostas pretende colocar em operação projetos de biogás replicáveis no país, “com base no potencial oferecido por resíduos suínos, pecuários e industriais”.
As medidas são urgentes, já que a crise energética é grave e os alimentos estão escasseando e os preços subindo, ainda que barcos e aeronaves com ajuda humanitária estejam chegando à ilha nos últimos dias – um navio russo foi recentemente autorizado por Washington a levar combustível para a ilha. A autorização se deve ao bloqueio desse tipo de transporte imposto pelos Estados Unidos no início do ano, o que gerou a intensidade da crise atual, que compromete desde o transporte público até o acesso a itens básicos de sobrevivência.
Na reunião da terça-feira, Díaz-Canel afirmou que o país tem duas prioridades, alimentação e energia, e que ambas estão intimamente relacionadas. E reiterou que integrantes do governo tirem partido das fontes de energia renováveis e integrem essas iniciativas no menor tempo possível.
O cenário atual de Cuba é extremo para a população, representando um dos momentos mais delicados e desafiadores da ilha nos últimos anos. Gerson Damiani, especialista em direito internacional e secretário-executivo do Centro Ibero-Americano da USP, explica que, desde que perdeu o apoio de antigos parceiros socialistas, a ilha vem passando por crises. As sanções dos Estados Unidos são aplicadas desde os anos 1960. A que se vê hoje, com as medidas determinadas por Trump, é um quadro de colapso. A área que mais gerava receitas para a ilha, o turismo, por exemplo, caiu drasticamente.
Para ele, não há como o governo cubano oferecer resistência aos Estados Unidos, se o presidente decidir por uma ofensiva sobre a ilha. A resistência possível é a moral. É importante, ante essa hipótese de “tomada” de Cuba, ficar atento aos preceitos do direito internacional. Damiani menciona o princípio da não intervenção, um conceito consagrado na ONU, para esclarecer que a ação unilateral é ilegal (são proibidas operações militares em outro país sem autorização internacional). “Hoje, os Estados Unidos não têm razão para alegar legitimidade em uma intervenção”.
Mas o que aconteceu na Venezuela demonstra que o governo Trump não se intimida com isso. Na visão de Damiani, as maiores reações contra as decisões do executivo – e com potencial de influenciar as resoluções do presidente – serão internas. Afinal, há eleições nos Estados Unidos em novembro (chamadas de midterm), em que há renovação de deputados e senadores. A avaliação da população sobre o governo é crucial para a manutenção da maioria parlamentar no Congresso pelo partido Republicano, o de Trump.
“O cidadão, quando vai colocar seu voto, está mais preocupado se a inflação vai voltar”, pontua Damiani. Os custos das intervenções do governo já se refletem no dia a dia dos norte-americanos, adicionando uma camada extra de pressão inflacionária. A guerra com o Irã, por exemplo, consumiu mais de US$ 11,3 bilhões apenas nos seis primeiros dias — um ritmo elevado de gasto público que, combinado à alta do petróleo provocada pelo conflito, amplia os custos de energia, transporte e produção. Esse duplo efeito tende a pressionar preços ao consumidor e reforçar um ambiente de inflação mais persistente nos Estados Unidos.
O que o governo Trump ganharia com uma ação militar sobre a ilha? “Os Estados Unidos nunca digeriram Cuba, onde não tem poder de influência. É mais uma questão simbólica. É mais pela lógica da hegemonia mundial e para mostrar para a China que a América Latina é área deles. Hoje, as ameaças não são militares; são econômicas e energéticas. Cuba não se enquadra nesses casos. A pressão sobre o país é muito mais pela forma de os Estados Unidos se estabelecerem de forma regional e enviarem mensagens de poderio para a China e para a Rússia”, analisa Damiani.
“Cubaneidade”
Com viagens rotineiras para Cuba para assessorar a FAO e o governo no Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional, desde 2019, Frei Betto conta que a vida no país está marcada pela asfixia energética. Ele observa que 60% da energia dependem da importação de combustível, produto que antes vinha da Venezuela, da Rússia e do Irã. Com o bloqueio desde janeiro, veio o descalabro. Ainda assim, há setores que funcionam em um nível de “normalidade” em contraponto a outros. É o caso do sistema de saúde e o de educação, da creche ao segundo grau. Já o transporte se transformou em caos.
Sem meios de levar os alimentos de uma região para a outra, o abastecimento está comprometido. Em março, apesar do aperto, Frei Betto reportou que havia alimentos para a população, que não estava passando fome. De acordo com ele, come-se o que há, o que chega. E há forte inflação.
Sobre o ânimo do povo cubano, ele diz que há um sentimento de união. No país, há um forte anti-americanismo, o que já dispõe a população contra certas propostas que venham de Trump, como escolher um dirigente para a ilha, do modo como fez na Venezuela. “Existe uma expressão que é cubaneidade. É algo arraigado no povo, uma ideia de nacionalismo sem ser xenófobo”, explica. Isso está aflorado. Como ninguém sabe o que os Estados Unidos pretendem fazer, nem Trump, comenta Frei Betto, é preciso esperar para ver os rumos das negociações.
No artigo feito para o jornal El País, o escritor Leonardo Padura afirma que “mudanças estão sendo promovidas, com algum impacto social, e que se tenta fazer o que poderia ter sido feito antes. Porque o fato incontestável é que Cuba precisa mudar — mas não deveria ser porque está sendo sufocada por forças externas, e sim porque os cubanos, empobrecidos, cansados e sem esperança, precisam dessa mudança em muitos sentidos. E já não é raro que haja quem deseje mudanças a qualquer custo, independentemente de onde venha o impulso”.
Nestes dias de abril, outro brasileiro rumou para a ilha, prestando solidariedade e oferecendo sua arte como apoio à resistência a estes tempos de bloqueio severo. Chico Buarque viajou a Havana para encontrar o amigo Silvio Rodríguez, o que avisou que pegaria em armas, se preciso fosse. Em posts em seu perfil no Instagram, o autor de “Construção” narrou o encontro. A última visita de Chico a Cuba tinha acontecido 34 anos atrás. Desta vez, ele e Rodríguez entraram em estúdio para gravar uma nova versão de “Sueño con Serpientes”, clássico do repertório do artista cubano (e que já tinha sido vertida para o português por Chico).
“Em meio ao endurecimento das sanções contra a ilha e ao agravamento da crise econômica e energética, a viagem ocorre como demonstração de solidariedade ao povo do país”, consta no Instagram. Chico esteve na ilha junto coma esposa, a jurista Carol Proner e o enteado, o fotógrafo Franciso Proner. O cantor também realizou a doação de remédios ao Ministério da Saúde cubano. Um vídeo postado sobre o último dia na ilha mostra Chico sendo recebido por músicos cubanos que o encontram à beira-mar. Juntos, cantam “Pequeña Serenata Diurna”, outro sucesso de Rodríguez. Uma concessão à poesia em meio à privação e o futuro sombrio do país insular.