Suzana Uchôa Itiberê Foto Divulgação Faz mais de 30 anos que o paranaense Cristovão Tezza escreveu um livro de contos, A Cidade Inventada. Ele próprio não se julga um contista. Pura modéstia. Depois de se consagrar com uma dezena de romances, entre eles O Filho Eterno, premiado com o Jabuti em 2008, Tezza retoma o gênero no pungente Beatriz (Record, 144 págs., R$ 34,90). São sete histórias entrelaçadas que trazem de volta a personagem apresentada no último livro, Um Erro Emocional ? e não só ela, mas o indefectível escritor Paulo Donetti, paixão complicada de Beatriz e outra grande criação do autor. É verdade que os contos de Beatriz estavam prontos antes de Um Erro Emocional? Alguns estavam prontos, outros foram escritos depois, como ?Amor e Conveniência? e ?Um Homem Tatuado?. Ao organizar a antologia, pensei em dar uma unidade especial aos contos, uma vez que Beatriz e Donetti eram figuras perfeitamente definidas no romance. Fiz retoques, mudei o nome da personagem (que nasceu Alice, e virou Beatriz) e organizei a sequência. Apesar da estrutura comum, é um livro de contos, que podem ser lidos de forma perfeitamente autônoma. Há duas ações definidas: a narrativa factual e o fluxo de pensamento de Beatriz. São etapas distintas de criação ou brotam simultaneamente? Brotam simultaneamente. Parece que cada gesto do personagem já contém um pensamento, uma percepção do tempo e do espaço. Mas o jogo perpétuo da memória é uma espécie de motor das narrativas, como se Beatriz, ao mesmo tempo em que vivesse, quisesse também entender o que está acontecendo. A linguagem seguindo o fluxo do pensamento acabou por ficar uma marca do meu texto, desde o romance O Fotógrafo (premiado pela Academia Brasileira de Letras como melhor romance de 2004). A vida interior dos meus personagens parece que é tudo que eles têm. Apesar da narrativa engenhosa, Beatriz é uma obra mais leve e de fácil leitura se comparada ao desafio de Um Erro Emocional. Verdade. Os contos são mais leves e os próprios personagens têm uma intensidade diferente nos contos e na narrativa mais longa. Percebi na prática uma distinção importante entre o conto e o romance. A rapidez do conto acaba definindo Beatriz e Donetti de uma forma mais completa e autossuficiente, porque tudo se resolve em poucas páginas. A relativa lentidão do romance cria camadas e sobrecamadas de sentido, que são de percepção mais exigente, mais densa. Acho que a leitura de uma sequência de vários contos com a mesma personagem acaba por interferir no conjunto. Para o leitor, as informações são cumulativas. Apesar de todos os traumas, ela é otimista e tem uma visão irônica da vida e do mundo. Beatriz é uma otimista, mantém uma relação curiosa e interessada sobre o mundo, mas ao mesmo tempo vive ?em estado de solidão?, por assim dizer, o que parece uma síndrome contemporânea. E Beatriz é uma leitora, o que é importante. Para ela, a literatura é uma referência poderosa de organização do mundo e das pessoas em torno, de uma forma natural, não pedante ou livresca. Acho que é a primeira vez em que penso nela objetivamente. Quando escrevo, a intuição comanda. Entre os sete contos, há um preferido ou que lhe deu mais trabalho? Eu me diverti escrevendo alguns contos, como ?Beatriz e o Escritor? e ?Um Dia Ruim?. Alguns foram tecnicamente mais difíceis, como ?Viagem?. Foi um conto originalmente escrito para uma antologia inspirada em Machado de Assis, e nele acabei desenvolvendo a multiplicidade de planos (Donetti ouvindo a história no ônibus e ao mesmo tempo dando a palestra no futuro), que depois seria uma técnica importante na estrutura de Um Erro Emocional. ?Amor e Conveniência? me deu trabalho composicional: tentar manter a cabeça do leitor o tempo todo longe da conclusão do conto. ?Um Homem Tatuado? foi pura intuição: simplesmente fui escrevendo, curioso com a direção que o texto tomava e com os personagens que surgiam. É muito diferente escrever um conto e um romance? Sim, muito. Para mim, parece que o conto já tem de nascer completo na cabeça. É difícil mudar de rumo no meio do caminho. Já o romance, no meu caso, sempre muda de rumo com relação à imagem inicial que eu tenho dele ao começar a escrever. Sinto que tenho uma cabeça de romancista. Os contos acontecem sempre mais ou menos acidentais.