São Paulo, 13 – A instabilidade política no Irã praticamente paralisou o comércio de milho brasileiro com o país, travando cerca de 90% das operações por dificuldades em cartas de crédito e comunicações, segundo o economista Dan Basse, da AgResource, em transmissão realizada na segunda-feira, 12. O mercado iraniano é responsável por aproximadamente 11% das exportações brasileiras de milho, e o país persa figura como o 17º maior importador mundial de grãos, absorvendo anualmente cerca de 21 milhões de toneladas entre milho, trigo, farelo de soja, soja em grão e cevada.
“Hoje me preocupo com as cargas brasileiras de milho que não conseguem obter cartas de crédito, que não encontram comunicação para entrar. Não digo que estamos totalmente parados, mas estamos 90% parados no comércio iraniano”, afirmou Basse. Para complicar, o presidente americano, Donald Trump, anunciou ontem que qualquer país que faça negócios com o Irã terá de lidar com uma tarifa adicional de 25% sobre “todo e qualquer” comércio feito com os Estados Unidos. Conforme publicação feita na Truth Social, a ordem é “final, conclusiva e efetiva imediatamente”.
O analista Ben Buckner, também da AgResource, destacou que o episódio iraniano ilustra o peso crescente de fatores geopolíticos sobre o mercado de grãos em 2026, em um cenário mais amplo de reconfiguração do comércio global. Segundo Basse, o ano deve ser marcado menos por questões tarifárias e mais por uma mudança estratégica dos Estados Unidos, que perdem espaço nas exportações enquanto a oferta sul-americana avança. “Acredito que vamos olhar para 2026 como o ano em que a perspectiva global ampla e a segurança regional pesaram mais do que o comércio em si”, afirmou.
No mercado de milho, a consultoria projeta que a China dificilmente será compradora relevante do cereal americano em 2026. O governo chinês reportou produção de 301,2 milhões de toneladas, refletindo o esforço do país asiático em elevar a produtividade doméstica e reduzir a dependência externa. Segundo Basse, a manutenção da tarifa de 10% sobre grãos americanos e a disponibilidade de origens mais baratas praticamente eliminam os Estados Unidos como fornecedor de milho para a China.
Na soja, a participação dos Estados Unidos nas exportações do Hemisfério Ocidental recuou para cerca de 24%, enquanto Brasil e Argentina seguem expandindo produção. Com uma safra brasileira de soja estimada em 180 milhões de toneladas ou mais, a AgResource projeta que a lógica de mercado mudou e os Estados Unidos agora precisam que a demanda “venha até eles”, em vez de ir atrás de compradores.
Isso explica, segundo Basse, a importância do acordo com a China, do qual cerca de 11 milhões das 12 milhões de toneladas de soja já foram cumpridas. Uma vez concluída essa meta, porém, a consultoria projeta que a demanda chinesa por soja deve migrar para o Brasil por um período prolongado, favorecida por preços mais competitivos. “Com os grãos brasileiros mais baratos, a demanda pública e privada deve ir para o Brasil por um tempo estendido”, disse.
O avanço contínuo de Brasil e Argentina na soja, somado à expansão da região do Mar Negro, força uma mudança de foco da política agrícola americana para o mercado interno, com ênfase em biocombustíveis como etanol e diesel renovável. “Não somos mais a figura dominante que costumávamos ser e, conforme Brasil e Argentina continuam a expandir, essa porcentagem vai continuar a declinar”, afirmou Basse.
No trigo, a AgResource mantém a visão de excesso de oferta global. Buckner destacou que os estoques dos principais exportadores do cereal seguem abundantes e devem crescer ainda mais em 2026-27, enquanto o comércio permanece estagnado devido às chuvas no Norte da África e à produção local em regiões tradicionalmente importadoras. “No fim do dia, o mundo tem uma abundância de milho, soja e trigo, e acredito que é nisso que os mercados vão focar no longo prazo”, afirmou.
Buckner reiterou que o mercado de grãos atravessa um ciclo de baixa. Para o analista, episódios de volatilidade provocados por tensões geopolíticas devem ser vistos como oportunidades táticas de comercialização. “O desafio é gerenciar o caminho através desta parte do ciclo agrícola, que é baixista. Quando houver adição periódica de prêmio de risco por causa de geopolítica, o produtor deve aproveitar para realizar algumas vendas”, recomendou.