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Crise na tela

O solene desprezo que o governo Bolsonaro demonstra pela Cultura nacional pode culminar na falência da Cinemateca Brasileira

Crédito: Divulgação

CULTURA Maior acervo de filmes da América Latina está em perigo: falta apreço pela memória nacional (Crédito: Divulgação)

FACHADA Na calçada, a pesquisadora cobra uma solução em prol da instituição: toda a ajuda é bem-vinda (Crédito:RodrigoZaim)

A situação da Cinemateca Brasileira, instalada na zona sul de São Paulo, é a mesma de uma pessoa que está entre a vida e a morte num leito de UTI, padecendo pela Covid-19. A instituição, que guarda grande parte da memória audiovisual brasileira e o maior arquivo de filmes do País, passa pela maior crise de sua história, iniciada em 1940. A Cinemateca acumula dívidas de R$ 13 milhões, entre empresas terceirizadas de segurança e limpeza, contas de luz atrasadas e funcionários, que estão em greve geral, por tempo indeterminado, devido ao atraso salarial de quase quatro meses. A Secretária Especial da Cultura deixou de repassar recursos financeiros à Cinemateca desde o segundo semestre de 2019, devido a um imbróglio governamental entre a pasta da Cultura e os Ministérios da Educação e do Turismo. O contrato do governo Federal com a Organização Social que a administra o orgão, Associação de Comunicação Educativa Roquete Pinto (Acerp), foi encerrado pelo MEC, sob as ordens de Abraham Weintraub. Ele dizia a época que a Cinemateca dava prejuízo. A atual Secretaria Especial da Cultura, responsável pela entidade, tem vínculo administrativo dividido também entre as pastas da Cidadania e do Turismo.

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A Cinemateca virou uma bomba relógio. Se nada mudar isso aqui pode pegar fogo! Não tem nem bombeiro pra apagar, Eloá Chouzal , pesquisadora de áudiovisual

Por causa da bagunça administrativa no governo, a atriz Regina Duarte ainda não assumiu a gestão da Cinemateca. Além disso, a falta de recursos pode comprometer um arquivo de 250 mil rolos de filmes de todas as épocas, mais de cem registros historicos, como por exemplo, os arquivos da TV Tupi, do Canal 100 e a filmografia do Cinema Novo, além de uma biblioteca de cerca de um milhão de documentos. O eximio trabalho realizado na Cinemateca tem reconhecimento internacional por sua excelência em restauro de filmes. Segundo Carolina Vergotti, funcionária deste setor, há três mil rolos de filmes, películas a base de nitrato de celulose, um material que necessita de acondicionamento ventilado e revisão periódica para que sejam dispersos os gases emitidos no processo de deterioração que, quando acumulados, podem fazer com que o material entre em autocombustão. A Enel, empresa de eletricidade, ameaça cortar a luz por falta de pagamentos. Sem refrigeração há riscos de perda do material. “Sem esse trabalho técnico contínuo todo esse arquivo pode se perder”, afirma Vergotti. Em 2016, a Cinemateca pegou fogo e uma parte do acervo foi destruida.

ABRAÇAÇO Grupo SOS Cinemateca denuncia o abandono do órgão: se não houver reação, a destruição será iminente (Crédito:DANIEL TEIXEIRA)

Promessas não cumpridas

Com a intenção de resolver a situação e evitar iminente acidente, que pode voltar a comprometer o acervo, surgiu o SOS Cinemateca, um grupo formado por funcionários, cineastas, pesquisadores e anônimos, amantes da 7ª arte, que já fez três protestos na calçada da instituição, como conta Eloá Chouzal, historiadora e pesquisadora de áudiovisual, que está à frente das ações do grupo. Ela diz que a situação é extrema. Por isso, o grupo resolveu chamar a atenção da sociedade civil e o poder público para acabar com o caos que toma conta de órgão cinematográfico. “A Cinemateca já está sem o pessoal da manutenção, os profissionais quem cuidam da refrigeração e sem a empresa de segurança. É uma tragédia! Nosso paciente está terminal”.

Segundo a Acerp, a Secretária Especial da Cultura deveria assumir as rédeas da crise por meio de um acordo entre o governo e a empresa. No dia 23 de junho, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e Mário Frias, estiveram no local e afirmaram que pagariam as dívidas. Mas nada foi cumprido. Para Carlos Augusto Calil, professor de cinema da Universidade São Paulo, a Cinemateca não está tendo suas salvaguardas respeitadas. “Politicamente, o governo Federal não renovou o contrato com a Acerp. É uma agressão à Nação. A Cinemateca foi abandonada”. Para ele, não há vontade política do governo. A questão deve ser judicializada. O Ministério Público Federal entrou, na quarta-feira, 15, com ação civil contra a União devido ao impasse. “A Justiça deve obrigar o governo a cumprir suas obrigações”, diz Calil. Nesse momento de pandemia, a associação mórbida da Cinemateca com a Covid-19 é perfeita para definir sua situação: espera-se que o paciente não evolua a óbito.

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