A crise migratória em Ceuta, que resultou na morte de dezenas de pessoas, eleva a tensão diplomática entre Itália e Espanha. Roma avalia a possibilidade de suspender temporariamente as regras do Espaço Schengen com o país ibérico, nesta sexta-feira (31), em meio a intensas discussões entre os dois governos.
O que aconteceu
- A crise migratória em Ceuta gerou tensão diplomática entre Itália e Espanha, com Roma cogitando suspender o acordo de Schengen.
- A Itália critica a Espanha por uma suposta “regularização” de migrantes, enquanto Madri refuta as acusações e defende sua gestão.
- A oposição italiana critica o governo Meloni, acusando-o de usar a situação para fins políticos e de propaganda.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, mantém contato constante com o ministro do Interior, Matteo Piantedosi, enquanto a questão é discutida em nível nacional e europeu. A crise foi tratada durante uma reunião realizada nesta manhã em Roma.
Segundo fontes do governo, a administração italiana considera que a situação em Ceuta exige uma resposta coordenada e afirma que sua posição sobre o controle migratório estaria recebendo apoio crescente de outros países da União Europeia.
Meloni também conversou com a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, sobre a emergência migratória e os possíveis impactos da crise para a livre circulação dentro da União Europeia.
Diplomacia em crise: meloni e piantedosi em ação
Ontem (30), a chefe de governo da Itália já havia afirmado que as imagens vindas de Ceuta eram “chocantes” e destacou que a imigração ilegal sem controle representaria uma ameaça à segurança das fronteiras europeias.
O vice-premiê e ministro das Relações Exteriores italiano, Antonio Tajani, apoiou a possibilidade de suspensão do acordo de Schengen com a Espanha, afirmando que a imigração irregular representa um risco à segurança nacional. Além disso, criticou a decisão de Madri de conceder cidadania a mais de 500 mil migrantes em situação irregular. Essa decisão levanta debates sobre a necessidade de acolhimento de imigrantes e a dignidade humana em meio às crises migratórias.
Por sua vez, o governo espanhol contestou a interpretação apresentada pelas autoridades italianas e afirmou que a crise em Ceuta não está relacionada ao processo de regularização de migrantes aprovado recentemente por Madri.
Fontes do Ministério das Relações Exteriores espanhol disseram à ANSA que o episódio teve origem em uma interpretação de uma decisão recente da Suprema Corte espanhola sobre pessoas que entram no território por via marítima.
O que dizem os governos sobre a regularização?
A administração de Pedro Sánchez explicou que redes criminosas teriam explorado essa interpretação para incentivar travessias irregulares e negou que os migrantes que chegaram recentemente possam se beneficiar da regularização.
Segundo as autoridades, o procedimento exige residência no país em 1º de janeiro de 2026 e presença contínua de pelo menos cinco meses no momento da solicitação.
Em meio à tensão diplomática, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, convocou o embaixador italiano em Madri, Giuseppe Buccino Grimaldi, para apresentar um protesto formal.
Além disso, Madri afirmou que mantém boas relações com o Marrocos e que a cooperação migratória entre os dois países continua ativa, incluindo mecanismos de repatriação de pessoas que atravessaram ilegalmente a fronteira.
Oposição italiana ataca governo meloni
Na esteira da polêmica, a oposição italiana criticou a postura do governo Meloni e classificou as declarações sobre Schengen como uma tentativa de criar uma crise diplomática com a Espanha.
O dirigente do Partido Democrático (PD), Peppe Provenzano, afirmou que o governo estaria usando a situação para fins políticos e acusou a administração italiana de recorrer à “propaganda” em vez de apresentar soluções para os problemas migratórios.
“Este é um governo de indivíduos irresponsáveis e enganadores. É um governo de pessoas irresponsáveis e enigmáticas que passou quatro anos sem resolver um único problema e que recorre à propaganda mais desprezível todos os dias”, enfatizou Provenzano.
O vice-presidente do Movimento 5 Estrelas (M5S), Stefano Patuanelli, também fez duras críticas, comparando os números de chegadas de migrantes na Itália e na Espanha e afirmando que os dados não sustentariam a narrativa apresentada pela direita italiana.
De acordo com Patuanelli, desde novembro de 2022 a Itália registrou mais de 325 mil desembarques, enquanto a Espanha contabilizou cerca de 175 mil entradas irregulares por mar e terra no mesmo período, mesmo considerando o fluxo excepcional registrado em Ceuta.