O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom da resposta às declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, e adotou uma das medidas diplomáticas mais contundentes da relação entre os dois países nos últimos anos. Nesta segunda-feira, o Ministério das Relações Exteriores convocou oficialmente o embaixador argentino no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos sobre os ataques feitos pelo líder argentino durante sua passagem por São Paulo e em entrevista a uma rádio de seu país.
Além da convocação do representante da Argentina, o Itamaraty também determinou o retorno imediato do embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas em Brasília. Na prática, a decisão representa um forte sinal de descontentamento do governo brasileiro e aprofunda a crise diplomática entre os dois principais parceiros comerciais da América do Sul.
O que aconteceu
- A crise Brasil Argentina se intensifica após o governo brasileiro convocar o embaixador argentino para esclarecimentos e determinar o retorno do seu representante em Buenos Aires.
- O presidente Javier Milei atacou o presidente Lula, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e instituições brasileiras em evento no Brasil e em entrevista posterior.
- As medidas diplomáticas brasileiras são consideradas as mais duras dos últimos anos, equiparadas à crise com Israel em 2024.
A reação ocorre após Milei atacar o presidente Lula, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e instituições brasileiras durante participação na convenção nacional do PL, realizada no estádio do Pacaembu. Posteriormente, em entrevista a uma rádio argentina, o presidente voltou a elevar o tom ao acusar o governo brasileiro, o México e o Partido Democrata dos Estados Unidos de financiarem uma suposta “campanha anti-argentina”.
Itamaraty cobra explicações da Argentina
A principal medida anunciada pelo governo brasileiro foi a convocação do embaixador argentino para uma reunião no Palácio Itamaraty.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o objetivo é transmitir formalmente a repulsa do governo brasileiro às declarações de Milei e exigir esclarecimentos oficiais da Casa Rosada sobre o episódio.
Em nota, o Itamaraty classificou as manifestações do presidente argentino como um “ato infamante” e afirmou que não há precedentes de um chefe de Estado estrangeiro utilizar território brasileiro para atacar simultaneamente o presidente da República, o Poder Judiciário e o povo brasileiro.
A entrevista concedida por Milei após o evento político foi considerada um fator determinante para acelerar a resposta diplomática, sobretudo após as acusações envolvendo o financiamento de uma suposta campanha contra seu governo.
Qual o impacto da convocação de embaixadores?
Paralelamente, o governo Lula determinou que o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, retorne imediatamente ao Brasil.
Na diplomacia, o chamado de um embaixador para consultas é considerado um dos instrumentos mais severos antes de uma eventual ruptura das relações entre dois países. A medida demonstra profundo descontentamento político e permite que o governo reavalie sua estratégia diplomática diante da crise.
Bitelli deverá participar de reuniões reservadas com o chanceler Mauro Vieira e com o presidente Lula para discutir os próximos passos da política externa brasileira em relação ao governo argentino.
Enquanto o diplomata permanecer em Brasília, a representação brasileira na Argentina ficará sob responsabilidade de um encarregado de negócios, reduzindo temporariamente o peso político da missão diplomática em Buenos Aires.
Escalada diplomática sem precedentes
Nos bastidores do Itamaraty, diplomatas avaliam que a reação brasileira está entre as mais duras adotadas nos últimos anos.
Segundo relatos de integrantes da diplomacia, uma resposta simultânea envolvendo a convocação do embaixador estrangeiro e o retorno do representante brasileiro para consultas só encontra paralelo recente na crise entre Brasil e Israel, registrada em 2024.
Diplomatas ouvidos nos bastidores afirmam ainda que não se recordam de um desgaste semelhante entre Brasil e Argentina nem mesmo durante o período das ditaduras militares, o que evidencia o nível de deterioração das relações entre os dois governos.
Apesar do agravamento da crise política, os canais técnicos e comerciais entre os dois países continuam funcionando, embora Brasília passe agora a reavaliar a condução da relação bilateral diante da escalada promovida por Javier Milei.