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Criminosos impõem toque de recolher e destroem lâmpadas para ocultar ataques no CE

Crédito: Alex GOMES / O Povo / AFP

Onda de violência no Ceará (Crédito: Alex GOMES / O Povo / AFP)

Na décima madrugada de ataques no Ceará, o clima em Fortaleza continua sendo de medo e preocupação. Apesar da redução do número de atentados nos últimos dias – foram registrados, oficialmente, 180 até a última quinta-feira, 10 – a população teme que as ocorrências continuem.

No fim da noite, criminosos detonaram uma bomba no viaduto de Messejana, na zona sudeste da capital cearense. A explosão provocou uma pequena cratera no chão e a pista foi interditada pela polícia.

“As facções se assustaram com a Força Nacional, mas é só ela ir embora que os ataques vão voltar a acontecer”, diz uma comerciante de 36 anos que pede para não ser identificada. Ela mora na Sapiranga, região onde nasceu a Guardiões do Estado (GDE), facção criminosa criada no Ceará. Na rua onde vive, o caminhão de lixo não passa desde o Ano-Novo e uma montanha de dejetos se acumula nas calçadas.

Além da GDE, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) também atuam nos presídios cearenses e têm sido responsáveis pelos ataques que incendiaram prédios públicos e privados, afetaram a circulação de ônibus e impactaram o dia a dia do cearense na última semana.

Moradores de bairros mais afastados do centro de Fortaleza relataram, sob a condição de anonimato, que homens ligados aos grupos do crime organizado continuam impondo toque de recolher dentro dos bairros e têm chegado até a queimar lâmpadas dos postes de iluminação pública para impedir a visibilidade no momento dos ataques, que têm acontecido na madrugada.

Já passava das 19 horas de quinta quando a recepcionista Débora Miranda, de 23 anos, desistiu de entrar no ônibus no Terminal da Parangaba que a levaria até a casa do namorado, na Barra do Ceará, bairro que registrou atentados como a queima de veículos. “Perto da casa dele, estão queimando as lâmpadas dos postes. E no caminho, o ônibus passa por essas ruas, que ficam totalmente escuras. Não tenho coragem de pegar. Não me sinto segura”, diz. “Todo mundo ainda continua com medo.”

A assistente administrativa Teresa Souto, de 35 anos, trabalha em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no Canindezinho, onde na quarta-feira um ônibus foi incendiado e a iluminação, cortada. “O atendimento encerrou às 21 horas e só retomou hoje (quinta), às 7 horas”, conta. O local funciona 24 horas.

“Como é que o governo diz que os ataques diminuíram? Está todo mundo com medo. Acho que não vai acabar tão cedo. Eles acham que prendendo muitos marginais, vão acabar. Mas é muito bandido”, afirma ela. “Estamos em guerra. Com certeza estamos em guerra, para chamar polícias de outros Estados é porque a situação já é de calamidade pública.”

Um motorista de 24 anos, que pede para não se identificar, diz ter percebido a redução dos ataques. “Mas ninguém está confiando que acabou. O crime dentro dos bairros é muito grande. As armas dos traficantes são pesadas, às vezes melhores do que as dos policiais”, diz.

Um entregador de bebidas relatou ao Estado que foi impedido pelos criminosos de entrar em dois bairros. “Eles chegaram dizendo: ‘Ou vocês saem daí ou vamos tacar fogo nesses caminhões”, relata. Para ele, se a Força Nacional se retirar, os ataques podem voltar novamente com força.

Nos terminais de ônibus, os coletivos com destinos considerados mais perigosos seguem partindo sob escolta de motoqueiros ou com a presença de dois policiais na porta de entrada. O apoio dos agentes de segurança tem início às 17 horas e segue até as 22 horas. Os ataques a ônibus diminuíram nos últimos dias, mas moradores relatam que agora a estratégia é incendiar espaços e veículos particulares, e não mais públicos.