Brasil

A criação de uma candidatura

Auxiliares de Temer já articulam a reeleição, enquanto o presidente só pensa na reforma da Previdência, em defender o seu legado e, no mínimo, virar peça-chave da própria sucessão

Ao mesmo tempo em que cresce o número de pré-candidatos que se dizem comprometidos com a agenda de reformas e com a continuidade da política econômica do governo, uma tese ganha força no Palácio do Planalto: se é para dar sequência às iniciativas da atual gestão, é melhor não perder tempo com nomes de intermediários e apostar logo na reeleição do próprio Michel Temer. O tema é tratado evidentemente com reservas. Mas as articulações correm numa raia paralela à principal preocupação do governo agora, a aprovação da reforma da Previdência. Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco reconhece que a reeleição não está fora dos planos, mas só será considerada após a votação das mudanças na Previdência, marcada para 19 de fevereiro. Mesmo assim, o marqueteiro Elsinho Mouco já trabalha a imagem do presidente.

O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Márcio Freitas, atesta que o objetivo imediato de Temer é a aprovação da sonhada reforma. Até agora, diz Márcio, o presidente não deu sinais de que pretende se candidatar. Mas, se não fala em continuar no cargo, também não se manifestou em contrário.

Na opinião do experiente cientista político Antônio Lavareda, o governo buscar nomes alternativos ao de Michel Temer contraria a lógica do poder. “Na sucessão de um governo que pretende ter continuidade, o candidato natural é o incumbente”, afirma ele. Ou seja, um governo que insiste em ter candidato à sua sucessão deve investir, em primeiro lugar, na reeleição do presidente. O novo ministro da Secretaria do Governo, Carlos Marun, que não costuma medir palavras, concorda e já defendeu de público a reeleição: “A nossa primeira opção deve ser o presidente Temer. Se ele decidir concorrer é o candidato natural do PMDB”.

“Nossa primeira opção deve ser o presidente Temer. Se ele decidir concorrer, é o candidato natural do PMDB” – Carlos Marun, ministro da Secretaria de Governo

Os gestos recentes de Temer são sintomáticos. No mínimo, mesmo que não seja o candidato, ele se torna o grande motor da própria sucessão. Em outubro, o presidente foi recebido em almoço pelos herdeiros de Roberto Marinho. No domingo 7, Temer se reuniu em São Paulo com o empresário Silvio Santos, e deixou acertadas gravações na TV e no programa do apresentador Ratinho, nas quais fará a defesa de sua administração e da reforma da Previdência. Se aprová-la, poderá pavimentar o seu projeto político. Qualquer que seja ele.

O tempo corre a favor de Temer. O presidente não precisa se desincompatibilizar do cargo em abril. Pode aguardar tranquilamente até as convenções em junho. E, se candidato, fará a campanha no exercício da Presidência. Apesar de toda cautela que cerca a reeleição, estrategistas do governo afirmam que tudo vai depender da reforma da Previdência. Em suas previsões, no caso de aprovação, haverá um cenário risonho para o governo, com inflacão sob controle, juros baixos mais investimentos, mais crescimento e mais empregos. Por conta de adiamento de aposentadoria haverá uma economia de R$ 4 bilhões. Se a reforma ratear, o cenário muda de ponta cabeça. A vitória no Congresso vai aplainar o caminho do candidato governista. E, certamente, poderá dar vida ao projeto de reeleição de Michel Temer, que está na política há mais de 40 anos e não veio a passeio.

Os próximos passos de Temer

1- Ganhar prestígio internacional com a sua plataforma de mudanças a ser apresentada em Davos, na Suíça, ao final do mês.

2- Articular apoios empresariais aos seus projetos de reformas

3- Arbitrar os interesses partidários para uma coalizão que siga unida na corrida presidencial em torno de uma única candidatura de centro

4- Conquistar apoio popular, diminuindo as taxas de rejeição nas pesquisas, através de uma intensa divulgação das realizações de seu governo que melhoraram a economia e já apresentam notórios resultados