Comportamento

Craques na mira

Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo aparecem em imagens assustadoras divulgadas por grupo terrorista em ameaça à Copa do Mundo de 2018. Estratégia segue cartilha de instaurar pânico antes de grandes eventos internacionais


TERROR 1 – Imagem com Messi executado e Neymar, de joelhos, prestes a ser morto: publicidade do medo disseminada pelo Estado Islâmico

TERROR 2 – No segundo cartaz, é Cristiano Ronaldo quem aparece como vítima de execução: discurso de ódio e ameaças à Copa na Rússia

Cristiano Ronaldo prestes a ser decapitado. Neymar Jr. ajoelhado e chorando. Lionel Messi caído no chão, morto. Na semana passada, imagens sombrias dos maiores nomes do futebol mundial foram usadas por um grupo de propaganda terrorista ligado ao Estado Islâmico para divulgar o pânico e ameaçar a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, que começa em junho do ano que vem.

A estratégia tem ligação com uma cartilha antiga da facção, a de instaurar o pânico às vésperas de grandes eventos internacionais – foi assim também na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016. Desta vez, porém, trata-se de um país que é oficialmente alvo de ataques terroristas: em abril, uma explosão entre duas estações de metrô em São Petersburgo matou 11 passageiros.

Um mês depois, quatro pessoas foram presas por suspeita de estarem preparando um novo ataque. Às vésperas do Mundial, a nova legislação russa de combate ao terror assinada pelo presidente Vladimir Putin em meados de 2016 – e criticada por ser dura e violar a privacidade dos cidadãos – deve ficar ainda mais pesada.

Para o doutor em segurança internacional Marcos Degaut, professor na University of Central Florida, nos Estados Unidos, ainda que grupos extremistas não atinjam diretamente os grandes craques do futebol, a publicidade terrorista alcança seu objetivo ao ser assimilada com uma imagem assustadora, de pânico, como no caso dos cartazes com os jogadores. “O objetivo do terrorismo é instilar o terror, é colocar as pessoas em estado de medo permanente e fazer com que estados invistam recursos na área militar, transformando um governo democrático em militarizado”, afirma.

É o que deve acontecer na Rússia em nome da segurança do evento. Para Degaut, quando o grupo tira o foco da política e mira em pessoas próximas da nossa realidade, a exemplo de Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo, indica que qualquer pessoa pode se tornar um inimigo. “Não precisa ser necessariamente um governante”, afirma.

PODERIO Presidente da Rússia, Vladimir Putin sancionou uma legislação severa contra o terrorismo em 2016 (Crédito:REUTERS/Yuri Kochetkov/Pool)

Quando um grupo terrorista tira o foco da política e mira em
pessoas da nossa realidade, como jogadores de futebol,
indica que qualquer pessoa pode se tornar inimigo

HISTÓRICO DE ATAQUES

Ainda que possa ocorrer em qualquer lugar e a qualquer momento, um atentando terrorista parece ser bastante plausível na Rússia, onde o terrorismo é de base estrutural fomentado por históricos conflitos separatistas em regiões de matiz islâmico. “É possível dizer que 99% dos atentados no país nos últimos 15 anos têm componente religioso-separatista”, afirma Degaut.

Por isso, o risco de uma tragédia acontecer durante um grande evento, como a Copa do Mundo, é alto. “Ao contrário do Brasil, que não tem histórico de atos terroristas, lá isso existe, e ainda que o serviço de inteligência também tenha tradição no combate ao terror, não diminui a gravidade das recentes ameaças.” Em 2014, durante a Olimpíada de Inverno de Sochi, já houve ameaça real justamente por causa dos grupos separatistas e religiosos.

Isso porque Sochi fica em uma região em que há reivindicação de independência, próxima ao Daguestão e à Chechênia, além de ser uma área de atuação de radicais islâmicos. Na época, US$ 3 bilhões foram investidos pelo governo russo em medidas de segurança. Nenhum ataque foi registrado.

Por trás do risco iminente de um atentado terrorista está o Estado Islâmico. Diante de sucessivas derrotas em territórios estratégicos na Síria e no Iraque, o grupo investe na dispersão de suas atividades, cooptando seguidores via redes sociais.

Uma das categorias é de pessoas que vivem em seus países de origem ou são cidadãos legais dessas nações, mas que têm alguma ligação com o terrorismo, embora longe do núcleo das facções. Elas se tornaram agentes de radicalizações, realizando atentados como lobos solitários ou atuando em pequenas unidades extremistas, como no caso do grupo responsável pelos cartazes ameaçadores com os jogadores. “Vocês não vão aproveitar a segurança enquanto nós não a vivermos nos países muçulmanos”, dizia uma das imagens.

Antes disso, há cerca de duas semanas, outras ameaças foram disseminadas com recados diretos ao evento. Em pôsteres, o símbolo da Copa na Rússia e imagens de estádios são ladeados por frases de terror. “Juro que o fogo dos jihadistas vai queimar vocês. Apenas esperem.” A oito meses do Mundial, o medo, pelo menos no discurso, já está instaurado.

Copa 2018: obras atrasadas e “puxadinho” russo

REUTERS/Maxim Shemetov

O governo da Rússia admitiu, na terça-feira 31, que há obras atrasadas em alguns estádios que vão receber jogos da Copa do Mundo de 2018. Uma das situações mais críticas é a do Samara Arena, onde a grama ainda não foi instalada por problemas de estrutura e engenharia. Apesar dos contratempos, o vice-primeiro-ministro, Vitaly Mutko, líder do Comitê Organizador do Mundial, afirmou que não há motivo para preocupações e que, no geral, as obras estão sob controle.

No começo de outubro, o presidente russo, Vladimir Putin, disse que o país não podia relaxar, pois já está na reta final dos preparativos para o evento. Outro episódio chamou a atenção recentemente: a construção de uma espécie de “puxadinho” em um estádio para que o número de lugares fosse estendido até chegar ao público mínimo exigido pela FIFA. A obra fica na Ekaterinburg Arena, que tinha 27 mil assentos disponíveis antes da reforma. Agora, dois blocos de arquibancadas instalados atrás dos gols, bizarramente para fora do estádio e sem cobertura, completam a marca de 35 mil lugares.