Brasil

CPI investiga o lobby da Cloroquina

Senadores da comissão que apura as negligências do governo na pandemia suspeitam que empresários do setor farmacêutico pagaram propinas a governantes para a propagação do uso de remédios ineficazes contra a Covid

Crédito: Mateus Bonomi

TROFÉU Bolsonaro expõe uma caixa de cloroquina: promoção suspeita (Crédito: Mateus Bonomi)

Depois de descobrirem uma série de recusas pela compra de vacinas e a existência de um gabinete paralelo que aconselhou Jair Bolsonaro a tomar medidas erráticas durante a pandemia, os senadores da CPI da Covid agora concentram esforços para investigar os motivos que levaram o presidente e seus aliados a fazerem a defesa obsessiva pelo uso de remédios sem eficácia comprovada pela ciência, como a cloroquina e a ivermectina, no tratamento de pacientes infectados pela doença. Os senadores suspeitam que os laboratórios farmacêuticos que produzem esses medicamentos pagaram propinas a autoridades do governo para estimular a utilização de seus produtos, proscritos pela comunidade científica mundial no combate à Covid, mas que no Brasil foram alvo de um grande lobby para a sua prescrição. Esta semana, inclusive, a CPI quebrou os sigilos telefônico, fiscal, bancário e telemático de empresários desse segmento com o objetivo de encontrar os caminhos das prováveis ações criminosas que resultaram na utilização indiscriminada da cloroquina.

Depoimentos colhidos até o momento e um volume gigantesco de documentos reunidos pela comissão apontam para indícios de irregularidades em contratos celebrados pelo governo federal para a compra desses remédios. As investigações serão orientadas com base em duas suspeitas. A primeira é a que indica que o mandatário teria beneficiado indústrias farmacêuticas após ter começado a defender publicamente o uso dessas substâncias. A outra apontada pelos senadores é que os laboratórios teriam pago propinas a integrantes do Palácio do Planalto para que propagassem o uso de cloroquina e ivermectina como alternativas no combate ao vírus.

“As suspeitas aumentaram porque vimos que o faturamento desses laboratórios cresceu espantosamente com a venda desses medicamentos. Alguns até saíram de uma situação de instabilidade financeira para um quadro de lucratividade expressiva”, disse o senador Humberto Costa (PT-PE), que integra a CPI. Um dos alvos da comissão nesse esquema fraudulento seriam Renata Farias Spallicci e Renato Sapallicci, da Aspen. A CPI tem documentos indicando que Bolsonaro atuou diretamente em favor da Aspen e da EMS na importação da Índia, em abril do ano passado, de uma grande quantidade de insumos para produção no Brasil da hidroxicloroquina. As importações só puderam acontecer graças à intervenção do próprio presidente junto ao primeiro-ministro indiano Narendra Modi para favorecer as empresas brasileiras no negócio. Outro empresário que teve a quebra dos sigilos determinada na quarta-feira, 16, foi Francisco Emerson Maximiano, sócio da Precisa Medicamentos, também suspeito da prática de irregularidades.

“Kit Covid”

A CPI quebrou os sigilos também de José Alves Filho, da Vitamedic, a pedido do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Segundo o vice-presidente da comissão, a Vitamedic respondeu por 80% de toda a ivermectina produzida no Brasil em 2020, dando um salto espetacular nas vendas, que cresceram de R$ 44,4 milhões em 2019 para R$ 409 milhões no ano passado. A ivermectina, ao lado da cloroquina, é um dos produtos que compõem o “kit Covid” adotado pelo governo federal para o tratamento contra a doença, mesmo sem eficácia comprovada.

Já foram apresentados pelos parlamentares pedidos de quebra de sigilo fiscal de representantes de algumas fabricantes desses medicamentos, além de requerimento para que Carlos Sanches, CEO de uma delas (a EMS), seja ouvido pelo colegiado. O objetivo é apurar se os laboratórios receberam algum tipo de favorecimento, principalmente porque alguns, como a EMS e a Apsen, conseguiram empréstimos de mais de R$ 280 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), controlado pelo governo Bolsonaro. Os senadores trabalham com a possibilidade de que o mandatário atuou para aumentar a demanda de cloroquina no mercado brasileiro como forma de possibilitar que as farmacêuticas conseguissem quitar os empréstimos “naturalmente”. Para verificar se houve lobby da cloroquina, a CPI também já aprovou requerimentos para obter informações de outros fabricantes, como Cristália e Sanofi. Os donos dessas empresas são considerados pela CPI apoiadores do presidente da República.

Outro alvo na mira dos senadores o empresário bolsonarista Carlos Wizard, apontado como um dos idealizadores do “gabinete paralelo” que orientou Bolsonaro no combate à Covid e que também teve seus sigilos quebrados na quarta-feira, 16. Wizard atuava como conselheiro do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e chegou a ser convidado para assumir uma secretaria da pasta, na época controlada pelo general. Conhecido defensor da cloroquina e do tratamento precoce, o empresário é apontado pelos senadores da CPI como um dos principais membros do grupo negacionista que assessorava Bolsonaro. A comissão também solicitou a quebra de sigilo de Pazuello.

Cerco aos fujões

Os parlamentares convocaram Wizard para depor. Os senadores tiveram dificuldades para notificá-lo. Ele não foi localizado em lugar algum. Só conseguiram encontrá-lo na internet. O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues, enviou uma mensagem para ele enquanto o empresário fazia uma live. Seu paradeiro só chegou ao conhecimento da comissão na segunda-feira, 14, quando advogados revelaram que Wizard estava nos EUA desde o dia 30 de março para acompanhar o tratamento médico de um familiar. No mesmo comunicado, a defesa do empresário pediu para que a oitiva, marcada para a última quinta-feira, 17, fosse feita via videoconferência, possibilidade rejeitada pela presidência do colegiado. Ele não apareceu. O presidente da CPI, Omar Aziz, pediu sua condução coercitiva, pois ele não apresentou justificativa para a ausência, e decidiu apreender seu passaporte quando ele voltar ao País. Na quarta-feira, 16, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, concedeu-lhe direito de permanecer em silêncio no depoimento à CPI, quando nova data for marcada. A ministra Rosa Weber considerou “gravíssima” a formação do gabinete paralelo e manteve a quebra dos sigílos de Wizard. O certo é que o cerco aos empresários do lobby da cloroquina cada vez se estreita mais.